"O jazz apenas é. Quem gosta, gosta, e quem não gosta, não gosta"

5 Minutos de Jazz, da Antena 1, comemora este domingo 50 anos. É o mais antigo programa da rádio nacional. José Duarte pensa-o desde o primeiro dia. "Sou um divulgador", diz

Manter um programa radiofónico no ar durante 50 anos é, como se costuma dizer, pera doce?

É, porque gosto muito de o fazer. Tenho um vício, vou confessá-lo, que é querer que os outros gostem das músicas, dos quadros, dos filmes de que eu gosto. É isso que faço com o jazz, que é a melhor música que foi inventada no século XX. Sou um divulgador.

Como é que um programa sobre um estilo musical que não é de massas sobrevive há meio século na rádio?

É verdade que não acontece como no rock, que mete toda esta malta jovem em pé e a gritar. Para se falar jazz - e o jazz é como o esperanto - é preciso ter um bom ouvido, melhor do que os normais, o que restringe o número de apreciadores.

É difícil para o jazz conquistar ouvidos?

O jazz não conquista nada. O jazz apenas é. Quem gosta, gosta, quem não gosta, não gosta. O que faço é trabalhar para contrariar isto. Quero que as pessoas gostem do que é bom. E perdoem-me a brutalidade, mas as pessoas que gostam são melhores. São mais cultas política e musicalmente. É tudo a favor dos portugueses esta minha luta.

É uma luta com vitórias?

Muitas. Veja o que era o jazz quando começou o 5 Minutos. Era música de pretos. Recebi muita correspondência com palavras menos simpáticas. Mas recordo que uma vez, aqui há uns anos, em Guimarães, depois de um dos concertos anuais de jazz, eu ia para o hotel a pé e aproxima-se de mim uma senhora com um puto de 4 anos pela mão. "Queria apresentar-lhe o João. Ele não se deita sem ouvir os seus 5 Minutos." Perguntei-lhe qual era o melhor músico de jazz. "Miles Davis." Que grande vitória a minha...

Atualmente, entre o seu público há a malta jovem do rock de que falou?

Os mais novos ouvem rock, infelizmente para eles, apesar de existirem muitos mais novos nos concertos de jazz. A média de idades é, ainda assim, mais elevada. A malta jovem é alienada pelo rock e os pais têm culpa porque são incultos, são analfabetos com certeza. Os meios de informação também não ligam nada ao jazz. Só ligam quando vem cá um marreco qualquer tocar, um marreco para quem tudo vale para ganhar dinheiro. O jazz é uma música da burguesia média.

Já foi a algum concerto de rock?

Não. Não gosto daquilo.

Não tem curiosidade para ir ver se os jovens andam realmente aos berros e de braços no ar?

Vejo isso tudo na televisão.

Voltando aos 5 Minutos de Jazz, em 50 anos de emissão não repetiu músicas?

Uma ou outra. Eu escrevo os programas todos para depois os ler ao microfone - faço até um bocadinho de teatro, como fazer de conta que não entendo o que escrevi. E depois faço uma lista em papel com as datas e os títulos das músicas que passaram. Faço-o desde o primeiro dia. Assim, quando me perguntam que disco tocou em determinado dia, já sei dizer.

Antes deste programa conduziu O Jazz, esse Desconhecido, na Rádio Universidade. Hoje continuaria a chamar-lhe desconhecido ou já seria conhecido?

Ainda seria desconhecido...

Isso não é inglório?

Não. Eu gosto assim. Mantém-nos poucos, mas bons. Mas está melhor do que antigamente. Em Portugal já há escolas, há festivais, há músicos.

Músicos com futuro em Portugal?

Não. E convém dizer que o [Mário] Laginha é o melhor pianista de jazz português. Mas em Espanha já ninguém o conhece. E em Inglaterra, Alemanha ou Estados Unidos nem se fala. Ele é um bom pianista: o defeito é dos outros que não o conhecem. Isto diz tudo.

Como é que nasceu a sua paixão pelo jazz? Foi-lhe passada pelos seus pais?

Comecei a gostar porque era um ignorante. Foi a atração pelo desconhecido.

Em sua casa ouve-se apenas jazz?

Só eu. A minha mulher não. E as minhas filhas ouviram todas as músicas de que gosto.

Ao longo deste meio século, a interrupção do 5 Minutos de Jazz entre 1975 e 1984 foi o período negro do programa?

Foi o pior, sim. Mas depois regressou à Rádio Comercial. Curiosamente, o radialista que em 1966 teve a ideia de me convidar para fazer os 5 Minutos para a Renascença, o João Martins, estava a trabalhar na Comercial em 1984.

21 de fevereiro de 1966, data em que tudo começou. Onde é que estava no momento em que foram para o ar esses primeiros cinco minutos?

No clube Village Vanguard, em Nova Iorque, a meca do jazz. Era uma segunda-feira e estava a ver a orquestra The Thad Jones-Mel Lewis. Pensava que este seria igual aos programas que fiz antes, que tinham durado apenas meses e de que as pessoas se chateavam. Olhe, este pegou [risos].

E sabe explicar porquê?

Acho que por duas razões. Por causa da variedade - há jazz antigo e moderno - e por causa do indicativo sonoro, que é do saxofonista norte-americano Lou Donaldson.

Que estará presente no Hot Club de Portugal [Lisboa] para o ajudar a comemorar este meio século.

Estará sim, nos dias 22 e 24. Ele e o Steve Potts [nos dias 25, 26 e 27].

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