Risco de incêndio na Austrália agrava-se. Quatro mil pessoas têm de ser retiradas

Na Nova Zelândia, a neve e os glaciares estão agora acastanhados devido à cinza proveniente dos devastadores incêndios na Austrália. Especialista estima que o degelo dos glaciares pode aumentar até 30%. O estado australiano de Nova Gales do Sul decretou o estado de emergência durante sete dias

Sol vermelho, o céu cor de laranja e uma neblina de fumo. É este o cenário em algumas zonas da Ilha Sul da Nova Zelândia, que também está a ser afetada pelos devastadores incêndios na Austrália, sobretudo nos estados de Victoria e Nova Gales do Sul. Os glaciares e a neve estão agora acastanhados devido à cinza proveniente dos vários fogos que não têm dado tréguas aos australianos desde setembro. O número de mortos subiu para 18, de acordo com fonte oficial citada pela Reuters. Pela terceira vez, o estado de Nova Gales do Sul decretou estado de emergência e foi autorizada a retirada forçada de milhares de residentes e turistas.

Imagens registadas esta quinta-feira mostram como o fumo e a cinza dos incêndios na Austrália estão a atingir os Alpes do Sul, na Nova Zelândia. Os picos das suas montanhas cobertas de neve, bem como os glaciares, mudaram de cor. Apresentam-se agora acastanhados, acompanhados por uma neblina de fumo. Um cenário que está a preocupar as autoridades neozelandesas, com a antiga primeira-ministra Helen Clark a temer que os impactos ambientais sejam de longa duração nesta região.

"Como a tragédia de um país tem efeitos colaterais. O impacto das cinzas nos glaciares provavelmente vai acelerar o seu degelo", escreveu a ex-governante no Twitter.

"Nunca vi nada parecido", afirmou o professor Andrew Mackintosh, da Universidade Monash e antigo diretor do Centro de Pesquisa Antártica, ao jornal The Guardian. Ao longo de duas décadas a estudar os glaciares, o especialista garante que nunca observou tanta cinza e fumo a atravessar a Tasmânia. Um fenómeno que, diz, pode aumentar o degelo dos glaciares entre 20 a 30% nesta temporada.

Autorizada retirada forçada de milhares de pessoas

Milhares de turistas fugiram esta quinta-feira da costa leste da Austrália, devastada por incêndios florestais, antes do agravamento das condições meteorológicas previsto para sábado. Perante este cenário, a chefe do governo estadual de Nova Gales do Sul, Gladys Berejiklian, declarou esta quinta-feira estado de emergência durante os próximos sete dias.

Desde o início da temporada de incêndios, em setembro, esta é a terceira vez que é declarado um estado de emergência na Nova Gales do Sul, o estado mais populoso da Austrália.

"Não tomamos esse tipo de decisão de ânimo leve, mas queremos garantir que são tomadas todas as medidas necessárias para nos prepararmos para o que pode ser um sábado horrível", explicou Gladys Berejiklian.

A declaração foi feita pouco depois de os bombeiros de Nova Gales do Sul terem pedido aos turistas para saírem de uma área costeira de 200 quilómetros de extensão, que abrange a pitoresca cidade de Batemans Bay (a cerca de 300 km ao sul de Sydney) e se estende até ao sul do estado de Victoria.

"Há uma forte possibilidade de que as condições no sábado sejam tão más ou piores do que aquelas que vimos [na terça-feira]", afirmou o comissário adjunto do serviço de combate a incêndios rurais de Nova Gales do Sul, Rob Rogers.

Vários incêndios descontrolados devastaram o sudeste do país na véspera do Ano Novo, matando oito pessoas e tornando-se no dia mais mortífero desde o início da crise.

Desde setembro, os incêndios na Austrália já provocaram a morte de pelo menos 18 pessoas, mas o balanço poderá subir, já que as autoridades de Victoria avisaram que há 17 pessoas desaparecidas naquele estado.

"A maior deslocalização em massa de pessoas"

Os apelos feitos pelas autoridades são para as pessoas saírem das áreas assinaladas antes de sábado, dia em que se esperam fortes rajadas de vento e temperaturas acima dos 40°C.

De acordo com as autoridades, pelo menos 381 casas foram destruídas pelos fogos em Nova Gales do Sul e no estado vizinho de Vitória, os mais populosos da Austrália e onde continuam ativos mais de 200 incêndios.

Em Nova Gales do Sul, as autoridades ordenaram os turistas a abandonar uma área de 250 quilómetros ao longo da costa. O responsável pelos transportes daquele estado, Andrew Constance, disse ser "a maior deslocalização em massa de pessoas para fora" da região.

