As mil e uma batalhas judiciais de Trump (dentro e fora dos EUA)

O republicano e as suas empresas estiveram envolvidos em mais de 1300 processos judiciais em cerca de 15 anos

Donald Trump, o presumível candidato republicano à Casa Branca nas presidenciais de novembro, é uma das pessoas mais ricas dos Estados Unidos - e com mais casos em tribunal. Desde 2000 até ao ano em curso, as empresas do multimilionário e ele próprio estiveram envolvidos em cerca de 1300 processos, com Trump a ser alvo de 72.

Esta contabilidade, divulgada no final de abril pela revista Bloomberg, transforma Trump numa das figuras públicas com mais problemas na Justiça americana. É certo que "só" 203 processos são considerados relevantes por aquela publicação, mas abrangem todas as áreas em que o empresário, distinguido no ramo do imobiliário, tem interesses e que vão muito para além da compra e venda de propriedades, ainda que imobiliário represente parte apreciável dos casos em que Trump vê o nome citado em tribunal: 45% dos 203 processos.

O que se explica pelo facto de não só o multimilionário ter projetos próprios como permitir, em sistema de franchise e outras modalidades, o emprego da "marca Trump" na comercialização de condomínios, gestão de casinos, campos de golfe e outros empreendimentos.

Entre os casos mais recentes - e mais mediáticos - está o do chef espanhol José Andrés, que decidiu denunciar o contrato que o ligava a um restaurante de cozinha deste país em Washington, propriedade de Trump, após este ter chamado "violadores e passadores de droga" aos mexicanos que chegam aos EUA. Andrés justificou a decisão com o argumento de que as palavras do multimilionário criaram "um elevado patamar de risco para um negócio com o perfil de um restaurante hispânico" e que as organizações das comunidades latino--americanas apelaram ao boicote de "tudo o relacionado com Trump". O republicano pede dez milhões de dólares de indemnização por incumprimento de acordo, enquanto o espanhol pede oito milhões por previsíveis perdas e danos. O tribunal de Washington tem de estabelecer se a rutura do contrato prejudica o multimilionário ou se este com as suas declarações criou um ambiente de risco e prejuízo potenciais para o restaurante.

Quando Trump começou a ganhar vantagem nas primárias republicanas, um tipo de casos que despertaram especial atenção nos media americanos foram os relacionados com a dita Trump University, hoje Instituto Empresarial Trump e praticamente inativo. A mudança de nome deve-se a uma série de escândalos envolvendo o pagamento de elevadas propinas para a frequência de seminários sobre investimento e compra e venda de propriedades. A "universidade" nunca foi reconhecida como instituição de ensino, não ministrava cursos nem concedia qualquer título académico; os seminários decorriam em salas de conferência de hotéis e os presentes eram incentivados a frequentar mais seminários a preços que podiam chegar aos 35 mil dólares (31 mil euros). A iniciativa teve sucesso inicial - Trump era então presença semanal na televisão americana com o The Apprentice e, por outro lado, o mercado imobiliário estava em alta. Em 2008, a conjuntura começou a mudar e multiplicaram-se as denúncias e os processos. Em 2010, a "universidade" suspendeu atividades.

Uma das pessoas que ministravam esses "cursos", James Harris, citado no início de junho pelo The Washington Post, disse que a orientação recebida era de que devia "motivar as pessoas a comprarem produtos e serviços da Trump University e fazer que todos os adquirissem". E o candidato diz estar pronto a utilizar na Casa Branca, caso seja presidente, as mesmas táticas empresariais que o tornaram rico e famoso. Mas nem sempre pelos melhores motivos.

Mas não é só nos EUA que Trump está envolvido em litígios. As suas batalhas jurídicas estenderam-se também à Escócia, onde, durante anos, tentou impedir o funcionamento de dezenas de torres de energia eólica junto de um dos dois campos de golfe que tem no país, um é Turnberry e o outro nos arredores de Aberdeen. A batalha contra a energia eólica junto deste último campo acabou por produzir um herói inesperado, Michael Forbes, que se recusou a vender o seu terreno para ser incorporado no campo e que foi nomeado Escocês do Ano, em 2012. Foi distinguido pela sua atitude num evento patrocinado pela marca de whisky Glenfiddich. No último fim de semana de junho esteve em ambos os campos, tendo reinaugurado o de Turnberry, sendo sempre alvo de protestos de habitantes locais.

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