"40 Dias pela Vida". O grupo antiaborto que pressiona mulheres e clínicas

40 Dias pela Vida SP montou tenda em frente a hospital de São Paulo onde se pratica interrupção da gravidez de acordo com o previsto na lei brasileira para tentar constranger pacientes, médios e enfermeiros. Vítima de violação foi mesmo agredida

O Hospital Pérola Byington, no centro de São Paulo, foi cenário de uma agressão física a uma mulher que deseja abortar, nas condições permitidas pela lei, por manifestantes que se juntam numa tenda e se denominam 40 Dias pela Vida SP, grupo nascido nos Estados Unidos mas com filiais noutros países, entre os quais Portugal.

No dia 21, uma mulher de 31 anos apresentou queixa na polícia depois de ter sido imobilizada pelo pescoço por um homem e agredida no rosto e no corpo por uma mulher. Na sequência, manifestantes em sentido contrário - "pela Constituição e não pela Bíblia" e "não é o que você acredita mas o que a lei dita" são algumas das palavras de ordem - também montaram acampamento no local.

Desde de 25 de setembro e até 3 de novembro, o grupo católico 40 Dias pela Vida SP monta diariamente uma tenda em frente àquela unidade hospitalar, que realiza abortos em casos de violação, de gestações de fetos anencéfalos e de gravidez em risco de vida, as três situações permitidas pela lei brasileira. Com miniaturas de fetos, crucifixos, imagens de Nossa Senhora e outros santos, bíblias e faixas com dizeres como "rezando pelo fim do aborto", o grupo age na tentativa de persuadir não só as gestantes mas também médicos, enfermeiros e psicólogos a não realizarem os procedimentos.

O caso da agressão foi relatado pela Agência Pública, um coletivo feminino de jornalistas de investigação sem fins lucrativos com ênfase em questões ligadas aos direitos humanos que republica as suas reportagens em sites e jornais, por exemplo, na edição brasileira do jornal espanhol El País. Segundo a reportagem, a tal mulher de 31 anos, uma assistente de produção cujo nome é omitido, foi violada enquanto estava inconsciente durante uma viagem ao Rio de Janeiro.

De família religiosa, conta que ainda não sabe sequer se a violação resultou em gravidez mas que tem tido pesadelos com crianças, razão pela qual vem sendo atendida por psicólogos, psiquiatras e ginecologistas no Pérola Byington. Inconformada com a tenda do 40 Dias pela Vida SP, tentou manter um diálogo com os seus integrantes, mas acabaria agredida. Na queixa à polícia, uma das alegadas agressoras defende que era a assistente de produção, e não os membros do grupo, que estava alterada e violenta, versão desmentida, segundo a Agência Pública, por uma testemunha, a advogada Adriana Gragnani, que a viu ser atacada.

As jornalistas da agência confrontaram Celene Carvalho, a coordenadora do grupo e autora do depoimento em que acusava a assistente de produção, mas ouviram dela que não falaria à imprensa. Ela, outras três mulheres e um homem começaram então a rezar ave-marias.

À Agência Católica de Informações, entretanto, Celene aceitou falar. E explicou que "o principal motivo dos 40 Dias pela Vida é a realização de orações pedindo a conversão de médicos, enfermeiros, funcionários e direção que trabalham e praticam o aborto", realizadas em 855 cidades de 61 países com cerca de um milhão de voluntários em vigílias de, no mínimo, 12 horas de oração diária.

"Nós queremos, sim, o fim do aborto, tanto no Brasil quanto no mundo", acrescentou a coordenadora de uma iniciativa começada em 1998 nos Estados Unidos e em 2016 no Brasil.

O grupo 40 Dias pela Vida - numa alusão ao tempo que Jesus Cristo ficou no deserto em jejum e oração e sob tentações - escolheu o Hospital Pérola Byington, por ser uma instituição que "pratica o indecente 'aborto legal', como chamam".

"Nós acreditamos que oração, vigília e jejum são o que muitas vezes precisamos para quebrar algumas maldições, por isso Jesus passou os 40 dias no deserto. Estatísticas nos EUA mostram que 75% das mulheres que vão às clínicas de aborto no país para abortar, quando veem o grupo no lado de fora da clínica, desistem do aborto".

O segundo grupo de manifestantes chegou no fim de semana ao local. "Quando eu li a reportagem sobre a violência que a vítima de estupro sofreu por esse grupo extremista resolvi vir até a praça. Então entrei em contacto com alguns amigos e falei para chegarmos antes que eles montassem a tenda", afirmou a escritora Daniela Neves, organizadora do contraprotesto, ao portal G1.

"A nossa ideia não é entrar em confronto. É só proteger os profissionais de saúde, os médicos e as pacientes. As pacientes estão vindo aqui e estão sendo muito ofendidas", afirma.

De acordo com Daniela, pessoas do movimento contrário ao aborto começaram a chegar ao local, já ocupado pelos seus antagonistas, e não permaneceram. Minutos depois, surgiu a Polícia Militar. "O agente disse-nos que eles tinham uma autorização para ocupar o espaço onde nós estávamos mas que não tinham objeção nenhuma se fôssemos um pouco mais para o lado. Então colocámos a nossa barraca mais para a direita", conta.

Daniela diz que a organizadora do movimento 40 Dias pela Vida foi então até a delegacia de polícia para exigir que os policiais retirassem os novos manifestantes. "Essa mulher pediu para nos expulsarem mas a praça é pública. Os próprios agentes disseram que não têm como nos expulsar porque não estamos fazendo nada de errado. Então eles prometeram voltar após o almoço com segurança privados."

O caso chegou até Brasília, onde uma deputada do PSOL, de extrema-esquerda, classificou o grupo 40 Dias pela Vida SP de "fascista": "O aborto em caso de estupro está previsto em lei. Mesmo assim, uma tenda fascista e criminosa montada em frente ao Hospital Pérola Byington, em São Paulo, tenta constranger mulheres vítimas de estupro que se dirigem ao local", reagiu Sâmia Bonfim, através das redes sociais.

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