Blair admite que invadir Iraque ajudou a criar o Estado Islâmico

Antigo primeiro-ministro britânico reconhece "erros" na compreensão do que sucedeu após a queda de Saddam em 2003

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair admitiu ontem, pela primeira vez, ter havido uma série de "erros" na invasão do Iraque em 2003 e que, de algum modo, a operação militar que levou à queda do regime ditatorial de Saddam Hussein não deixou de influenciar a "situação em 2015".

O trabalhista Tony Blair (no poder entre 1997 e 2007) fez estas declarações à CNN, sendo interpretada como uma tentativa de esvaziar as críticas que se espera num relatório sobre o envolvimento britânico na guerra de 2003, cuja divulgação é aguardada com elevada expectativa. Algumas das famílias dos 179 soldados britânicos mortos no conflito ameaçaram processar o coordenador dos trabalhos, Sir John Chilcot, se este não divulgasse uma data para a publicação. O que deve suceder no início de novembro. Terá então de ser feito o controlo se as informações contidas no documento comprometem a segurança nacional. Só depois será publicado.

A segunda guerra do Iraque decorreu de março a abril de 2003 e levou à queda de Saddam, seguindo-se um longo conflito contra as forças internacionais, que até 2011 causou a morte de 461 mil pessoas.

Blair reconheceu que as "informações fornecidas pelos serviços secretos" se revelaram "falsas" ou não correspondiam à dimensão real do programa de armas químicas do regime de Saddam. Os "programas que existiam na forma como nós pensávamos que existiam não existiam na forma como nós pensávamos", disse Blair numa formulação que a personagem Sir Humphrey, das séries Sim Senhor Ministro e Sim Senhor Primeiro-Ministro, não deixaria de sentir orgulho em reivindicar como sua.

De forma mais responsável e menos palavrosa, Blair admitiu terem ocorrido "erros" na perceção "do que estava a suceder depois" da queda do ditador iraquiano. Esses "erros", de algum modo, são parte do conjunto de fatores que levaram ao aparecimento e crescimento do Estado Islâmico, afirmou Blair num tom algo contrito. Mas não deixou de insistir na ideia de que o fenómeno das "Primaveras Árabes, que começou em 2011, não deixaria de ter impacto no Iraque de hoje, e o [EI] ganhou importância a partir da Síria e não no Iraque".

Contudo, Blair considerou "difícil pedir desculpa por termos afastado Saddam do poder. Mesmo hoje, em 2015, é melhor ele não estar no poder".

Algumas figuras políticas britânicas comentaram em tom crítico as declarações de Blair. Para o liberal-democrata Menzies Campbell, "nada vai mudar na perceção da opinião pública de que se esteve perante um importante erro de análise". O porta-voz para a Defesa dos eurocéticos do UKIP, Mike Hookem, insistiu na necessidade da rápida divulgação do relatório sobre a guerra. Fora do plano político, o arcebispo de Gales, Barry Morgan, que defende posições pacifistas, considerou que as palavras de Blair não o absolvem das "responsabilidades que tem na consciência". Finalmente, o The Mail on Sunday, ligado aos conservadores do primeiro-ministro David Cameron, descreveu a entrevista como o "momento histórico em Tony Blair, finalmente, pede desculpa" pelo envolvimento britânico na guerra.

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