Com o fim do Estado Islâmico, agora é tempo de resolver a guerra

Nova ronda das negociações de paz está marcada para a segunda metade de janeiro em Genebra.

O dia 9 de novembro de 2017 ficará para a história como a data em que o exército sírio declarou vitória sobre o Estado Islâmico, pondo fim a quase três anos de reinado do grupo terrorista na região. Mas esta foi apenas uma batalha, pois a guerra civil na Síria está longe de acabar. Estima-se que desde o seu início, em 2011, já tenham morrido cerca de 480 mil pessoas (entre militares e civis), mais de sete milhões tenham abandonado as suas casas mas ficado no país, e mais de cerca de cinco milhões tenham sido obrigados a procurar refúgio no exterior.

"A luta contra o Estado Islâmico desde 2014 ofuscou a guerra síria tendo em conta que atores externos influentes, incluindo os Estados Unidos e a Rússia, deram prioridade à derrota do terrorismo e aumentaram a sua influência na resolução do conflito. Agora que o Estado Islâmico foi derrotado e o equilíbrio de poder foi estabelecido no terreno, não existem mais desculpas para adiar o início de um verdadeiro processo de resolução do conflito. Os confrontos militares estão quase terminados, mas escrever o capítulo final requer determinar quem irá controlar as áreas disputadas no oeste da Síria, de Idlib a Deraa", explicou ao DN Joe Macaron, analista do Arab Center em Washington e especialista em Médio Oriente.

As conversações de paz continuam, sem grandes resultados, estando marcada uma nova ronda de negociações para a segunda metade de janeiro, em Genebra, na Suíça, anunciou na semana passada o enviado especial da ONU para a Síria. Staffan de Mistura culpa a intransigência de regime e oposição pelo impasse nas negociações, tendo o italiano dito no Conselho de Segurança que iria começar 2018 com uma proposta para envolver um grupo mais amplo na reforma constitucional e eleitoral, numa tentativa de desbloquear a situação. Estas negociações marcadas para janeiro poderão beneficiar de um impulso político criado pela presença na Suíça de vários líderes mundiais, que irão participar no Fórum Económico Mundial, agendado para os dias 23 a 26 do próximo mês em Davos.

O presidente russo, Vladimir Putin, também já anunciou a intenção de reunir centenas de sírios de todas as fações no início de 2018 para um Congresso de Diálogo Nacional sírio em Sochi, nas margens do mar Negro.

"Não devemos esperar um avanço a curto prazo nas negociações entre o regime e a oposição. Mesmo quando a guerra a acabar, violência esporádica irá continuar em áreas disputadas na Síria. A próxima batalha diplomática será sobre os esforços de reconstrução, os recursos energéticos e quem tem legitimidade governativa nas esferas geográficas de influência da Síria", acrescentou o mesmo especialista. Que chama a atenção para um ponto em particular: "Uma questão-chave será se os refugiados sírios na região voltarão para casa nas atuais circunstâncias. Os países que acolhem estes refugiados, principalmente o Líbano e a Jordânia, provavelmente terão de aumentar a pressão nesse sentido, o que poderá ter um impacto na evolução da Síria."

O novo clima de tensão que se vive no Médio Oriente desde que Donald Trump reconheceu Jerusalém como a capital de Israel terá também consequências no desenrolar da guerra na Síria, já que esta é, defende Macaron, "influenciada por três fatores externos". "Primeiro, uma cooperação EUA-Rússia será a chave para manter apesar da desconfiança mútua entre os dois lados. A estratégia para o Médio Oriente do Irão no período pós-Estado Islâmico, bem como a resposta de EUA, Israel e Arábia Saudita à política de Teerão, será outro fator determinante. Finalmente, a aliança da Turquia com a Rússia foi determinante para pôr fim aos confrontos na fronteira norte, mas Ancara terá de definir o seu papel na Síria pós-guerra, principalmente no que diz respeito aos grupos curdos", explica o analista do Arab Center.