Há futuro para 'Sexo e a Cidade' sem Samantha Jones. Os temas têm de mudar

Era a personagem mais sexual e mais livre de Sexo e a Cidade, produção que está de regresso, mas sem a atriz Kim Cattrall. Dos temas ao casting, passando pelo dinheiro, crê-se num renovado futuro na série que tem vindo a ser olhada como datada.

"Eu não vou ser julgada por ti ou pela sociedade." Samantha Jones, interpretada por Kim Cattrall, defendia-se assim da crítica dura de Carrie Bradshaw, a protagonista incarnada por Sarah Jessica Parker, quando esta apanhou a relações-públicas envolvida sexual e ocasionalmente com um estafeta no seu gabinete.

Esta foi apenas uma das muitas citações célebres que a mulher mais velha e mais liberta disse na série Sexo e a Cidade, mas que agora não volta para integrar o elenco. Ficam na memória frases que não ganharam pó nas últimas quase duas décadas: "Um homem com raiva numa reunião é um pistoleiro, uma mulher é emocional"; "Amo-te, mas amo-me mais a mim"; "Sempre gostei do corpo como ele é"; "Sou trissexual, tento [try, trocadilho com three, três em inglês] tudo uma vez."

Há muito em rota de colisão com a protagonista e atriz Sarah Jessica Parker - pela desigualdade salarial no elenco e também pela troca dura de palavras pessoais -, mas o certo é que a contundência e a libertação interpretadas por Kim Cattrall não vão estar de regresso ao pequeno ecrã. Não faltam, contudo, caminhos para explorar a história deste grupo de mulheres nova-iorquinas, bem-sucedidas, de classe alta e que, no virar do século, procuravam o amor e o romance com alguma infelicidade à mistura. Atualmente, muitas são as vozes que se têm insurgido contra as convenções que a história, à data tão emancipadora, afinal divulgava.

Do pouco que se sabe da sétima temporada - que começou por ser adaptada da obra de Candace Bushnell, em 1998 -, antecipa-se um regresso das personagens agora aos 50 anos e a olharem o amor, o sexo, a vida, a feminilidade e as relações sob uma nova perspetiva. Gravações que, se a pandemia deixar, hão de começar na primavera de 2021 e pela mão da plataforma de streaming HBOMax.

Menopausa, poliamor e o lugar vago

Fã confessa da produção da HBO, Patrícia Müller, autora de Madre Paula (RTP 1) ou A Generala (OPTO), não esconde a curiosidade por "ver como vão resolver este imbróglio" sem Samantha e com nova história. "Aos 50 anos, nenhuma mulher está morta, pelo contrário. Sabemos que os 50 são os novos 30, mesmo que não seja bem a mesma coisa, mas há caminhos por explorar. Vai ser um desafio muito engraçado", acredita.

Como argumentista, Patrícia pega nas ideias e define logo linhas orientadoras: "Elas vão ter de se livrar daqueles homens que lhes conhecemos. Bom, uma delas pode manter, nem que seja para explorar como apimentar uma relação."

Há, no entanto, outros temas que têm de ser dissecados. "A produção vai ter de responder à questão do poliamor, à homossexualidade, que até chegou a ser trabalhada com Kim Cattrall e Sonia Braga, à transexualidade, às novas doenças sexualmente transmissíveis, ao casamento e ao divórcio, à menopausa", enumera Patrícia Müller. Que sugere ainda: "Todo este tipo de empoderamento deve ser analisado. Citando o escritor brasileiro Nelson Motta, e de que todo o rapaz de 20 anos devia dormir com uma mulher de 40, creio que tudo isto é absolutamente pertinente."

É também neste ponto que Tânia Graça concentra esforços. A psicóloga e sexóloga espera que a série, "que muitos viam como fútil, mas que tinha imenso conteúdo científico fundamentado", explore "as transformações do corpo das mulheres ligadas a esta fase de vida, dos 50 anos, a sua sexualidade". E quer até mais: "Vai ser giro ver como aquelas que foram mães se debatem com filhos adolescentes, seria curioso ver como Carrie vive a questão de não ter sido mãe."

E o lugar de Cattrall? Há futuro na série para esta sétima temporada, que perde a sua mulher sexualmente mais livre, mais pragmática no amor e empoderada? A resposta é clara: sim! "Há sempre a hipótese de arranjar outra protagonista com as mesmas características, até pode ser mais nova e trazer à luz a geração dos 30 anos", admite Patrícia Müller, que antecipa: "Podia ser negra, hispânica ou asiática e fazer dela uma nova Samantha."

