Biden e Trump trocam acusações em debate polido e (provavelmente) inconsequente

Os candidatos à presidência dos Estados Unidos encontraram-se pela última vez antes da eleição em Nashville, Tennessee, mas agora sem gritos nem insultos.

Com um formato diferente, desenhado para impedir o caos que aconteceu no primeiro debate presidencial, o último encontro entre o candidato democrata Joe Biden e o presidente incumbente Donald Trump teve um tom mais sóbrio e tradicional, embora a substância tenha sido a mesma. Nas questões de saúde, economia, racismo e imigração, as respostas foram similares ao que se ouviu no passado, algumas vezes palavra por palavra.

Mas a discussão moderada pela jornalista da NBC News, Kristen Welker, também passou por alguns dos temas mais explosivos que estão a consumir o ciclo noticioso nos Estados Unidos. Foi aqui que os candidatos exacerbaram as suas características pessoais: Joe Biden procurou ser assertivo e Donald Trump arremessou os podres que o seu campo acredita ter descoberto sobre o oponente.

Embora tivesse sido expectável que o presidente insistisse mais nesta teoria, Trump procurou capitalizar nas alegações de corrupção envolvendo Joe Biden e o seu filho Hunter, que está no centro de uma série de notícias recentes sobre um alegado esquema ilícito para lucrar com a posição do pai quando foi vice-presidente.

No entanto, foi Biden quem iniciou a troca de galhardetes, quando mencionou que o advogado de Trump, Rudy Giuliani, estava a ser usado pela Rússia para espalhar desinformação. Giuliani foi a origem das histórias que alegadamente usam emails retirados do portátil de Hunter Biden e mostram indícios de corrupção.

"Nada foi antiético", garantiu Biden, sobre os negócios do filho. "Não há nenhuma base" para as alegações, apontou.
A discussão iniciou-se porque Kristen Welker perguntou aos candidatos o que farão aos países que estão a interferir nas eleições, depois de um relatório do Diretor de Inteligência Nacional ter revelado que tanto Rússia como Irão estão a agir nesse sentido.

"Qualquer país que interfira vai pagar o preço se eu for eleito", garantiu Joe Biden, questionando porque é que Trump não interpelou Vladimir Putin pelas ações da Rússia. O presidente contra-atacou dizendo que Joe Biden, ou a sua família, recebeu 3,5 milhões de dólares da Rússia e que "ninguém foi tão duro" com o país de Putin como ele.

"Nunca recebi um centavo de nenhuma fonte estrangeira em qualquer altura da minha vida", contrariou Biden, aproveitando para se lançar ao ataque e mencionado a conta bancária secreta que o The New York Times diz que Donald Trump tem na China.

O presidente desvalorizou o assunto, atribuindo a conta aos seus interesses anteriores como homem de negócios, e mais uma vez prometeu que vai divulgar as suas declarações de impostos. Aqui, explicou que pagou "dezenas de milhões" de dólares mas que o fez em pré-pagamento, dando a entender que isso é que causou a impressão de que pagava pouco ou nada.

"Se estas coisas são verdade sobre a Rússia, Ucrânia, China e outros países, então ele é um político corrupto", acusou Trump, no final do debate.

Apesar da seriedade das acusações, foi no histórico de Joe Biden que Donald Trump conseguiu os ataques mais bem sucedidos. O presidente lembrou que Biden, então senador, foi um dos responsáveis pela legislação que levou muitos jovens negros para a prisão nos anos noventa.

"Ele causou tanto mal à comunidade negra", apontou Trump, frisando a diferença entre ambos. "Ninguém fez mais pela comunidade negra, com a possível exceção de Abraham Lincoln, do que eu."

Biden pediu desculpa pelo papel que teve na legislação criminal. "Nos anos oitenta aprovámos uma lei sobre drogas, com o apoio de todos os senadores, que foi um erro", disse o candidato. "Tenho tentado mudá-la desde então", disse, afirmando que ninguém deve ser preso "por ter um problema de drogas ou álcool", precisando ao invés disso de tratamento.
A interação foi importante porque uma das maiores bases de apoio de Joe Biden é a comunidade afro-americana, mas uma sondagem recente da UCLA Nationscape mostra que o apoio de jovens negros a Trump saltou de 10% para 21% nos últimos quatro anos.

A caminho de um inverno escuro

Foi assim que Biden caracterizou o que serão os próximos meses na América, por causa da pandemia de covid-19. "Estamos prestes a entrar num inverno escuro e ele não tem um plano claro. Não há perspetiva de que uma vacina estará disponível para a maioria do povo americano antes de meados do próximo ano", afirmou.

