Bolsonaro e Moro. Uma guerra fria no verão brasileiro

Com a eleição presidencial de 2022 como pano de fundo, presidente e superministro protagonizaram esta semana mais um de muitos braços-de-ferro. E já contam espingardas e munições. Tudo, no entanto, por trás de sorrisos e elogios públicos.

Da mesma forma que Nikita Khrushchev e John Fitzgerald Kennedy se cumprimentavam com sorrisos nos rostos e até elogios mútuos no auge da Guerra Fria, também Jair Bolsonaro, presidente da República do Brasil, e Sergio Moro, superministro da justiça e da segurança, trocam palavras simpáticas em público. No segredo dos seus quartéis-generais, entretanto, apontam mísseis nucleares um ao outro, como os líderes soviético e americano dos anos 60 do século passado, com a eleição presidencial de 2022 no horizonte.

"Os números da segurança estão muito bem, e é a minha máxima, em equipa que está ganhando, não se mexe", disse Bolsonaro, na última sexta-feira, elogiando o seu ministro. "Vou dar apoio a Jair Bolsonaro na reeleição", afirmou sobre o seu chefe, 72 horas depois, Sergio Moro.

Mas os afagos, públicos, foram apenas o epílogo artificial do último de muitos confrontos, privados, entre os dois.

O núcleo presidencial não gostou da entrevista do ex-juiz da Operação Lava Jato ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite de 20 de janeiro. Segundo membros desse núcleo, Moro comportou-se perante as câmaras mais como um candidato à presidência e menos como um ministro fiel de Bolsonaro.

Tanto que a resposta não se fez esperar: três dias depois, o presidente decidiu partilhar com a imprensa a possibilidade de retirar da alçada do seu superministro, que acumula justiça e segurança pública, a última destas pastas.

"Uma proposta que trouxeram aqui [em reunião com governadores] seria a possibilidade de recriação do ministério da segurança. Talvez por ser o ponto mais sensível em cada estado, essa possível recriação poderia melhor gerir a questão da segurança. Nós estudaremos essas questões aqui e daremos uma resposta o mais rapidamente possível", disse, ladeado pelos governadores estaduais.

Imediatamente, um amigo de longa data do presidente, o deputado Alberto Fraga, conhecido por ter caluniado Marielle Franco no dia seguinte à execução da vereadora e por ter sido condenado à prisão num esquema de subornos na área dos transportes públicos no Distrito Federal, declarou-se disponível para o cargo.

"Moro não tem conhecimentos técnicos, quero que me apontem uma medida que ele tenha tomado na área da segurança", desafiou o deputado. "Herói? Para mim herói foi Tiradentes [mártir independentista brasileiro do século XVIII], Moro parece um menino buchudo [mimado]", continuou.

O eventual esvaziamento do superministério controlado por Moro tornou-se o assunto mais comentado na rede social Twitter nos dias seguintes. Segundo levantamento do jornal O Estado de S. Paulo, a busca pela frase "Bolsonaro frita [traduzível por "trama"] Moro" - cresceu 2800% num dia no motor de busca Google. E, ainda segundo o mesmo jornal, o Whatsapp do presidente foi entupido por aqueles dias com a pergunta "vai trocar Moro por Fraga?" vinda de todos os lados.

É neste contexto que deve ser entendido o recuo posterior de Bolsonaro - "em equipa que ganha não se mexe" - e a consequente afirmação de lealdade de Moro numa nova entrevista - "estou com o presidente na reeleição".

No entanto, a guerra fria, preveem observadores e agentes políticos que conhecem os dois protagonistas, tenderá a registar cada vez mais episódios à medida que se aproxima outubro de 2022, data das presidenciais.

"O que estamos vendo é uma "TPE", tensão pré-eleitoral", disse à BBC, edição Brasil, o cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de Pernambuco.

"Infelizmente, o Jair só pensa em reeleição. Essa obsessão pelo poder, combinada com as paranoias de traição, se sobrepõe ao excelente trabalho de auxiliares. Como o Jair morre de medo do Moro nas urnas, fará de tudo para acabar com ele até 2022", acrescentou ao portal UOL Gustavo Bebianno, que de braço-direito de Bolsonaro na campanha eleitoral passou a ministro demitido pelo presidente por sugestão do vereador, e seu filho, Carlos Bolsonaro.