"Ela vai fazer falta pela presença, pela piada e pela libertação que trazia à história", refere Tânia Graça, mas nada está perdido: "Teríamos de pensar, recuperar a ideia das quatro e de como seria agora vivida a sexualidade.

50 anos? Um regresso nada inocente

"Vamos ver que tratamento vão dar aquilo", contemporiza José Navarro. Foi ele que, como responsável pelas aquisições internacionais da SIC, trouxe a história da HBO para Portugal. Na altura, no virar do milénio, compravam-se os filmes, bem mais valiosos, e podia-se depois escolher uma série extra. Navarro escolheu esta "pela linguagem irreverente". Muito longe de ser um êxito de audiências em Portugal, a história foi penetrando no universo feminino e deixou marcas. Agora, que regresso espera com esta sétima temporada? O antigo responsável da estação de Balsemão confia nas soluções da superpoderosa produção de ficção norte-americana na qual "não faltam génio e criatividade". Na verdade, na qual não falta inocência. Mas já lá vamos.

"Elas vão continuar a ser como eram ou a refletir a distância social em que possivelmente empobreceram? Tornaram-se feministas mais radicais? Há tantos caminhos possíveis: elas terem-se politizado, uma que largou tudo para ir para o Congresso, elas terem-se tornado feministas, outra ter descoberto a homossexualidade, ou ainda outra ser superconservadora", indaga Navarro.
Estas não são, porém, as primeiras perguntas que faz. Pragmático, o responsável lembra que a sétima temporada terá de responder ao que o mercado - e o dinheiro - exige e quer ver. E, por isso, explica: "Tem graça que a história se centre nos 50 anos das protagonistas, porque o público a que se dirige a série é, no fundo, o mesmo de há 20. O auditório que irá acompanhar a vida daquelas personagens também envelheceu e, curiosamente, está mais em casa, vê a série na plataforma, não vai ao cinema." Na síntese de José Navarro, "o pior que pode acontecer é editar apenas a marca e escrever nos mesmos termos; já o melhor decorre de qualquer opção de evolução que, com génio, pode ser sempre surpreendente.

Moderna ou datada? Fraturante ou preconceituosa?

Vista por muitos, durante anos, como libertadora pela forma como pôs o sexo feminino a lidar com a sexualidade, a saúde, a doença, o casamento e os filhos, certo é que Sexo e a Cidade tem vindo a ser apontada como uma trama elitista, de casting pouco diversificado, que amarrou mulheres a amores tóxicos, que reagiu a convenções nem sempre indicadas e que aceitou situações emocionais e sexuais hoje criticáveis.

"Só se pode ver a realidade à luz do seu contexto", lembra a psicóloga e sexóloga Tânia Graça. "Foi uma série que levantou uma série de questões há 20 anos e que trouxe uma muito maior liberdade às mulheres, o que não pode ser esquecido. Agora, há outros desafios que é preciso responder", pede Patrícia Müller.

José Navarro equipara "o abalo provocado com O Sexo e a Cidade com o momento em que donas de casa passaram a entrar, sem constrangimentos, em lojas de lingerie". Porém, tudo mudou e essa alteração "coincide com a mudança de uma geração, passaram 20 anos", chama à atenção.

"Todas as questões tornaram-se políticas. Com o #MeToo, por exemplo, houve uma radicalização política muito grande nos Estados Unidos da América. E se esta série rompia com as normas do comportamento feminino regular e normal, hoje é capaz de ser apenas uma história de mulheres da classe média urbana nova-iorquina."

Diretor de Programas da SIC à data da aquisição e exibição da série, Manuel S. Fonseca, é taxativo: "Não acho que seja possível atacar-se a história. Viveu-se, devemos estar gratos a todas as mulheres que participaram também neste tipo de libertação e de outras relações humanas." E pede reflexão: "Não deixa de ser curioso que, há duas, três décadas, era a consagração do prazer, as relações entre homens e mulheres que geravam esse mesmo prazer que estava no centro. O universo intelectualizado perpassa por elas e fala em relações de domínio, de poder. Há uma espécie de reavaliação do mundo contemporâneo", conta Manuel S. Fonseca. Hoje, fala na "visão das relações sexuais e humanas como uma luta de classes, como se o marxismo se tivesse instalado no feminismo".

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