"Conteúdos inadequados". Aliado de Bolsonaro censura 43 clássicos da literatura

Obras de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues e "O Castelo", de Kafka", foram mandados recolher das escolas de Rondônia, estado governado por coronel apoiante do presidente brasileiro. Dada a repercussão, ordem foi entretanto suspensa.

A Secretaria da Educação do estado de Rondônia, no norte do Brasil, emitiu um comunicado a mandar recolher 43 livros das escolas por conterem "conteúdos inadequados" para crianças e adolescentes. A lista inclui obras dos mais prestigiados autores brasileiros, como Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Ferreira Gullar ou Rubem Fonseca, e ainda O Castelo de Kafka, por exemplo. O governador do estado é Marcos Rocha, um coronel de polícia de extrema direita eleito em 2018 na onda que levou Jair Bolsonaro à presidência do Brasil

Confrontada com o jornal ​​​​​​Folha de S. Paulo com essa lista, a secretaria começou por chamá-la de "fake news". Depois admitiu a sua existência e, finalmente, dada a repercussão negativa, suspendeu a decisão. Nem o governador, nem o presidente se pronunciaram até agora. O Ministério Público vai investigar o caso.

Bolsonaro disse em campanha e já depois de eleito que existe uma doutrinação de esquerda nas escolas, a que chama de "marxismo cultural", e recentemente criticou "o excesso de escritos nos livros didáticos", recomendando mais desenhos.

Rocha foi eleito governador com cerca de dois terços dos votos numa segunda volta disputada com Expedito Junior, do PSDB, de centro-direita. "Eu fui escolhido para esta missão pelo Bolsonaro por ser uma pessoa de bem, por ter verdadeiramente a ficha limpa e ser totalmente limpo. Eu quero dizer que a esperança nos move e nos faz vencer e superar os obstáculos", disse o político (e polícia) na ocasião. Ele concorreu pelo PSL, o mesmo partido de Bolsonaro naquela época, e equaciona agora transferir-se para o Aliança Pelo Brasil, fundado em novembro em torno da figura do presidente.

No comunicado de recolha dos livros, recomenda-se ainda aos professores para "estarem atentos às demais literaturas já existentes ou que chegam às escolas" para que "sejam analisadas e assegurados os direitos do estudante de usufruir do mesmo com a intervenção do professor ou sozinho sem constrangimentos e desconfortos". Há ainda uma observação para que todos os livros de Rubem Alves, autor que questionava modelos tradicionais de educação, sejam recolhidos na totalidade.

Macunaíma, de Mário de Andrade, Memórias Póstumas de Brás Cubas, e Os Sertões, de Euclides da Cunha, que são considerados clássicos da literatura brasileira e fazem parte dos currículos escolares, estão entre os títulos vetados. Rubem da Fonseca tinha 11 livros na lista, Carlos Heitor Cony oito, Nelson Rodrigues três. O Castelo, de Franz Kafka, e Contos de Terror, de Edgar Allan Poe, também constam.

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