A autarca de Colónia que quer os homens à distância de um braço

É criticada pela gestão do caso das agressões sexuais na passagem de ano na cidade que dirige. Foi alvo de um ataque que lhe poderia ter sido fatal um dia antes de ser eleita

Primeira mulher a dirigir a Câmara de Colónia, Henriette Reker, tornou-se nome de primeira página no início de 2016 pelos piores motivos. A cidade que dirige foi palco de agressões sexuais a mais de uma centena de mulheres na noite da passagem de ano. Agressões protagonizadas, maioritariamente, por estrangeiros: migrantes e refugiados. Num país que, em 2015, recebeu 1,1 milhões de candidatos a pedidos de asilo, os acontecimentos de Colónia suscitaram uma onda de críticas e de receios por novas agressões.

Numa entrevista publicada na quarta-feira no Frankfurter Allgemeine Zeitung, Reker afirmou que o sucedido na passagem de ano "podia ter acontecido em qualquer outra cidade. Não tem nada que ver com Colónia". Para a presidente da câmara, "gerir os problemas com os migrantes e refugiados é uma coisa, gerir a criminalidade é uma outra completamente distinta. Claro que pode haver criminosos entre os refugiados e não se pode passar um cheque em branco a todos eles, mas também não se pode criminalizá-los antecipadamente".

Para Reker, "está fora de questão a rendição" quanto à integração dos refugiados em Colónia e também no resto da Alemanha. Mas os acontecimentos na cidade levaram ao aumento da procura de equipamentos de defesa pessoal e à frequência em larga escala dos cursos de autodefesa. Além de uma vaga de críticas à política de Angela Merkel na questão dos refugiados e outras tantas à presidente da câmara daquela cidade e à polícia local, cujo responsável acabou por se demitir. Mas foi, em particular, uma intervenção pública de Reker dias após o sucedido que irritou muitos alemães, em particular mulheres, pelo modo como se referiu aos graves acontecimentos do final de ano.

As suas declarações numa conferência de imprensa, a 5 de janeiro, sobre a necessidade de manter os homens à distância "de um braço" causaram controvérsia. Com esta sugestão, a presidente da Câmara de Colónia pretendia sugerir um meio de defesa para as mulheres "que não conhecem certos homens ou com os quais não têm uma relação de confiança". A sugestão foi considerada ridícula, referindo algumas mulheres que não seria essa distância que iria impedir agressões ou tentativas de violação. Uma dessas mulheres, Marie von den Benken, escreveu no Twitter que "essa coisa de um braço de distância parece mais uma coisa de um só neurónio no cérebro".

É dado adquirido que o município, a polícia local e até alguns media alemães tentaram camuflar a situação numa conjuntura marcada pela chegada de mais de um milhão de refugiados em 2015.

Ambos estão a tentar corrigir essa linha de ação, os media divulgando agora números sobre a criminalidade envolvendo imigrantes naturais do Norte de África e do Médio Oriente, e as autoridades anunciando o reforço do policiamento em acontecimentos públicos. Por exemplo, para as festividades do Carnaval, no próximo mês. O Carnaval da cidade atrai mais de um milhão de pessoas num ambiente de grande animação.

Sem ligações partidárias

Reker nasceu a 9 de dezembro de 1956 em Colónia, numa família com antigas ligações aos sociais--democratas do SPD na região de Colónia. Estudou Direito em Colónia, Ratisbona e Göttingen, entre 1976 e 1986. A partir de 2000, foi conselheira para as questões sociais, saúde e consumo em Gelsenkirchen, funções que desempenhou até 2010, ano em que se fixou em Colónia, onde, sob proposta dos Verdes, assumiu as questões dos assuntos sociais, ambiente e integração de emigrantes no executivo deste município. Nesta capacidade, Reker defendeu a integração dos refugiados e a construção de habitações para eles. Desde que chegou a Colónia tem sido uma ativa porta-voz contra a discriminação dos estrangeiros.

Sem ligações partidárias e eleita por uma coligação, que ia dos Verdes/Aliança 90 (que propuseram a candidatura) aos liberais do FDP e à CDU, Reker foi alvo de uma tentativa de assassínio a 17 de outubro de 2015 por um neonazi em protesto pela sua política de apoio aos migrantes e refugiados. O agressor, um operário da construção civil no desemprego, visou o pescoço num golpe que poderia ter sido fatal, se desferido em profundidade.

Nas eleições do dia seguinte, Reker derrotou o social-democrata Jochen Ott, com 52,6% dos votos. Iniciou funções a 15 de dezembro de 2015, e a primeira crise que teve de gerir foi precisamente o caso das agressões na passagem de ano.

Reker segue a Igreja Evangélica alemã e é casada com o australiano Perry Somers, de 55 anos, treinador de golfe.

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