Um ano de batalhas

A guerra fria, entretanto, não começou agora. O presidente começou por contrariar o desejo do ministro de contar com o COAF, órgão que verifica movimentações financeiras suspeitas, sob sua tutela.

Depois, Bolsonaro assinou decreto a flexibilizar regras para compra e porte de arma, sem ouvir Moro. "Esse decreto não tem nada a ver com segurança pública. Foi uma decisão tomada pelo presidente atendendo ao resultado das eleições", fez questão de dizer o ex-juiz.

Ilona Szabó, especialista em segurança de reconhecimento internacional que o ministro nomeara como sua conselheira, acabou vetada pelo presidente por ter publicado textos com viés de esquerda.

Por ocasião do natal, Bolsonaro decidiu aprovar a criação da figura do "juiz de garantias", medida que Moro repudia publicamente - apoiantes do presidente, mas também do ministro, classificaram o ato como "alta traição" nas redes sociais.

Bolsonaro, por outro lado, quis mudar as cúpulas da polícia federal do Brasil e do Rio de Janeiro e chegou a dizer, dada a resistência do ministro, que quem manda é ele: "Se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral. Se eu trocar hoje, qual é o problema? Está na lei que eu é que indico e não o Sergio Moro. E ponto-final".

Aliás, segundo o livro Tormenta, resumo do primeiro ano de Bolsonaro no Planalto escrito pela ex-jornalista da revista Veja Thais Oyama, a demissão de Moro passou mesmo pela cabeça do presidente durante esse embate sobre a polícia federal.

O arsenal de cada um

O poder sobre a polícia federal é, aliás, central no duelo.

Como na guerra fria que opôs EUA e URSS, em que, em vez de se disparar tiros, se media quem tinha o arsenal mais poderoso, na de Bolsonaro versus Moro a ameaça velada é tudo.

Ora, na citada entrevista ao programa Roda Viva, o ministro falou, subtilmente, dos mísseis nucleares em seu poder. "Moro lembrou que tem a chave dos arquivos de Marielle [Franco]", como notou Igor Gielow, colunista do jornal Folha de S. Paulo. A execução da vereadora é um dos fantasmas que assombra Bolsonaro - é, no mínimo, vizinho do autor material do crime, e tem ligações diretas e indiretas à milícia acusada de ser autora moral.

E Moro tem também a chave dos arquivos de outro caso de polícia que tira o sono presidencial: o "cacaugate", caso da suposta lavagem de dinheiro numa loja de chocolates de salários desviados dos assessores do senador Flávio Bolsonaro, primogénito do presidente.

Além do controlo da polícia federal, Moro tem a seu favor as sondagens: 53% dos brasileiros avaliam a sua gestão no ministério como ótima ou boa, 23% consideram-na regular e 21%, má ou péssima. Os indicadores de Bolsonaro são muito mais modestos: 30% de ótimo/bom, 32% de regular e 36% de mau/péssimo.

O presidente, no entanto, tem o histórico eleitoral brasileiro como trunfo: os três presidentes que tentaram reeleger-se, Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff, conseguiram-no.

Por outro lado, do arsenal de Bolsonaro consta, naturalmente, a posição hierárquica: "eu não frito [tramo], eu demito", disse mesmo nos últimos dias a propósito da guerra fria com o seu ministro.

O presidente também sabe que, salvo se sofrer um improvável impeachment, estará no palco até 2022, enquanto Moro, em caso de demissão, ficaria sem o palanque que o ministério lhe confere a ainda dois anos e meio da eleição presidencial.

Finalmente, Bolsonaro tem duas formas de se livrar do seu concorrente de forma mais ou menos indolor. A primeira é oferecer-lhe uma vaga no Supremo Tribunal Federal a partir de novembro, quando mais velho integrante da corte se reformar. A segunda assegurar-lhe o posto de vice nas eleições.

Mas nem uma nem outra garantem que o ministro, se assim o decidir, não seja candidato contra o presidente. Por isso, a guerra continua.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG