COVID-19 e Médio Oriente

O brigadeiro-general Nuno Lemos Pires, investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE e professor da Academia Militar, analisa o impacto da Covid-19 no Médio Oriente.

O Médio Oriente (MO) sempre foi uma espécie de coração do Mundo. Na sua configuração mais consensual, que inclui a região da Península Arábica, o Egito, a Turquia e o Irão, o MO é, foi e será, fonte de inúmeras interações para quase todo o planeta. Ali se juntam três continentes, a Ásia, a Europa e África e dois oceanos, o Mediterrâneo (que depois liga ao Atlântico) e o Índico.

O MO é um espaço incontornável, na história e na geografia, na espiritualidade e nas religiões, no equilíbrio dos recursos do planeta e na centralidade de movimentos de pessoas e bens. Foi nesta ampla região que nasceram fontes de direito (código de Hamurabi), as principais religiões como o Zoroastrismo e as três abraâmicas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Aqui surgiram e desapareceram civilizações, como os Assírios, Sumérios, Sabeus, Babilónicos, Hititas, Omíadas, Abássidas, ...;grandes Impérios, como o Persa, o Macedónico, o Romano ou o Otomano; entraram poderes exteriores como os Britânicos, os Franceses e os Alemães e, mais recentemente, a Rússia, os EUA e a China.

O MO também foi uma região de profundas cisões e ruturas. As três religiões abraâmicas, distintas entre si, cindiram-se em dezenas de ramos e fações. Aqui tanto se fraturaram como se somaram alianças de povos e é onde, ainda reside, muita da conflitualidade do nosso planeta. Aqui, em plena crise da Corona Virus Disease 19, continuamos a assistir a uma espécie de "guerra fria" entre Xiitas (a partir de Teerão) e Sunitas (desde Riade) que por vezes se torna "quente" nas habituais guerras por procuração (na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iémen). Aqui, continua bem aceso o conflito entre Israel e a faixa de Gaza / Cisjordânia, numa conflitualidade maior que inclui grande parte do mundo Árabe. Aqui, é onde reside mais de metade de todo o petróleo e o gás natural do mundo, e nenhum grande ator internacional relevante está ausente. Por isso esta região é um coração fundamental que faz tudo mover, que a todos preocupa, que a todos interessa e que, por estar doente há mais de um século, precisa de cuidados permanentes. Se parar, não para apenas o MO, paramos todos.

Esta crise acentuou a instabilidade pré-existente. O inferno que se vive no Iémen ficou incontrolável e, se a ajuda internacional já era pouca, agora é quase residual. Na Síria e no Iraque, o confinamento levou a alguma contenção nos esforços de guerra, mas o isolamento levou a gravíssimas condições nos campos de refugiados, muito menor disponibilidade por parte das Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Internacionais (OIs), ao fomentar de novas narrativas radicais por parte dos extremistas e a fortes reivindicações por parte de todos os envolvidos.

Ninguém previu os efeitos desta crise, basta ver por exemplo o "caminhar" das narrativas radicais do Daesh e da Al-Qaeda, que começaram por atacar a China dizendo que o vírus era uma punição divina por cederem ao capitalismo e pelo que faziam contra os uigures, chegado ao Irão referiram a punição contra os heréticos e, quando atingiu todo o mundo, era uma intervenção divina contra os pecaminosos clubes noturnos e discotecas. Para além desta retórica de oportunidade, apelaram aos adeptos para se atacar as grandes cidades e exigiram a saída das forças internacionais do MO. E houve efetivamente alguma retração das forças internacionais, regista-se menos ajuda e uma queda abrupta nas ajudas ao desenvolvimento.

