A cura de Bruno. O milagre brasileiro reconhecido pelo Papa

Em 2006, Bruno, que nasceu com problema ortopédico, curou-se da noite para o dia graças às orações da mãe ao padre Donizetti. O Vaticano reconheceu o prodígio. E beatificou o clérigo no último dia 8.

Não é fácil o Vaticano reconhecer um milagre e beatificar alguém em pleno século XXI, com o predomínio da ciência e da tecnologia na sociedade e na vida das pessoas. Mas, no caso de Bruno Henrique Arruda de Oliveira, menino brasileiro da região de Tambaú, no interior do estado de São Paulo, os sete especialistas da Congregação para a Causa de Todos os Santos ficaram convencidos. E o Papa Francisco imediatamente assinou um decreto no último dia 8 que declara que o menino foi, de facto, agraciado e que o alvo das orações, o padre Donizetti, será considerado beato, o passo anterior a poder ser chamado de santo.

Bruno nasceu em 2006 com os pés arqueados, um problema ortopédico congénito bilateral, que impedia o bebé de colocar as plantas dos pés no chão. Margarete Rosilene Arruda de Oliveira, 46 anos, a sua mãe, conta ao DN como se processou aquilo que ela sempre chamou de milagre e que agora o Vaticano também chama. "Fomos ao pediatra e através de exames raio X ele detetou que o menino nascera com o tal pé torto congénito e aconselhou um ortopedista".

Na noite da véspera da primeira consulta com o ortopedista, Margarete, já ciente de que Bruno, então com quatro meses, teria de usar botas ortopédicas e realizar cirurgias de correção por toda a vida sem, no entanto, a garantia de vir um dia a andar normalmente, rezou. "Naquela noite, numa mesa de granito da minha casa, enquanto trocava o Bruno, eu orei muito e pedi ao padre Donizetti que intercedesse junto de Nossa Senhora e de Deus, e ajudasse a curá-lo, ou, em alternativa, se eu não fosse merecedora da graça que, pelo menos, me desse força para enfrentar a situação".

E na manhã seguinte, os pés de Bruno, que nunca haviam tocado a superfície, encostavam o chão. "Fiquei perplexa, emocionei-me muito, chorei sem parar".

Na posse de raios X e de toda a documentação médica necessária de antes e de depois do que viria a chamar de milagre, após sete anos de investigação o Vaticano deu o seu veredito: não foi a medicina que curou o Bruno e sim a fé de Margarete no padre Donizetti.

O processo de beatificação de Donizetti Tavares de Lima, nascido na cidade de Cássia, Minas Gerais, em 1882, e falecido em Tambaú, em 1961, corria já desde 1982, ano do centenário do seu nascimento.

Chegado a Tambaú em 1926, Donizetti, que também era advogado, vinha de outras paróquias perseguido e ameaçado por fazendeiros ricos por ter ajudado empregados a escaparem da exploração. Na cidade, criaria creche, asilo de idoso e um círculo operário para ajudar os trabalhadores, o que lhe valeu fama de comunista.

Ao longo do tempo, contam-se histórias de como um dia entrou na igreja em chamas, por causa de um enorme incêndio, e conseguiu trazer intacta, uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, a padroeira do Brasil, hoje guardada num cofre na sua casa-museu.

Atribuem-lhe ainda milagres de "bilocação" - estar a rezar a missa na igreja e ser visto num leilão, noutro ponto da cidade, ao mesmo tempo - de levitação - ao falar da ressurreição de Jesus numa homilia os fiéis garantem tê-lo visto levantar-se do chão - e outros - como a cura de três paralíticos ao longo da vida.

Nos últimos anos, nem lhe era permitido dirigir-se à igreja: era obrigado a abençoar centenas, às vezes milhares, de fiéis da janela de sua casa.

"A fama dele é muito grande ainda hoje, nasci em Santa Rosa de Viterbo, morava em Casa Branca na altura do milagre e a devoção dele por lá era tão grande como em Tambaú, aprendi a ser devota do padre Donizetti através ainda da minha avó", conta Margarete.

Os habitantes de Tambaú, como os habitantes das cidades de outros beatos brasileiros, esperam agora ver a economia, através do turismo, ser impulsionada graças ao milagre decretado pelo Vaticano. Na cidade, além da casa-museu, está localizado um túmulo, onde foi sepultado o corpo do padre, uma estátua em sua homenagem e um santuário com capacidade para 1500 pessoas que, logo no dia da beatificação, recebeu cerca de 3000 peregrinos. A cidade fará parte do percurso "Caminhos da Fé", que termina na região de Guaratinguetá, onde se situa o santuário de Nossa Senhora de Aparecida, a 400 kms dali.

