Abertura dos arquivos de Pio XII abrem longa investigação - Historiadores

A abertura dos arquivos do pontificado do Papa Pio XII, há muito aguardado pelos historiadores, vai dar origem a um longo processo de investigação sobre o papel do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial, disse à Lusa a historiadora Cláudia Ninhos.

"Aqui o problema é sobretudo a forma como a questão é abordada porque se entra sempre numa abordagem ou favor ou contra o Papa Pio XII. É um tema bastante polémico. Vamos ver se, de facto, esta abertura dos arquivos pela qual os historiadores aguardam há tanto tempo vai clarificar a atuação do Papa durante a guerra e nomeadamente em relação ao Holocausto", disse à Lusa Cláudia Ninhos sublinhando que as conclusões vão ser fruto de um longo período de trabalho.

"Provavelmente a consulta e o estudo vai prolongar-se durante vários anos sendo que o papel dos historiadores é fazer o confronto com outras fontes", disse a autora do livro "Portugal e os Nazis", além de outras investigações sobre o período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Cláudia Ninhos recorda que desde a altura em que foi escrita a peça de teatro "O Vigário" do alemão Rolf Hochhut (1963), que denunciou a cumplicidade da Igreja com os regimes da Alemanha nazi e da Itália fascista, que o Vaticano tem publicado alguns volumes com documentação sobre o período da Segunda Guerra Mundial, apesar "de não ter libertado" toda a documentação.

"É curioso que quando o Papa Francisco anunciou a decisão, afirmou que a Igreja não tinha medo da sua História. Ele acredita que a investigação histórica a partir desta documentação vai ser capaz, com recurso à critica histórica, avaliar um momento que é muito complicado para a História da Igreja e para a História da Europa", refere a historiadora.

Os arquivos que conservam a documentação de Eugenio Pacelli (Papa Pio XII), durante o pontificado que se prolongou entre 1939 e 1958, vão ser desclassificados a partir desta segunda-feira por decisão do Papa Francisco.

O Vaticano confirmou na semana passada a abertura dos arquivos reforçando a ideia de que a consulta da documentação venha a esclarecer o silêncio do Papa Pio XII acusado durante as últimas décadas de não ter levantado a voz contra o nazismo e o fascismo durante a II Guerra Mundial

"É um assunto que dá azo a interpretações de aqueles que acusam Pio XII de ser cúmplice por causa do seu silêncio e alguns que defendem a sua atuação à luz da diplomacia e condicionalismos da época. É um período muito complicado para o Vaticano, rodeado por um regime fascista que era aliado da Alemanha nazi", diz ainda Cláudia Ninhos.

Por outro lado, o arqueólogo Rui Gomes Coelho, que desenvolve investigações sobre o século XX na Croácia, refere que no contexto político atual da Europa, "que está a virar à direita", o revisionismo histórico sobre os fascismos e as guerras mundiais tem um papel "fundamental".

Sendo assim, afirma, a história da Igreja entra nessas "narrativas revisionistas que relativizam o fascismo e o nazismo", e questionam o consenso antifascista que emergiu depois da Segunda Guerra Mundial.

"O revisionismo tem vários objetivos, e um deles é o de obliterar o legado socialista na Europa de leste através de uma terraplanagem ideológica que una a Europa de leste à ocidental, particularmente no contexto da União Europeia", afirma o arqueólogo.

"Isto é muito problemático porque a igreja, que na narrativa revisionista aparece sempre como 'resistente' ao comunismo, foi na verdade cúmplice em muitas atrocidades no contexto dos fascismos. Isso é muito evidente no caso da Croácia, onde trabalho, em que o governo colaboracionista dos alemães e italianos tinha o apoio institucional da Igreja Católica", disse à Lusa Rui Gomes Coelho.

Para o arqueólogo, mesmo que os arquivos do Vaticano elucidem o papel da Igreja no contexto do Holocausto, essa será sempre uma "janela" muito limitada para o que foi a igreja católica durante os fascismos.

"A abertura dos arquivos deverá servir para que saibamos mais sobre esse panorama mais geral. Isso é muito importante para que possamos ter uma atitude crítica perante a inundação de informações contraditórias com que os revisionistas nos banham no espaço público", defende.

Rui Gomes Coelho é o investigador do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa, atualmente na Brown University, Estados Unidos, e desenvolve trabalho na Croácia onde estuda os acampamentos e hospitais da resistência à ocupação nazi durante a II Guerra Mundial.

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