"As esquerdas francesas estão acabadas"

Em dia de debate entre os candidatos às presidenciais francesas, Gilles Richard explica como a insistência de François Fillon em continuar na corrida pode levar Os Republicanos "ao desastre". O professor de História Contemporânea na Universidade de Rennes 2 alerta ainda os que acham que Marine Le Pen não ganha a segunda volta para "desconfiarem das suas certezas". Para o autor de História das Direitas em França de 1815 aos Nossos Dias, Emmanuel Macron está a "reconstruir um novo PS".

A decisão de François Fillon de continuar a campanha vai afundar a direita francesa?

A escolha de Fillon de continuar a qualquer custo vai sobretudo levar o seu partido, Os Republicanos, ao desastre. Mas "a direita" não se resume a"Os Republicanos, mesmo se este partido ainda tem hoje cerca de 200 deputados, com base nos resultados de 2012, e a presidência do Senado. É um partido em suspenso, pelo menos na sua forma atual.

Ainda é possível outra figura da direita avançar com uma candidatura?

Não, já não há tempo para outro candidato d"Os Republicanos se apresentar. Só Alain Juppé teria tido legitimidade suficiente para o fazer eventualmente, mas recusou de forma muito clara.

Há dias afirmou ao Le Monde que a direita não existe. O que existe são várias direitas. Pode explicar essa ideia? E qual dessas direitas está mais bem posicionada para voltar ao poder?

De facto, "a direita" não existe. Existem várias direitas (e várias esquerdas), e é absolutamente essencial pensar no plural se queremos compreender a política francesa. Essa pluralidade (no meu livro História das Direitas em França, conto oito) resulta de uma longa história (mais de dois séculos) e movimentada (15 Constituições de 1791 a 1958, golpes de Estado, protestos, greves gerais) desde a Revolução Francesa. Dito isto, há duas famílias políticas de direita que ainda são poderosas hoje: os liberais e os nacionalistas. Os primeiros ocupam o poder de forma contínua desde 1974, exceto entre 1981 e 1984. Os segundos tornaram-se ao longo dos anos os seus principais rivais, devido ao afundamento das esquerdas.

Nem direita tradicional nem esquerda tradicional, estas presidenciais são a prova de que os eleitores estão cansados dos partidos tradicionais?

Os franceses estão profundamente cansados dos partidos e do sistema partidário tal como funcionam há mais de meio século. Partidos que fazem barreira entre o povo soberano e o exercício do poder. Mas é difícil mudar essa realidade, daí o aumento da abstenção e dos votos brancos ou nulos. Para os que ainda votam, devem fazê-lo tendo em conta a "oferta" política, mesmo se não corresponde à "procura". Os cidadãos de esquerda estão profundamente desgostosos com as cedências e as traições das forças de esquerda nos últimos 30 anos. No geral, a maioria dos cidadãos é hostil à "mundialização" neoliberal. Mas os partidos de esquerda, a começar pelo PS, já não inspirando confiança, a rejeição da situação presente passa agora pelo voto na Frente Nacional, por exemplo nas classes populares, quando não se abstêm.

Marine Le Pen parece ter garantida a vitória na primeira volta, mas perde sempre na segunda. Vai mesmo ser assim?

Aos que pensam que Marine Le Pen não pode ganhar as presidenciais, digo para desconfiarem das suas certezas. Quanto mais o tempo passa, mais a FN ganha votos. E hoje, considerando a divisão e as ambiguidades das esquerdas, que o favorito mediático é Emmanuel Macron, um candidato claramente neoliberal, e que François Fillon se apoia num eleitorado católico, conservador, a transferência de votos na segunda volta podem acabar por beneficiar Marine Le Pen e dar-lhe a vitória. No mínimo é um resultado que não podemos de todo excluir.

A esquerda francesa parece não estar melhor do que a direita. Macron pode beneficiar dessa crise, mesmo sem ter uma partido a apoiá-lo?

As esquerdas francesas estão acabadas. Os comunistas são marginalizados há três décadas. Os ecologistas perderam a credibilidade ao apoiarem François Hollande durante cinco anos enquanto ele não nada fez em termos de ambiente. Aqueles a quem poderíamos chamar os "alternativos" estão mal organizados em termos partidários, e estão muito divididos. Os socialistas, por fim, estão a viver uma crise profunda, com o seu líder a ter sido eleito em 2012 contra a "finança" mas a ter governado de acordo com uma política totalmente inversa ao que prometera. Por isso, Macron, antigo secretário-geral adjunto do Eliseu e antigo ministro da Economia (2014-16), pode ganhar. Ele surge como o herdeiro de Hollande, mas com um estilo jovem, dinâmico, "fora do sistema" como se diz em França. Mas ele tem o apoio de toda uma ala do PS, sem dúvida da maioria dos seus deputados, do presidente da República e de Manuel Valls. Por isso não se pode totalmente dizer que não tenha o apoio de um partido. Digamos que está a construir um, ou melhor, está a reconstruir um novo PS, livre da sua ala esquerda. Mas Macron não tem a vitória garantida na segunda volta, uma vez que uma parte dos eleitores de Jean-Luc Mélenchon não irão transferir os seus votos para ele. A primeira volta parece garantida: Le Pen e Macron à frente. Na segunda volta tudo continua em aberto. Não é possível, a meu ver, prever hoje quem será o vencedor.

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