Aviões privados: críticas ao luxo de Zuma mas até Cameron vai ter o dele

Presidente sul-africano está a pensar gastar 270 milhões de euros no novo aparelho com sala de reuniões e 'suite' com casa de banho

Quando há dias o governo britânico anunciou que David Cameron e seus ministros vão passar a ter um avião privado para as deslocações ao estrangeiro, as críticas não tardaram. Como é que Londres, que acabava de anunciar cortes de milhões na despesa pública, tomava uma decisão que, segundo o Financial Times, irá custar dez milhões só para adaptar o Airbus A330 militar para uso privado? Já para não falar nos custos de manutenção. Nada mais falso respondeu o governo conservador, garantindo que irá poupar 735 mil libras aos contribuintes ao deixar de fretar aviões sempre que o primeiro-ministro vai ao estrangeiro. Uma polémica mais habitual em África, onde o sul-africano Jacob Zuma foi o último líder a confrontar-se com críticas devido ao seu avião.

Segundo o diário sul-africano Rapport, Zuma pediu à Armscor, a agência ligada ao ministério da Defesa, para comprar um novo avião presidencial. E tem pedidos muito específicos. O novo aparelho - cujo custo pode chegar aos 4 mil milhões de randes (270 milhões de euros) - tem de ter capacidade para pelo menos 30 passageiros e ter autonomia de voo para 13 800 quilómetros, o que lhe permitiria voar de Pretória para Nova Iorque sem reabastecer. Ainda segundo a Armscor, Zuma pretende que o seu novo avião tenha uma sala de conferências para oito pessoas, tal como uma suite privativa com casa de banho.

"Só o presidente Obama terá um avião melhor", afirmou ao site News 24 Roland Henwood, o professor de Ciência Política na Universidade de Pretória, referindo-se ao Air Force One, o avião do presidente americano. Para o académico, mais do que o custo do avião - o modelo ainda não está definido, mas o Boeing 787 parece ser o que cumpre melhor os requisitos -, é a sua manutenção que fará um rombo maior nos cofres do Estado sul-africano. "Qual é o compromisso financeiro a longo termo? Pode ter impacto no défice... que já está no vermelho", explicou.

Esta não é a primeira vez que Zuma é criticado pelo seu gosto pelo luxo. Já em 2013 o presidente esteve sob fogo por usar 21 milhões de euros de fundos públicos para fazer obras na sua mansão em Nkandla, no seu KwaZulu-Natal, onde passa parte do tempo com as suas três mulheres (seguindo o costume zulu, o presidente é polígamo). Mas em maio passado, um tribunal acabou por decretar que Zuma não tem de devolver o dinheiro, alegando que a nova piscina é essencial para combater fogos florestais e o anfiteatro previne a erosão do solo.

E a verdade é que apesar da fúria com as obras de Zuma, este foi reeleito em 2014. Agora, com a compra do avião, volta a estar na mira sobretudo porque o custo do aparelho "envia a mensagem errada nestes tempos difíceis", explicou Hen-wood. Em 2014, o crescimento económico caiu para 1,5%, numa altura em que uma revisão dos cálculos do PIB fez que a Nigéria ultrapassasse a África do Sul como maior economia do continente.

Velha tradição africana - basta pensar no Boeing 707 do ex-líder do Zaire (atual República Democrática do Congo) Mobutu Sese Seko que esteve mais de 15 anos abandonado no aeroporto da Portela em Lisboa - os aviões presidenciais raramente são uma compra pacífica. O rei Mswati da Swazilândia foi um dos últimos a comprová-lo ao anunciar que tencionava comprar um novo jato, depois de o anterior ter sido penhorado no Canadá.

Estrela e empresários

Os políticos não são os únicos a viajar em aviões privados. Estrelas da música ou do desporto, empresários, são muitos os que os têm. A diferença é que quando Bill Gates percorre o mundo no seu jato privado ninguém duvida de que além de uma agenda preenchida, o fundador da Microsoft "fez a sua própria fortuna e merece viajar em grande estilo", escrevia há dias Elizabeth Ohene. A ex-ministra e escritora ganesa escreveu na BBC um artigo sobre a polémica causada em África pelos aviões presidenciais. E recorda os aplausos que Joyce Banda obteve quando, em 2012, chegou à presidência do Malawi e vendeu o jato presidencial, anunciando que apanharia boleia de outros líderes. Uma resolução que o sucessor, Peter Mutharika, já criticou, denunciando que passa "demasiado tempo" à espera nos aeroportos.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG