Aviões russos matam crianças sírias a cinco dias de trégua

Médicos Sem Fronteiras acusa Moscovo de "ataque deliberado". Este ano, hospitais da ONG francesa já foram visados 13 vezes. Ancara duvida de viabilidade de cessar fogo.

A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) responsabilizou a força aérea russa por uma série de ataques a hospitais desta ONG francesa na Síria, ocorridos ontem em duas cidades sírias. Um dos ataques teve como alvo instalações pediátricas e para mulheres grávidas, sendo ainda incerto o número de vítimas mortais. No total dos bombardeamentos terão perecido cerca de 50 pessoas, embora haja relatos a mencionarem um número inferior de mortos.

Para o responsável da missão da MSF na Síria, Massimiliano Rebaudengo, "tratou-se de um ataque deliberado a estruturas de saúde, que condenamos nos termos mais enérgicos possíveis". Num dos bombardeamentos, sucedido na cidade de Maaret al-Numan, o hospital da organização ficou totalmente destruído, "deixando a população local, cerca de 40 mil pessoas, sem acesso a serviços médicos numa zona de combates", indicou ainda Massimiliano Rebaudengo. Na passada semana, a MSF divulgou uma contagem do número de vezes que as instalações de saúde a seu cargo já foram atacadas este ano: 13 circunstâncias distintas.

O Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH) atribuiu a responsabilidade dos bombardeamentos à força aérea russa, enquanto o primeiro-ministro Dmitri Medvedev negava qualquer envolvimento de aviões do seu país no sucedido.

Os ataques que sucederam em cidades das províncias de Aleppo e Idlib verificaram-se a cinco dias da prevista entrada em vigor de uma trégua entre as partes em conflito, que foi acordada na passada sexta-feira em Munique num encontro do conjunto de países e organizações integrantes do Grupo de Apoio Internacional para a Síria. O acordo prevê o fim de todas as operações militares entre os grupos da oposição e as forças fiéis ao regime de Damasco. Os grupos islamitas como o Estado Islâmico (EI), a Frente Al-Nusra e organizações salafistas não estão abrangidas pela cessação das hostilidades.

Em resposta à acusação do embaixador sírio em Moscovo de que foram aviões dos EUA a atacarem os hospitais e uma escola nas cidades de Maaret al-Numam e Azaz, um porta-voz militar americano explicou que a coligação internacional ontem só realizara operações aéreas nas cidades de Raqqa e Hasakah.

A União Europeia e a Turquia responsabilizaram igualmente a força aérea russa pelos ataques aos hospitais e à escola. Só neste último ataque, que sucedeu na cidade de Azaz, perderam a vida sete crianças.

Para a responsável da diplomacia europeia, Federica Mogherini, é inconcebível a ocorrência de ataques a alvos civis, enquanto o primeiro-ministro turco, Ahmet Davutoglu, além de criticar o ataque, sublinhou que este se enquadra na estratégia russa que é a de colocar a comunidade internacional "apenas perante duas opções" - manter o regime de Assad ou aceitar a vitória dos islamitas.

Davutoglu, que falava numa conferência de imprensa em Kiev, mostrou-se ainda bastante cético sobre a eficácia do acordo assinado em Munique, notando que Moscovo anunciou a intenção de prosseguir com as operações aéreas, mesmo após a entrada em vigor do cessar fogo. Ao contrário da coligação internacional, a Rússia ataca todos os grupos da oposição e não apenas as forças islamitas.

Também o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, se mostrou alarmado com os acontecimentos, tendo o seu porta-voz afirmado que "os ataques a, pelo menos, cinco instalações médicas e duas escolas (...), que mataram cerca de 50 civis, incluindo crianças" é "preocupante".

Um novo foco de tensão está a surgir entre a Turquia e as forças curdas devido ao avanço destas sobre a cidade de Tal Rifaat, situada junto da fronteira com este país, tendo expulsado o EI. O governo de Ancara garantiu ontem que não deixaria a milícia curda em questão, que considera um grupo terrorista, na posse da cidade

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