O panorama pode ficar muito negro. A vida económica no grande MO, que depende da venda de energia fóssil, está em mínimos históricos. As grandes OIs estão ausentes e sem vontade de agir. Todos os países no mundo, porque têm de lidar com os seus próprios problemas pelos efeitos da pandemia, não mostram vontade em apoiar. Sobra por isso, apenas, a ação direta dos atores regionais, que aproveitam para marcar posição num momento de ausências. A Turquia está presente na Síria e alarga a sua ação até à Líbia, o Irão reforça o papel dos seus proxys (no Iraque, na Síria e no Líbano) e Israel dá sinais de grande controlo. Mas as pessoas, os milhões de habitantes deste grande MO, em especial, os mais vulneráveis (a pandemia veio agravar as desigualdades e as assimetrias), estão mais abandonados do que nunca. Menos dinheiro, menos atenção, enorme desemprego, ajudas estatais quase inexistentes e um grande descontrolo na gestão da pandemia, em especial, onde abundam refugiados e se foge da guerra. Os Estados não têm capacidade para mitigar os riscos e consequências da pandemia, estão dependentes das ONG e das OIs que, conjunturalmente, também se confrontam com os condicionalismos da situação como o fecho de fronteiras, o isolacionismo e o confinamento à escala global.

Este não é o momento de abandonar os povos do MO. Pelo contrário. Este deverá ser o momento para repor os instrumentos do multilateralismo e fazer planos para o futuro. O mundo vai mudar depois desta crise. Menos nuns sítios de que noutros, mas, garantidamente, de forma profunda no MO. Se soubermos apoiar os esforços multilaterais em vigor e apoiar os esforços futuros, da ONU, da UE, da NATO e, menos, das iniciativas isoladas de uns quantos atores regionais e globais, haverá soluções gradativas possíveis e exequíveis. Em particular, consideram-se necessárias, para minimizar o impacto da COVID 19 na região: (1) assegurar a manutenção dos trabalhos em curso das ONGs e OIs; (2) apoiar os Estados soberanos em implementar medidas sanitárias nos hospitais centrais e nos campos de refugiados/deslocadose; (3) manter os canais diplomáticos abertos e a monitorização/gestão de crises e conflitos em curso.

Se não soubermos dar a atenção que este coração precisa, haverá um agravamento imediato e, como consequência, do estado de saúde geral do restante mundo que dele depende. Afetará, quer queiramos quer não, todos nós. Se há algo que esta crise veio demonstrar, de forma inequívoca, é que estivemos, durante demasiado tempo, a ignorar o que a ciência nos alertava: para o facto de precisarmos de equilíbrio na gestão dos recursos do planeta e de termos de apostar muito mais na dimensão da prevenção de catástrofes naturais e de pandemias.

No MO esta dimensão é ainda maior porque aqui tudo se agrava, há mais demografia e menos recursos, as temperaturas aumentam e os apoios desaparecem. Um Egito com um Nilo mais depauperado e profundamente poluído, um Iémen sem água, sem paz e sem alimentos, uma Síria espartilhada pela influência de inúmeros atores internos e externos, um Iraque em contínua ameaça de desagregação, e, todos, mesmo todos os países do MO, ameaçados pela crescente falta de água potável, pela desertificação e poluição crescente. Com esta terrível crise pandémica, que mata a vida e torpedeia a economia, temos a receita geral para uma desgraça que tem, que terá, de ser invertida. Há solução, mas passa, necessariamente, por todos nós.

https://academiamilitar.academia.edu/NunoPires

NOTA: Este texto representa uma síntese da intervenção do autor no webinar "Médio Oriente em tempos de COVID-19", organizado pelo Centro de Estudos Internacionais do Iscte e pelo Instituto da Defesa Nacional, em parceria com o Diário de Notícias. A próxima sessão decorrerá no dia 4 de junho, às 18h, e será subordinada ao tema "África em tempos de COVID-19", com participação de Ana Lúcia Sá (CEI-Iscte), Fernando Jorge Cardoso (CEI-Iscte/IMVF), Alexandra Magnólia Dias (IPRI-NOVA) e moderação de Pedro Seabra (CEI-Iscte/IDN). O evento é aberto ao público em geral mas a participação requer inscrição prévia em https://bit.ly/2ZBznrJ

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