Isto porque Donald Trump iniciara a sua defesa do combate à pandemia revelando que uma vacina "está pronta" e que será anunciada dentro das próximas semanas, com 100 milhões de doses prontas para distribuir pelo exército. Mas quando a moderadora pediu informações específicas sobre a vacina, o presidente pareceu recuar.

"Não é uma garantia", disse, sobre a possibilidade de ter a vacina ainda em 2020. Também não identificou qual o laboratório que estaria a produzir a vacina, mencionando que Johnson & Johnson, Moderna e Pfizer estão a ter bons resultados. Apesar da imprecisão das informações, mostrou-se confiante de que a pandemia "está a ir embora" e justificou a elevada mortalidade dos Estados Unidos com o facto de este ser um problema mundial.

Biden martelou na ideia de que Trump nunca teve um plano de combate e continua a não ter um, dizendo que alguém que se recusou a tomar responsabilidade pelo que está a acontecer e deixou que morressem 220 mil norte-americanos "não deve continuar a ser presidente."

O candidato também aproveitou para deixar claro que será o presidente de todos os norte-americanos, dizendo que, ao contrário de Trump, não divide o país entre "estados azuis" e "estados vermelhos". O presidente tinha feito várias referências aos estados e cidades democratas, criticando as suas respostas à covid, usando uma linguagem de "nós" contra "eles."

Se essa foi uma das estratégias de Biden para se diferenciar do oponente, deixando uma mensagem de unificação urgente num país tão polarizado, Trump tentou posicionar-se como um candidato de fora da política. Por várias vezes referiu-se a Joe Biden como um político, no sentido pejorativo, clamando que o democrata passou 8 anos na vice-presidência e "não fez nada."
"É tudo conversa com estes políticos", afirmou. Ele, pelo contrário, é um homem de negócios e não um político, caracterizou, tentando recuperar uma perceção que o beneficiou em 2016.

Os comentadores da CNN notaram, no entanto, que esse posicionamento já não é possível depois de Trump ter passado os últimos quatro anos como presidente a liderar o país. A identificação como forasteiro na política, alguém que vem de fora, esbateu-se porque ele é, agora, o presidente incumbente.

Mais do mesmo

Agora sem insultos e poucas interrupções - até porque a Comissão cortou o microfone de um sempre que o outro debitava a resposta inicial - foi mais fácil aos eleitores perceberem quais as posições dos candidatos em relação à economia, alterações climáticas e sistema de saúde, entre outros. Foi mais do mesmo nesse campo, visto que tanto no debate inicial como no embate entre vice-presidentes estes temas já tinham sido tocados.

Biden quer voltar ao Acordo de Paris e investir nas energias renováveis, desinvestindo nos combustíveis fósseis, e Trump quer "o ar e a água mais limpos" sem regulações nem destruição de empregos nas indústrias energéticas.

Trump quer acabar com o Affordable Care Act (vulgo Obamacare) e prometeu um sistema novo e muito melhor, e Biden quer expandir o ACA e adicionar uma opção pública de baixo custo, considerando que o acesso a cuidados de saúde é "um direito." Trump quer reabrir tudo para pôr a economia a funcionar outra vez e Biden quer aprovar subsídios para ajudar as empresas durante a pandemia e permitir que as escolas reabram em segurança.

Com um desempenho mais próximo dos debates tradicionais, é pouco provável que esta noite tenha movido a agulha para um lado ou para o outro. Joe Biden pareceu mais seguro e assertivo que no embate anterior e Donald Trump apareceu composto e moderado, mais presidencial que no primeiro debate.

No entanto, Joe Biden apresentou-se na Universidade Belmont quase 10 pontos à frente do oponente na média das sondagens nacionais, segundo a plataforma FiveThirtyEight. Se o debate foi inconsequente, a eleição de 3 de novembro continua a pender para o democrata, que tem 52,1% das intenções de voto contra 42,2% para Donald Trump.

O que vimos esta noite foram duas visões fundamentalmente muito distintas do futuro da América. "Vou dar-vos esperança", prometeu Biden. "Vou dar-vos ciência em vez de ficção", afirmou. "O que está em causa é o caráter deste país."
Trump, minutos antes, tinha dito que o que Biden quer dar ao país é um aumento de impostos, o oposto do que ele fará. "O sucesso vai unir-nos", considerou o presidente. "Se ele for eleito, teremos uma depressão como nunca vimos antes."

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