Aos 50 anos, Felipe VI faz face ao desafio da unidade de Espanha

Felipe VI celebra hoje o seu 50.º aniversário. Data fica ensombrada pela Catalunha, debate de investidura e caso Carles Puigdemont

Felipe VI faz hoje 50 anos, mas o monarca não quer guardar o protagonismo da data apenas para si. O rei de Espanha vai agraciar a sua filha Leonor de Borbón, princesa das Astúrias, de 12 anos, com o colar da Ordem do Tosão de Ouro. Tudo indica que, a partir de agora, Leonor vai começar a ter mais presença pública na família real.

Felipe VI passou sete anos da sua vida como infante, quatro décadas como príncipe das Astúrias e quase quatro anos como rei. "O dia da proclamação, 19 de junho de 2014, foi o mais importante dos 50 anos. Começava nesse momento a hora da verdade mas, ao mesmo tempo, aquilo que deu sentido a tudo o que antes tinha vivido", sublinha ao DN Almudena Martínez-Fornés, autora do livro Felipe VI: Un Rey para la España de Hoy. Uma publicação que percorre toda a vida do monarca através de 200 imagens comentadas.

Desde a sua infância, Felipe foi educado no rigor e na disciplina, mas os seus pais fizeram-no ver que, sendo único, era igual a todos. Encontramos em Felipe VI um homem muito diferente do seu pai. Juan Carlos destacou-se pela espontaneidade e o atual rei gosta de preparar tudo ao detalhe. Os dois têm sentido de humor, mas expressam-no de forma diferente. "As pessoas que o conhecem de perto dizem que é parecido com o avô materno, Pablo da Grécia, tem menos de Borbón do que o pai. É um homem sereno e tranquilo", diz a escritora e jornalista do ABC. "Há duas imagens do monarca: uma nos eventos oficiais e outra que é de maior proximidade, em que todos ficam surpreendidos com quão próximo é das pessoas."

Entre os episódios curiosos que existem à volta destes 50 anos, Almudena sublinha um: "O 23-F, quando o pai o chamou para acompanhar os acontecimentos. Tinha 13 anos e adormeceu no cadeirão do escritório. Era um miúdo que se queixava ao pai das dificuldades vividas nesse mês, entre elas o falecimento da sua avó e os exames do colégio." Um miúdo que estava longe de imaginar um futuro com dificuldades parecidas às vividas pelo pai naquela noite. "Juan Carlos conseguiu travar com o seu discurso o golpe de Estado [liderado por Tejero Molina]. As palavras de Felipe VI, a 3 de outubro, foram importantes e deram ânimo aos espanhóis mas não serviram para travar o desafio separatista. Tem muito trabalho pela frente", conclui a escritora, referindo-se ao problema da Catalunha.

Outra imagem de Felipe, na tomada de posse de Álvaro Uribe como presidente da Colômbia (a 7 de agosto de 2002), define o seu carácter e personalidade. "Houve um atentado das FARC e todos os chefes do Estado presentes voltaram aos seus países quando acabou a cerimónia. Mas o príncipe ficou para cumprir a sua agenda. É um homem cumpridor, com grande sentido de dever e sabia que não podia ceder perante o terrorismo, como herdeiro do trono num país" que está bastante habituado a lidar com o terrorismo, relata a mesma jornalista ao DN.

No livro El Rey ante el Espejo, recentemente publicado, a jornalista Ana Romero passa em revista e analisa o reinado de Felipe VI. "Foram 40 meses tremendos, de uma atividade permanente num contexto adverso", começa por referir ao DN a autora da publicação. Ao seu lado tem sempre a sua mulher, a rainha Letizia, a primeira consorte plebeia da história. "Uma mulher rodeada de mitos, preconceitos e tabus", relata no livro. Entre as dificuldades enfrentadas pelo rei, "está uma coroa fragilizada, que tem para resolver o problema da sua irmã Cristina e do caso Nóos. Existem personagens obscuras que querem provocar danos à monarquia e instabilidade política", acrescenta Ana Romero. Hoje, precisamente no dia dos seus 50 anos, Felipe VI encontra todos os olhos postos na Catalunha e no debate de investidura do próximo presidente da Generalitat. Carles Puigdemont é o controverso candidato dos independentistas. "Ameaça ensombrar o aniversário do rei", reflete ainda a jornalista.

Um aniversário que o monarca espera festejar na intimidade, depois da cerimónia em que não faltarão, como é tradição nesta casa, 50 velas e não o número 50. Tal como aconteceu no recente aniversário de Juan Carlos, que cumpriu 80 anos no passado dia 5 de janeiro. Pai e filho mantêm uma relação de respeito mútuo e de grande carinho e admiração mas "na Casa Real convivem quatro reis e não foi fácil encaixar as agendas de dois casais", reconhece a jornalista Almudena Martínez-Fornés. Depois do reinado de Juan Carlos, "ele devia dar um passo atrás e ajudar o filho", acrescenta. Os acontecimentos vividos nestes últimos três anos e meio ajudaram a consegui-lo. Mas Juan Carlos foi mais afastado do que estava à espera e faltou por exemplo às comemorações dos 40 anos das primeiras eleições democráticas em Espanha. "Espera-se maior presença de Don Juan Carlos e Dona Sofia. Existe um grande afeto entre pai e filho e vão resolver os problemas que possam surgir", refere a jornalista.

A Casa Real distribuiu há dias imagens inéditas da vida privada e quotidiana do rei, junto da sua mulher e das suas filhas. "Existia uma curiosidade por parte da opinião pública de conhecer melhor as infantas [Leonor e Sofia]. Com estas fotos vemo-las em atitudes espontâneas, como crianças que são", salienta a jornalista do ABC. Ao todo são 77 fotografias e 84 minutos de vídeo onde é possível acompanhar momentos íntimos da família real espanhola, como um almoço dos reis com as filhas ou os minutos prévios à gravação do discurso de Natal do monarca, onde Leonor e Sofia tiveram um grande protagonismo. Imagens onde reis e infantas surgem tal como são: uma família... real.

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