"Altered Carbon" na Netflix: este não é o meu corpo

Ficção científica baseada no livro de Richard K. Morgan estreia hoje na plataforma Netflix. Dez episódios para conhecer Takeshi Kovacs e imaginar o mundo daqui a 300 anos.

"A primeira coisa que aprendes é que nada é o que parece." É assim que começa Altered Carbon, a nova série de ficção científica que está disponível a partir de hoje na Netflix. E este "nada é o que parece" é para ser interpretado de forma literal, uma vez que neste futuro distópico pode acontecer que uma pessoa tenha o rosto (e o corpo) que antes pertencia a outra pessoa.

Altered Carbon é, antes de mais, um livro de Richard K. Morgan, autor britânico de ficção científica. Publicado originalmente em 2002, este é o primeiro romance em que aparece o mercenário Takeshi Kovacs, que será também protagonista nos livros Broken Angels (2003) e Woken Furies (2005).

Altered Carbon foi eleito como um dos livros do ano para o The New York Times e foi também vencedor do Philip K. Dick Award, em 2003. Aproveitando a estreia da série, chegará este mês às livrarias a edição portuguesa, da Saída de Emergência, com o título Carbono Alterado.

O projeto é da responsabilidade de Laeta Kalogridis que, há 15 anos, comprou os direitos do livro com a intenção de fazer um filme. Porém, só agora, consegue estrear esta série de 10 episódios. Ficção cyberpunk e com a ação a passar-se no século XXV, Altered Carbon é, segundo anuncia a Netflix, a série mais cara já produzida por este serviço, muito por causa de todos os efeitos especiais, digitais ou não, que foram utilizados. Para criar o futuro, pois então.

Neste futuro, as pessoas têm chips aplicados na coluna vertebral, onde estão armazenadas as suas memórias e todos os dados da sua personalidade. Mesmo que o corpo morra, se o chip não estiver danificado pode ser colocado num outro corpo. No entanto, apesar de o renascimento ser possível a todos, nem todos podem escolher os corpos em que vão renascer e acabam por ficar com corpos já mais velhos e marcados.

Só os mais ricos, os Meths, é que têm dinheiro para comprar os melhores corpos e, assim, viver indefinidamente (o nome é uma referência a Matusalém, figura do Antigo Testamento, conhecido por ter vivido 969 anos). E também podem fazer um backup do chip e ter cópias, que atualizam regularmente, guardadas em locais seguros. Esse é o caso de Laurens Bancroft (interpretação de James Purefoy) - um milionário que não sabe como morreu, uma vez que o seu chip foi danificado e não guardou as memórias das últimas 48 horas de vida. A polícia acredita que ele terá cometido suicídio, mas ele está convencido de que foi assassinado. Só não sabe como nem por quem.

Os chips também podem ser armazenados durante séculos - essa é a forma de um criminoso cumprir uma pena. Foi o que aconteceu a Takeshi Kovacs (interpretado por Joel Kinneman). Ele era um Enviado. Ou seja, um elemento de uma unidade militar especial formada para combater na guerra interestelar. Os Enviados desenvolvem capacidades especiais e têm os cinco sentidos muito mais apurados do que todas as outras pessoas. Kovacs, morto logo no início da série, por traição ao Protetorado, que é o governo da Terra, fica prisioneiro (congelado) durante 250 anos na prisão de Alcatraz. E sai da prisão, em liberdade condicional, num novo corpo, graças à intervenção de Bancroft que o quer contratar para que ele descubra tudo sobre a sua morte.

No primeiro episódio, além de irmos descobrindo todos estes pormenores, teremos ainda oportunidade de saber um pouco mais sobre o passado de Kovacs, os seus medos e as suas capacidades. E também ficamos a conhecer algumas das personagens que nos vão acompanhar ao longo da série: Quellcrist Falconer (Renée Elise Goldsberry), mentora de Kovacs, foi a líder de um movimento de rebelião contra o Protetorado; Miriam Bancroft (Kristin Lehman), a mulher do milionário; Poe (Chris Conner) um indivíduo de Inteligência Artificial que é o gerente do hotel de luxo The Raven e se vai tornar parceiro de Kovacs (sim, trata-se de uma homenagem a Edgar Allen Poe e à sua obra O Corvo); Kristin Ortega (interpretação de Martha Higareda), uma agente policial, com quem Kovacs vai manter uma relação de atração e rivalidade; e Reileen Kawahara (Dichen Lachman), a irmã de Takeshi.

Ao ver Altered Carbon é impossível não pensar em Matrix - pelo facto de a existência de um indivíduo poder ser separada do seu corpo - mas também podemos pensar nos filmes da série Mad Max ou até mesmo em Blade Runner. Também aqui o futuro é uma mistura entre tecnologia super avançada e um universo de ferro-velho, que até a nós nos parece obsoleto, quanto mais no século XXV. Tanto podemos estar num transporte voador muito sofisticado como num beco decadente de uma qualquer cidade que, para o caso, é Bay City, versão futurista de San Francisco, nos EUA. Tudo com uma dose generosa de violência e bocados de carne a saltarem por todos os lados sempre que houver tiroteios.

E tal como todas as boas histórias de ficção científica, esta é também profundamente existencialista. Aqui se debatem questões que têm a ver com as diferenças sociais entre ricos e pobres ou questões religiosas, mas acima de tudo têm a ver com o que faz de nós humanos e o que faz de nós imortais. Eles avisam-nos: "Não esperes nada, só assim estarás preparado para tudo." Porém, há algo que podemos esperar e (já está confirmado) iremos ter: uma segunda temporada de Altered Carbon.

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