Britânicos em Portugal: "Problema é que não sabemos quais serão as consequências"

Paul Luckman chegou a Portugal antes da revolução, Michael Reeve já no novo milénio e Wendy Manning em 2007

"Não estou cheio de medo, mas estou preocupado." Paul Luckman troca o inglês nativo pelo português que adotou há mais de 40 anos quando se fala nas sondagens que dão a vitória ao brexit no referendo de 23 de junho. O proprietário do semanário The Portugal News , editado no Algarve, acredita que os eleitores estão a basear-se nas emoções e não nos factos para decidir se querem que o Reino Unido fique ou saia da União Europeia e isso pode trazer más consequências para os expatriados como ele. E não é o único britânico que vive no nosso país a pensar o mesmo.

"O problema é que não sabemos quais serão as consequências do brexit. Serão muitas, será grave, não haverá nenhuma? Ninguém sabe as respostas. E não saber as respostas preocupa as pessoas", conta ao DN Michael Reeve, diretor executivo da AFPOP, a associação de proprietários estrangeiros em Portugal. "O problema é que não sabemos em que situação ficamos. Porque deixaremos de ser cidadãos da União Europeia, seremos só cidadãos britânicos", explica Wendy Manning, editora do fórum Hey Portugal.

Há nove anos a viver no centro do país, Manning admite que a proximidade entre ingleses e portugueses, cuja relação remonta ao século XIV, poderá levar Lisboa a negociar um "acordo especial" com Londres. Segundo o site da embaixada, 60 mil britânicos vivem e trabalham pelo menos durante uma parte do ano em Portugal. E mais de dois milhões de turistas visitam o nosso país - as previsões é que este ano possam ultrapassar os três milhões.

"A maioria das pessoas que deixaram o Reino Unido para viver no exterior votam pelo "ficar", porque muitos decidiram sair com base no facto de serem cidadãos da UE e, como tal, terem determinados direitos, quer seja de trabalho, de viajar, de cuidados de saúde. Agora não têm a certeza se essas coisas vão continuar a ser verdade se votarem para sair", explica Reeve.

O diretor da AFPOP admite que há muitos que acreditam que a campanha "é só uma série de pessoas a gritar umas contras as outras e as consequências do brexit serão nulas". No Algarve desde 2002, Reeve diz que o referendo está "demasiado renhido" para poder prever o que vai acontecer, acreditando que se houver uma grande mobilização dos jovens, "que não sabem o que é viver fora da UE", então irá ganhar o "ficar".

Já Luckman, que veio de férias para Portugal em 1973 e já não quis sair, acredita que o brexit vai ganhar. "Não gosto da ideia, mas acho que ganha o brexit, porque as pessoas não estão a ouvir os argumentos sólidos, da economia, estão a seguir os argumentos puramente emocionais", explica. "Sinto que estamos a fazer a coisa errada. O mundo em que vivemos hoje não é um mundo isolacionista, não somos a Coreia do Norte."

O diretor do The Portugal News, semanário que nasceu em 1977 e tem uma tiragem de 20 mil cópias, critica ambas as campanhas: "Não é justo, não é certo, ninguém está a dizer a verdade." Manning admite que nestes últimos dias a campanha do brexit tem sido "muito agressiva e nem sempre verdadeira", em especial no que diz respeito à economia.

Sem direito de voto

Luckman e Reeve estão em Portugal há tanto tempo que já não podem votar no referendo - só os eleitores que tivessem inscritos há menos de 15 anos no Reino Unido podiam fazê-lo. Mas Wendy Manning já exerceu o seu direito, dizendo que este referendo é mais importante do que a eleição de um primeiro-ministro. "Toda a gente está preocupada com o brexit. Conheço muita gente que já votou através do voto postal e todos votámos para "ficar"", contou. Já o irmão, que vive no Reino Unido, acha que estaria melhor fora da UE. "Já lhe expliquei os meus argumentos", diz resignada.

Reeve chegou a enviar uma carta ao primeiro-ministro britânico, David Cameron, criticando o facto de as pessoas que são diretamente afetadas por este tema não serem autorizadas a votar, enquanto ainda são taxadas pelo governo britânico. E disse estar "irritado" por os habitantes de Gibraltar ou os cidadãos de Malta que vivem no Reino Unido poderem votar mas ele não.

Luckman admite que "a UE não é perfeita, todos sabemos isso", mas "também não é a ditadura que as pessoas pensam". E depois adapta a famosa citação de Winston Churchill ("Democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras") a esta situação: "Pior do que a União Europeia e o mercado comum é a alternativa."

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