A religião no Brasil é assunto sério: o país tem as maiores populações católica e espírita do mundo, a segunda maior protestante, perdendo apenas para os Estados Unidos, e ainda relevantes fés de origem africana e indígena. Em sondagem do instituto Datafolha realizada, por coincidência, no exato dia da beatificação do padre Donizetti, 28% consideraram "a fé" como prioridade para a melhoria da vida, à frente de "estudo", com 21%, de "acesso a saúde", com 19%, ou de "trabalho", com 11%.

"Deus intercede por nós, meros pecadores à face de terra, e abençoa-nos com estas graças, produto da nossa fé, sinto uma felicidade imensa por ter sido tocado por ela", resume ao DN Bruno, 12 anos, o sujeito do milagre ratificado pelo Vaticano, que hoje é um orgulhoso escuteiro e vai participar na Marcha da Fé, em Tambaú, no dia 16 de junho, data da morte do beato Donizetti.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.

Premium

Crónica de Televisão

Cabeças voadoras

Já que perguntam: vários folclores locais do Sudeste Asiático incluem uma figura mitológica que é uma espécie de mistura entre bruxa, vampira e monstro, associada à magia negra e ao canibalismo. Segundo a valiosíssima Encyclopedia of Giants and Humanoids in Myth and Legend, de Theresa Bane, a criatura, conhecida como leák na Indonésia ou penanggalan na Malásia, pode assumir muitas formas - tigre, árvore, motocicleta, rato gigante, pássaro do tamanho de um cavalo -, mas a mais comum é a de uma cabeça separada do corpo, arrastando as tripas na sua esteira, voando pelo ar à procura de presas para se alimentar e rejuvenescer: crianças, adultos vulneráveis, mulheres em trabalho de parto. O sincretismo acidental entre velhos panteísmos, culto dos antepassados e resquícios de religião colonial costuma produzir os melhores folclores (passa-se o mesmo no Haiti). A figura da leák, num processo análogo ao que costuma coordenar os filmes de terror, combina sentimentalismo e pavor, convertendo a ideia de que os vivos precisam dos mortos na ideia de que os mortos precisam dos vivos.

Premium

Fernanda Câncio

O jornalismo como "insinuação" e "teoria da conspiração"

Insinuam, deixam antever, dizem saber mas, ao cabo e ao resto, não dizem o que sabem. (...) As notícias colam títulos com realidades, nomes com casos, numa quase word salad [salada de palavras], pensamentos desorganizados, pontas soltas, em que muito mais do que dizer se sugere, se dá a entender, no fundo, ao cabo e ao resto, que onde há fumo há fogo, que alguma coisa há, que umas realidades e outras estão todas conexas, que é tudo muito grave, que há muito dinheiro envolvido, que é mais do mesmo, que os políticos são corruptos, que os interesses estão todos conexos numa trama invisível e etc., etc., etc."

Premium

João Taborda da Gama

Aceleras

Uma mudança de casa para uma zona rodeada de radares fez que as multas por excesso de velocidade se fossem acumulando, umas atrás das outras, umas em cima das outras; o carro sempre o mesmo, o condutor, presumivelmente eu, dado à morte das sanções estradais. Diz o código, algures, fiquei a saber, que se pode escolher a carta ou o curso. Ou se entrega a carta, quarenta e cinco dias no meu caso, ou se faz um curso sobre velocidade, dois sábados, das nove às cinco, na Prevenção Rodoviária Portuguesa.

Premium

Catarina Carvalho

Querem saber como apoiar os media? Perguntem aos leitores

Não há nenhum negócio que possa funcionar sem que quem o consome lhe dê algum valor. Carros que não andam não são vendidos. Sapatos que deixam entrar água podem enganar os primeiros que os compram mas não terão futuro. Então, o que há de diferente com o jornalismo? Vale a pena perguntar, depois de uma semana em que, em Portugal, o Sindicato dos Jornalistas debateu o financiamento dos media, e, em Espanha, a Associação Internacional dos Editores (Wan-Ifra) debateu o negócio das subscrições eletrónicas.