Bolsonaro elogia ditadura de Pinochet em ataque a alta-comissária da ONU

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, criticou a alta-comissária da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a chilena Michelle Bachelet, a quem acusou de "defender vagabundos".

"Ela nos acusa de não estarmos punindo os [agentes da] polícia que matam pessoas no Brasil, mas ela está defendendo os direitos humanos dos vagabundos [criminosos]", disse Bolsonaro, à saída do Palácio da Alvorada, em Brasília.

As declarações de Bolsonaro são uma resposta a declarações de Bachelet, hoje, numa conferência de imprensa em que considerou haver uma diminuição do espaço democrático no Brasil e uma deterioração dos direitos humanos.

Bolsonaro também disse que Bachelet perdeu a luta pelo poder no Chile com a agenda ambiental, assim como (Emmanuel) Macron, e agora vem criticar o Brasil com a agenda de direitos humanos.

"Senhora Michelle Bachelet, se não fosse a equipa de Augusto Pinochet, que derrotou a esquerda em 1973, incluindo seu pai, hoje o Chile seria uma Cuba", acrescentou o Presidente brasileiro, em declarações que estão a espalhar polémica, pela defesa do regime ditatorial de Pinochet que fez milhares de vítimas no Chile.

O pai da alta-comissária da ONU para Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, foi preso e torturado pelo regime do ditador chileno Augusto Pinochet em 1973. Alberto Bachelet morreu um ano depois, em 1974, numa prisão da ditadura, aos 50 anos, vítima de ataque cardíaco após ter sido submetido a sucessivas torturas físicas e psicológicas.

Alberto Bachelet era um general da Força Aérea chilena ligado ao presidente Salvador Allende e que se opôs ao golpe militar conduzido por por Pinochet com o apoio dos EUA.

Além de Alberto, a própria Michelle Bachelet, à época estudante de medicina, também foi presa e torturada pelo regime de Pinochet. Em 1975, tanto Michelle como a mãe, Ángela Jeria, foram detidas no centro de torturas Villa Grimaldi.

O regime ditatorial de Pinochet estendeu-se até 1990. Durante o período de 17 anos em que o ditador se manteve no poder, mais de 3.000 pessoas foram mortas e pelo menos 30 mil foram torturadas no Chile.

A defesa do regime de Pinochet por Jair Bolsonaro não é nova. Ao longo da sua trajetória como deputado federal, o atual presidente brasileiro teve várias afirmações em defesa do antigo ditador chileno, dizendo, entre outras coisas, que Pinochet "fez o que tinha que ser feito" e que "devia ter matado mais gente", lembra o site UOL.com.br

No mesmo tom, Bolsonaro acrescentou que "parece que pessoas que não têm nada para fazer, como Michelle Bachelet, vão para a cadeira [trabalhar nos cargos] de direitos humanos da ONU".

As declarações do presidente brasileiro foram uma resposta a algumas críticas que Bachelet fez ao país, durante a apresentação de um balanço da gestão como alta comissária de direitos humanos da ONU, cargo que ocupa há um ano.

"Entre janeiro e junho de 2019, apenas no Rio de Janeiro e São Paulo, fomos informados de que 1.291 pessoas foram mortas pela polícia, um aumento de 12% e 17% [respetivamente] em relação ao mesmo período do ano passado", disse Bachelet.

A responsável acrescentou que a maioria das vítimas eram habitantes das favelas e negros num contexto de "aumento acentuado da violência da polícia" e dos "discursos que legitimam execuções extrajudiciais e a ausência de responsabilização".

Esse é precisamente o discurso de Bolsonaro, que defende a letalidade da polícia para combater o crime e já disse publicamente que um agente da polícia que mata um criminoso, qualquer que seja a circunstância, deveria receber uma condecoração ao invés de ser investigado.

A alta-comissária da Organização das Nações Unidas (ONU) para os Direitos Humanos considerou que há um "estreitamento do espaço democrático" no Brasil.

"Nos últimos meses, vimos um encolhimento do espaço cívico e democrático, caracterizado por ataques contra defensores dos direitos humanos, restrições ao trabalho da sociedade civil [no Brasil]", afirmou a alta-comissária da ONU.

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