O mestre de poucas palavras está à procura de um Emmy

Kevin Spacey, protagonista de "House of Cards", soma a quarta nomeação consecutiva. Conheça a sua história e planos para o futuro

"A política e a representação estão intimamente ligadas. O objetivo de ambas é convencer." Palavras sábias de Kevin Spacey, o homem que convence milhões de espectadores em todo o mundo no papel do implacável presidente dos EUA Frank Underwood, em House of Cards. Nomeado para um Emmy na categoria de melhor ator dramático pelo quarto ano consecutivo, Spacey é uma criatura que se reinventa a cada dez anos: na década de 1980, emergiu nos palcos da Broadway; nos anos 1990, afirmou-se como um dos gigantes de Hollywood; na viragem do século, mudou-se de malas e bagagens para Londres, Reino Unido, para se tornar diretor de uma companhia de teatro; e só em 2013 voltou a dedicar-se ativamente à representação, a convite da Netflix.

Ele reinventa-se, na verdade, cada vez que entra no corpo de uma personagem. "Sempre que fazemos um take, tento criar algo novo. Em House of Cards, digo uma fala com um sorriso, depois com uma expressão feroz, depois com ironia, e com isto estou a dar ao editor e ao realizador uma escolha. É como um puzzle, em que se tenta descobrir como encaixar as cenas na história", explicou, em entrevista à GQ.

É isto que faz dele "um grande profissional", afiança Robin Wright, também ela nomeada para um Emmy na categoria de melhor atriz dramática, pelo papel de Claire Underwood, mulher de Frank na série original da Netflix. "Não é preciso pedir-lhe muito. Ele vai dar tudo de qualquer maneira. Há uma panóplia de opções na sala da edição devido à mestria dele", confirma.

Mestria essa que, no auge da sua carreira cinematográfica, lhe valeu o Óscar de Melhor Ator, em 2000, por Beleza Americana. A fama nunca o atraiu e, por isso, foi nessa altura que Spacey quis mudar de vida. "Tinha acabado de passar 12 anos a tentar construir uma carreira como ator de cinema. Mas eu sou um rato do teatro. Lá estava eu no auge do sucesso, com um Óscar, e pensei: "Não quero continuar a fazer isto. Quero ser algo diferente. Quero um novo desafio.""

Juntou-se, então, à companhia de teatro Old Vic. "Quando fui para Londres, as pessoas pensavam que eu era doido. Porque não relaxar numa piscina em Beverly Hills a colecionar cheques? Mas essa não era a vida que eu queria. Sei que se não tivesse ido para Londres, se não tivesse feito uma peça ou duas por ano, nunca teria estado pronto para o Frank Underwood. Uma década no Old Vic tornou-me um ator melhor", assegurou à Harvard Business Review.

Seja em teatro, cinema ou televisão, certo é que o talento de Kevin Spacey é reconhecido por milhões em todo o mundo. A sua vida pessoal, pelo contrário, sempre foi uma incógnita. Sabe-se apenas que o ator de 57 anos atravessou uma infância difícil, marcada por dificuldades económicas e por abusos físicos por parte do seu pai - militante do partido nazi norte-americano, segundo a Fox News.

Homem de poucas palavras - raramente aceita dar entrevistas -, Spacey nunca apresentou publicamente um interesse romântico nem nunca respondeu aos rumores de que seria homossexual. "Nunca acreditei em fazer da vida pessoal publicidade. Não estou interessado em fazê-lo. Nunca o farei. Podem especular o que quiserem", disse à revista Gotham.

Apaixonado pela "arquitetura, as pessoas, a política, o teatro, o desporto e a comida" da capital inglesa, o ator que participou em filmes como Os Suspeitos do Costume (que lhe valeu um primeiro Óscar de Melhor Ator Secundário, em 1996) ou Homens Que Matam Cabras só com o Olhar (2009) é um democrata assumido e amigo próximo de Bill Clinton, que chegou a descrever, na altura do seu mandato como presidente dos EUA, como "uma das luzes da política".

Será esse o plano de Spacey para a próxima década? Seguir as pisadas de Clinton, ou de Frank Underwood, e enveredar pela carreira política? "Não!", garantiu, ao The Wall Street Journal. "Quando olho para a minha vida e para as minhas experiências, é bastante claro que gosto de fazer coisas concretas. Acho que odiaria estar na política porque ficaria frustrado com o facto de não conseguir fazer nada. Há tanta ideologia a obstruir o compromisso", notou.

Daqui a dez anos, prevê, talvez esteja a trabalhar em duas outras áreas do seu interesse: música - é dono de uma poderosa voz jazz, que emprestou à banda sonora do filme Beyond the Sea, que realizou em 2004 - e literatura. "Adoro cantar e quero trabalhar em novos temas. E também já estou a trabalhar num livro sobre a arte de escrever cartas, algo que me atrai muito", revelou, numa entrevista concedida em 2015 à GQ.

Quanto ao Emmy, que disputa com nomes como Liev Schreiber ou Rami Malek, o veredicto chegará a 18 de setembro.

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