O diretor-adjunto dos bombeiros, Rob Rogers, admitiu que é impossível, neste momento, apagar ou sequer controlar os incêndios em curso no estado.

"Existem tantos nesta área que não conseguimos conter" a catástrofe, admitiu, acrescentando que, neste momento, o papel dos bombeiros é "apenas garantir que mais ninguém se atravessa na frente dos fogos".

Em Vitória, onde 68 casas arderam esta semana, militares australianos estão a ajudar esta quinta-feira milhares de pessoas que fugiram para a costa devido aos incêndios que ameaçavam as suas habitações, na cidade costeira de Mallacoota.

Cerca de 500 pessoas vão ser retiradas da cidade por um navio da marinha, segundo as autoridades.

A pior temporada de incêndios de que há registo

"Estimamos que cerca de 3000 turistas e 1000 habitantes estejam lá. Nem todos vão querer partir, nem todos podem entrar no navio de uma só vez", disse o chefe de governo de Vitória, Daniel Andrews, citado pela imprensa local.

O início precoce e devastador dos incêndios florestais este verão na Austrália levou as autoridades a classificar esta temporada como a pior de que há registo.

Cerca de cinco milhões de hectares de terra arderam, pelo menos 18 pessoas morreram e mais de 1300 casas foram destruídas.

O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, já advertiu que a crise pode durar meses.

O fumo dos incêndios colocou a qualidade do ar na capital, Camberra, como a pior do mundo no primeiro dia de 2020.

Desde o início da temporada de incêndios, mais de 1300 casas foram reduzidas a cinzas e 5,5 milhões de hectares foram destruídos, o que representa uma área maior que a de um país como a Dinamarca ou a Holanda.

"E as pessoas que morreram, senhor primeiro-ministro?". Scott Morrison alvo de protestos

Esta crise sem precedentes provocou protestos para exigir ao governo medidas imediatas contra o aquecimento global, que os cientistas dizem ser a causa destes incêndios, mais longos e mais violentos do que nunca.

O primeiro-ministro australiano, Scott Morrison, que renovou recentemente o seu apoio à lucrativa e altamente poluente indústria de carvão australiana, tem sido amplamente criticado.

Aliás, o chefe do governo teve de interromper uma visita à cidade de Cobargo, em Nova Gales do Sul - onde duas pessoas morreram no início desta semana -, depois de ter sido alvo de protestos de habitantes revoltados. "Não é bem-vindo", ouviu o primeiro-ministro, como mostra um vídeo publicado pelo The Guardian.

"E as pessoas que morreram, senhor primeiro-ministro? E as pessoas que não têm onde morar?", questionaram vários populares. "Como é que só tínhamos quatro camiões para defender a nossa cidade? Porque a nossa cidade não tem muito dinheiro, mas nós temos corações de ouro", afirmou uma mulher.

"Não vai conseguir votos aqui, amigo", disse outro habitante, dirigindo-se a Scott Morrison, que encurtou a visita à cidade afetada pelos fogos devido à revolta da população.

Tenista Nick Kyrgios ajuda vítimas dos incêndios

Entretanto, o resto do mundo está a tentar ajudar as vítimas dos incêndios na Austrália, nomeadamente o mundo do ténis, que começa tradicionalmente a temporada naquele país.

O tenista australiano Nick Kyrgios, de 24 anos, lançou esta quinta-feira um apelo no Twitter para arrecadar fundos para as vítimas, antes do início do Open da Austrália.

Mais tarde, Kyrgios comprometeu-se a "doar 200 dólares por cada ás que fizer em todos os eventos que disputar neste verão [australiano]"

Depois da iniciativa do atleta, o responsável máximo da Federação Australiana de Ténis, Craig Tiley, anunciou que serão organizadas formas de "juntar fundos e operações de apoio durante o campeonato ATP, o Open da Austrália (20 de janeiro a 2 de fevereiro) e noutros eventos nas próximas semanas".

Governo português lamenta mortes e devastação

O Governo português lamentou as mortes ocorridas e os danos materiais devido aos violentos incêndios que atingem a Austrália, num comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). "O Governo português lamenta profundamente as perdas de vidas humanas e os avultados danos materiais causados pelos numerosos e violentos incêndios que têm assolado na Austrália, num contexto de aumento global de fenómenos climatéricos extremos", refere a nota.

No comunicado, "o Governo português apresenta as suas mais sentidas condolências às famílias das vítimas e expressa a sua profunda solidariedade para com o povo e o Governo da Austrália, desejando que este difícil período seja brevemente superado e que, nas áreas mais afetadas, a vida retorne à normalidade".

Atualizado às 15:00

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