"A ligação dos EUA a Portugal fez-se sempre muito via Açores"

No seu gabinete na embaixada portuguesa em Washington, Domingos Fezas Vital explica ao DN que a emigração portuguesa é o seu "maior aliado nos EUA", pelo conhecimento que tem da realidade americana e pela imagem que passa do nosso país. No 2012 da Massachusetts Avenue, o embaixador afirma que "os americanos estão a descobrir Portugal" e que "o turismo é um catalisador para os negócios". Quanto ao futuro da base das Lajes, o diplomata acredita que uma coisa é o debate interno americano, outra são os projetos portugueses como o Air Center ou o Centro de Segurança do Atlântico.

É embaixador em Washington desde 2015. Chegou quando Portugal estava a sair da crise. A emigração portuguesa que encontra cá já não é a mesma de há uns anos?

A emigração mudou muito. As pessoas que vieram para os EUA ultimamente têm um perfil diferente do que era a nossa comunidade tradicional, mas essa mesma comunidade também mudou muito. Às vezes até mais do que ela própria sabe. Vejo como reagem com alguma surpresa quando lhes digo que de acordo com as indicações americanas, a nossa comunidade tradicional aqui tem hoje um grau de bem estar económico e um nível de educação superior à média dos EUA. Temos estas duas diferenças. Uma que resulta da evolução da nossa comunidade tradicional e o perfil desta nova comunidade que se veio juntar nos últimos anos.

Estamos a falar de que tipo de pessoas?

Vários. Dos empresários que vieram com os investimentos, os que vêm procurar vender os seus produtos, entrar nas redes de distribuição. Portanto por razões económicas. Temos os que vêm fruto da cooperação científica e tecnológica, que é muito intensa entre Portugal e os EUA. Temos muita gente nova que vem fazer investigação, em instituições académicas, laboratórios.

De um modo diferente, a América ainda tem a mesma capacidade de atrair os portugueses?

Absolutamente. Não nos podemos esquecer que é na América que estão as melhores universidades e dos melhores laboratórios e institutos de investigação científica. A América continua a ser um polo de atração muito importante.

Tem números dos emigrantes?

Há um número que cito sempre e que é o número americano oficial. O último censo aponta para cerca de um milhão e quinhentas mil pessoas que dizem ser de origem portuguesa. Nós achamos que são mais. Porque ao contrário do que sucede com outros grupos, os de origem portuguesa não têm no formulário um quadradinho onde pôr a cruz. Têm de escrever por extenso. Temos 1,5 milhões de pessoas que se dão ao trabalho de escrever que são de origem portuguesa. Por isso acreditamos que o número seja superior. Mas mesmo 1,5 milhões já faz com que a nossa diáspora nos EUA seja a maior no mundo.

Tem recebido queixas da comunidade?

Temos uma comunidade muito generosa. Eu costumo dizer que a comunidade é o meu maior aliado nos EUA. De duas formas. No terreno, porque conhece a realidade americana. Quando faço visitas, consulto-os sempre. Ajudam-me a descobrir oportunidades para afirmar o nosso país e os nossos interesses. E são meus aliados de forma indireta quando lido com as autoridades americanas. Porque passam uma excelente imagem do nosso país. Portanto, quando falo com as autoridades americanas venho respaldado pelo conhecimento no terreno dessa comunidade e ao mesmo tempo pela imagem que o meu interlocutor tem do que é Portugal fruto da perceção que essa comunidade lhe passa.

Sente que há uma espécie de revivalismo de Portugal junto da comunidade nos últimos tempos?

Absolutamente. E isso coincide com outro fenómeno: os americanos estão a descobrir Portugal. Uma coisa vem com a outra. Portugal está definitivamente no radar dos americanos. E por boas razões. Isso é uma fonte de orgulho para a comunidade aqui. Quando dizem que são de origem portuguesa, o que lhes chega é o interesse pelo país, a admiração pelas nossas características e a indicação de que eu "eu estou para ir, alguém da minha família foi lá". Isto é um fenómeno novo. As primeiras vezes que vim aos EUA, há 20 e tal, 30 anos, quando dizia que vinha de Portugal o homem da rua dificilmente sabia sequer onde era.

Esse interesse reflete-se em termos de turismo mas também de negócios?

Sim. Eu acho que o turismo é um catalisador de negócios. Quem vai a Portugal constata o que somos hoje - um país seguro, com uma magnífica qualidade de vida, de gente acolhedora, um país extremamente sofisticado. Vão em turismo e vêm interessados em investir.

Nos últimos anos há a ideia de que a América tem olhado mais para a Ásia do que para o Atlântico. Como é que isso deixa Portugal e, claro, o futuro da base das Lajes?

As prioridades da política externa americana vão evoluindo em função das circunstâncias, das oportunidades, dos riscos. E os EUA são uma potência asiática, com uma costa voltada para um Pacífico em enorme crescimento económico. E a Europa passou por um péssimo bocado. É natural que este período tenha coincidido com uma maior prioridade em relação à Ásia. A minha perceção é de que o Atlântico vem reganhando importância. Isso para nós é importante. Em relação aos EUA partilhamos não só um código de valores e princípios mas também uma área geoestratégica que é o Atlântico. Costumo dizer aos americanos que nós somos os vossos vizinhos do outro lado do oceano. Os Açores, as Lajes, têm uma enorme importância neste relacionamento. Não só pela importância estratégica mas também pela nossa comunidade nos EUA. Que é na larga maioria de origem açoriana. A ligação dos EUA a Portugal fez-se sempre muito via Açores. Em relação à base, temos duas ordens de reflexão. Uma americana, que é o que os EUA tencionam fazer. Há uma discussão interna, que Portugal acompanha com interesse e tem dito estar disponível para considerar positivamente qualquer pedido ou sugestão dos EUA relativamente a ideias para o futuro da base. Em Portugal também olhamos para a importância estratégica dos Açores. E procuramos ver como tirar melhor partido deste enorme trunfo. Por isso temos projeto como o Air Center ou o Centro de Segurança para o Atlântico, resultado dessa reflexão interna.

Enviada especial a Washington DC

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