Cameron em xeque devido a 200 mil libras dadas pela mãe

Primeiro-ministro britânico divulgou declaração de impostos em nome da transparência, mas está a ser acusado de tentar evitar pagar taxas referentes a heranças

A ideia de David Cameron ao revelar as declarações de impostos dos últimos anos era pôr uma pedra sobre as revelações em torno dos Papéis do Panamá. Mas as contas saíram furadas ao primeiro-ministro britânico, que agora é questionado sobre a soma de 200 mil libras (250 mil euros) que a mãe lhe deu após a morte do pai, havendo quem diga que é uma tentativa de evitar pagar no futuro o imposto sucessório. O líder da oposição, Jeremy Corbyn, quer que Cameron responda na Comissão de Ética do Parlamento.

É a primeira vez que um primeiro-ministro britânico divulga os rendimentos, abrindo um precedente que deverá forçar no futuro outros líderes partidários a fazer o mesmo. Corbyn já disse que o fará muito em breve, insistindo que não haverá "surpresas". Cameron discursa hoje no Parlamento sobre política fiscal, devendo anunciar a criação de um grupo de trabalho para investigar denúncias de fuga aos impostos e lavagem de dinheiro.

Os dados revelados no sábado à noite por Downing Street mostram que Cameron ganhou quase 1,1 milhões de libras (1,36 milhões de euros) nos últimos seis anos, tendo pago cerca 400 mil libras (meio milhão de euros) de impostos. Só no ano passado, pagou 76 mil libras (94 mil euros) sobre um rendimento de 200 mil libras (250 mil euros). Além do salário de 142 500 libras (176 mil euros) anuais, Cameron ganha quase 50 mil libras (62 mil euros) por ano pela sua parte do aluguer da casa de família, em Nothing Hill.

Mas o que chamou a atenção nas declarações de impostos foram outras 200 mil libras - as transferidas pela mãe do primeiro-ministro para as contas do filho em duas tranches, em maio e julho de 2011. Segundo a lei, Cameron só terá que pagar imposto sucessório sobre esse valor se a mãe morrer antes de 2018, isto é, durante o prazo de sete anos após as transferências.

A oferta, explicou Downing Street, terá servido para compensar o facto de o irmão mais velho do primeiro-ministro ter ficado com a propriedade da família. "O Alex ficou com a casa e a mãe dele sentiu que o primeiro-ministro tinha ficado com pouco e queria equilibrar as coisas. Por isso deu 200 mil libras a Cameron e às duas irmãs", disse ao The Sunday Times uma fonte do gabinete do primeiro-ministro. Após a morte do pai, em 2010, o líder do Tories recebeu 300 mil libras da herança, isentos de impostos.

Foi a revelação de que Ian Cameron era cliente da Mossack Fonseca, a sociedade de advogados que viu 11,5 milhões dos seus documentos acabarem nas mãos do Consórcio Internacional de Jornalistas de Informação, que deixou o primeiro-ministro britânico em problemas. Tudo porque, depois de inicialmente dizer que era um "assunto privado", acabaria por reconhecer ter tido ações do fundo de investimento criado pelo pai numa offshore. Essas ações foram vendidas em 2010, antes de Cameron chegar a Downing Street, com um lucro de 9500 libras (quase 12 mil euros), abaixo do nível mínimo que obriga a pagar imposto sobre ganhos de capital.

Acusações da oposição

A líder da oposição acusou esta semana Cameron de "enganar" os eleitores. E mesmo depois de este ter revelado as suas declarações de impostos, Corbyn continua a exigir mais transparência. "Quero ver os documentos. Precisamos de saber o que é que ele na realidade pagou de impostos. Precisamos de saber porque é que ele pôs o dinheiro numa offshore em primeiro lugar e se ele teve algum lucro antes de 2010, quando se tornou primeiro-ministro", disse à BBC.

O líder do Labour quer por isso que Cameron responda na Comissão de Ética do Parlamento, defendendo ainda que seja obrigatório os deputados (e até os jornalistas que escrevem sobre política) revelarem as declarações de rendimentos. "Penso que isso seria positivo para as pessoas saberem que influências estão em jogo", disse no programa do jornalista Andrew Marr.

Também os políticos alemães pediram ontem ao primeiro-ministro que faça mais para evitar que as empresas criadas nos paraísos fiscais nos territórios ultramarinos britânicos ajudem à evasão fiscal. "Se Cameron ainda quer ser levado a sério pessoal e politicamente no combate contra a evasão fiscal, o Reino Unido precisa de colmatar as lacunas no seu próprio país", disse ao Welt am Sonntag Cartsten Schneider, perito em orçamento do Partido Social-Democrata alemão, aliado da chanceler Angela Merkel.

Brexit

As acusações em torno dos Papéis do Panamá podem ter um impacto negativo na campanha do referendo de 23 de junho sobre a continuação do Reino Unido na União Europeia. "Os escândalos à volta das finanças de Cameron podem virar a balança ainda mais a favor do brexit", disse em comunicado o antigo líder do Partido Nacionalista Escocês, Gordon Wilson.

O primeiro-ministro é o principal rosto da campanha do "ficar", estando o presidente da câmara de Londres, Boris Johnson, do outro lado da barricada. Diante da divisão dentro dos conservadores e para evitar ficar ainda mais fragilizado, Cameron estará a preparar uma remodelação governamental para depois do referendo, no qual Johnson terá direito a um cargo de ministro.

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