ANC de Jacob Zuma ameaçado pelo pior resultado de sempre

Ainda sem todos os votos contados nas autárquicas, o maior partido do país liderava a nível nacional, mas arriscava perder a preponderância nos principais centros urbanos

As eleições regionais na África do Sul revelaram-se um pesadelo para o Congresso Nacional Africano (ANC na sigla em inglês) e um sucesso para a oposição, encabeçada pela Aliança Democrática (AD).

O ANC, histórico partido de Nelson Mandela, hoje liderado pelo controverso presidente Jacob Zuma, terá registado o pior resultado eleitoral desde o apartheid. À hora de fecho desta edição, quando estavam contabilizados 81% dos votos, o ANC somava apenas 53,7%. Nas últimas autárquicas, em 2011, arrecadou 62%.

Golpe ainda mais duro é a perspetiva de derrota ou de magra vitória em alguns dos principais centros urbanos em que sempre liderou de forma incontestada: Pretoria, Joanesburgo e Porto Elizabeth - esta incluída na zona metropolitana conhecida como Nelson Mandela Bay.

Apesar de os resultados ainda não serem finais, é garantido que a Aliança Democrática manterá o poder na Cidade do Cabo, a única grande cidade que até agora não estava nas mãos do ANC. "Conseguimos um crescimento incrível nestas eleições, o que nos deixa muito entusiasmados", afirmou ontem Mmusi Maimane, líder da AD, reagindo aos resultados.

No terceiro lugar entre as forças políticas mais votadas, com cerca de 7,5% dos votos, estava o Combatentes pela Liberdade Económica, liderado por Julius Malena, dissidente do Congresso Nacional Africano e ex-protegido de Zuma.

Muitos analistas e observadores concordam em considerar estas eleições como as mais importantes desde 1994, quando Nelson Mandela foi eleito presidente. Não tanto pelos resultados regionais, mas mais pela confirmação de que pode estar na calha uma mudança de cenário político na África do Sul.

Apesar de ser uma votação autárquica, o sufrágio, em larga medida, está a ser interpretado como um referendo ao mandato e à figura do presidente Jacob Zuma e quase como uma espécie de primeira volta das presidenciais marcadas para 2019. Não é descabido retirar conclusões nacionais dos resultados, tendo em conta que, em termos eleitorais, este é o pior resultado de sempre do ANC. Falando de presidenciais, o partido de Zuma nunca desceu abaixo de 62% e, a nível autárquico, desde 2000 que não baixava da barreira dos 60%.

Ao mesmo tempo que, nas urnas, se verifica uma tendência de queda na do ANC, o contrário é verdade para a Aliança Democrática, o principal partido da oposição. Em 2004, na primeira vez que se apresentou a eleições, a AD não foi além dos 12,3% nas presidenciais. Dez anos mais tarde, em 2014, a Aliança Democrática arrecadou 22,2% dos votos, contra 62,2% do partido liderado por Zuma.

A esta tendência da última década e meia há que juntar novos fatores que ajudam a perceber o porquê da paisagem política na África do Sul poder estar a mudar. Por um lado, a crise económica e o elevado nível de desemprego (cerca de 27%) têm vindo a instalar um clima de desagrado entre a população. Este descontentamento tem sido ainda mais agravado devido aos diversos escândalos de corrupção em que Zuma se tem visto envolvido. Por fim, a eleição de Mmusi Maimane como líder da AD, o primeiro negro a chefiar o partido, tem ajudado a oposição a captar novas franjas do eleitorado e a alterar a imagem de um grupo destinado apenas a servir os interesses da minoria branca (cerca de 8% do total da população que ascende a 54 milhões).

Talvez ainda seja cedo para decretar a morte política de Zuma, mas, com a aproximação das presidenciais, os seus adversários internos vão estar à espreita para desferir o golpe fatal caso se adensem as probabilidades de um mau resultado em 2019.

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