Ola Melzig: "Até o Justin Timberlake ficou impressionado com a Eurovisão"

Entrevista com o diretor de produção técnica da Eurovisão, a viver em Lisboa desde janeiro para preparar o espetáculo de 12 de maio e as duas semifinais

O sueco Ola Melzig lembra-se do momento em que ouviu Luísa Sobral nos ensaios da Eurovisão, em Kiev. Era diretor técnico do evento mas só conseguiu ouvir os intérpretes já nos ensaios e disse que Amar pelos Dois seria a vencedora. E quando Portugal chegou à final como favorito foi ter com Carla Bugalho, chefe da delegação portuguesa, e entregou-lhe um cartão. "Vocês sabem que vão ganhar, não sabem?".

Quando a vitória se confirmou, veio a Portugal. Era meio de julho e foi surpreendido por uma equipa que "tinha mesmo lido o caderno de encargos". "Também já tinham o primeiro esboço do espetáculo e o meu nome. Foi uma maneira simpática de me convidarem para o projeto". Nove meses depois, Lisboa é a sua casa. Instalou-se em janeiro para preparar a final de 12 de maio da Eurovisão e as semifinais, conta, junto ao rio, no Parque das Nações, a poucos metros da Altice Arena, onde tudo acontece e se cruza com o filho, que está de visita. É a única zona que conhece. "Já posso fazer visitas guiadas, o centro não conheço", ri-se. Da Suécia, trouxe muita papelada e até uma máquina de expresso. "Foi antes de saber a grande nação de café que Portugal é", diz este homem de quase dois metros e cabelos espetados. Ontem foi o primeiro dia de sol. "Já contactei o departamento jurídico, prometeram-me calor e gelado". Versão séria: Se o tempo for o maior problema está tudo bem."

Qual é, então, o maior problema no que diz respeito à Eurovisão?

Não temos problemas, temos desafios. Num primeiro momento, constituir a empresa , porque é disso que se trata. É preciso gestão, diretores, recursos humanos. É uma empresa para existir 10 ou 11 meses. É preciso encontrar as pessoas certas para os lugares certos. Desde o primeiro segundo, a RTP pediu que tudo fosse o mais local possível. O que nós preferimos, porque é um espetáculo português.

Tudo está sobre os seus ombros. Sem pressão...

Nenhuma...! Há posições-chave que trazemos de fora, porque o conhecimento e especialização em certas áreas faz com que seja mais fácil para todos, eu incluído. A Eurovisão é muita específica como espetáculo. É como uma pintura: a EBU [European Broadcasting Union] dá-nos a moldura, nós pintamos. Qual é a história que queremos contar? Sem uma história não vamos a lado nenhum. Passo seguinte: o palco, em torno do qual tudo acontece. Sem isso não podemos ter desenho de luz e câmaras, número de lugares, não podemos vender bilhetes. Tudo o que fazemos é ditado pelo palco. Por razões técnicas e de orçamento, temos de o fazer cedo. É a primeira coisa que fazemos depois de escolher o recinto. Isso foi feito rapidamente neste projeto, o que nos permitiu trabalhar localmente muito cedo. O que precisamos numa organização destas é de tempo. Em Kiev, a primeira reunião aconteceu dias antes do Natal. Montei uma gigantesca equipa internacional, não havia tempo para formar ninguém. Quando chegamos antes podemos formar e estar muitos presentes na produção. O que dizemos desde o princípio é: "Usem-nos". Podem ser perguntas sobre merchandising ou o Euroclub, porque apesar de não serem as nossas áreas já vimos boas e más versões e sabemos qual é a diferença entre sucesso ou fracasso.

Quantos estrangeiros há na equipa?

Eu, o Tobias Aberg... Somos menos de 20. O desenho de luz, da Alemanha, foi escolhido por concurso público, tal como o palco, do Florian Wieder. O diretor do concurso, e depois alguns seniores como o diretor de câmaras...

O espetáculo está inteiramente coreografado e escrito.

Sim, um diretor leva 12 horas a fazer três minutos de música. Vamos ter 43 canções, portanto temos muitas horas só para a música. O que é diferente neste espetáculo é que há uma competição. Eles estão a representar o seu país e nem todos os países são os melhores amigos. E os músicos podem ser grandes estrelas nos seus países, mas será que algum dia estiveram num palco como este? Claro que não! Em 2016, tivemos o Justin Timberlake no espetáculo. Ele chegou ao palco e disse: "Fucking hell!" Até o Justin Timberlake ficou impressionado com a Eurovisão. Temos 250 camiões de material, uma grande produção são 50. Diz muito sobre a escala do evento.

Como é trabalhar com portugueses?

Adoro.

Agora pode ser honesto e sincero.

Talvez não sejam as melhores pessoas para aparecer a horas numa reunião (risos). A nossa experiência tem sido muito agradável. São muito amigáveis e abertas, generosas. Quando começámos, a Carla [Bugalho] disse: "Somos atlânticos, não mediterrânicos. Vão ver que há diferença." E há. A entrega de trabalho é muito precisa. Recebemos exatamente o que pedimos. São muito orgulhosos do país. Apaixonados. Se gostarem, envolvem-se a 110%.

Em Portugal será tudo à antiga. Sem vídeo ou LED Walls.

Não era uma coisa que a RTP quisesse, especialmente com um vencedor como Salvador Sobral que diz que a música não é fogo de artifício.

A RTP diz que vai ser a Eurovisão com menor orçamento dos últimos anos.

Tudo se resume a "tempo é dinheiro". Se decidirmos tudo com tempo, seremos mais eficientes nos custos. Logo aí, poupam-se milhares de euros. Trabalhamos de forma próxima com fornecedores e produtores, o que nos dá grandes descontos. Trabalhar localmente poupa muito dinheiro em viagens, hotéis e essas pequenas coisas. Bom planeamento, mínimo aluguer possível. Também a cidade de Lisboa e o Turismo têm sido de grande ajuda.

Conhecendo os desempenhos, consegue dizer quem são os favoritos?

Este ano é traiçoeiro. Israel destaca-se, ela [Netta Barzilai] é muito cool, tem muita atitude, mas se não tiver uma performance ao mesmo nível, outras dez podem aparecer. É cedo para dizer. No geral, há muito boas canções.

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