Eduardo Madeira: "Muitos passos foram dados para eu chegar aqui e estar pronto para o desafio"

Fez 49 anos, foi pai pela terceira vez e, após mais de 20 anos de carreira, estreou-se a solo na TVI no programa de fim de tarde de Cristina Ferreira. "Fazia sentido".

Tocam à campainha da casa televisiva de Cristina Ferreira e aparece Adelaide, a vizinha que não gosta da TVI, mas vê tudo. "Eu esse canal não vejo, não gosto". É a frase que identifica a personagem, uma das primeiras que Eduardo Madeira criou para o programa Cristina ComVida, na sua chegada ao canal, o único em que não tinha trabalhado.

Adelaide já ganhou vida própria. Alguém, que não Eduardo Madeira, lhe criou uma página na rede social Instagram, o que faz sentido tendo em conta que foi nas redes sociais que ela nasceu.

Cristina Ferreira tinha acabado de chegar à TVI, o seu primeiro programa não gerou as melhores audiências nem os maiores elogios no Instagram, Facebook e Twitter. Uma biblioteca de comédia para Eduardo Madeira, como conta ao DN, numa tarde de gravações. Depois, "houve uma senhora que juntou tudo", ri-se. Não via, não gostava, mas conhecia tudo. Nascia Adelaide, uma das personagens que Eduardo Madeira interpreta nesta terça-feira de gravações em que recebe o DN.

Esperam-no pouco mais de 30 minutos aos cuidados de Magali Santana (maquilhagem), Inês Borges (guarda-roupa) para dar vida ao 'boneco', como ele lhe chama. Entra no camarim um homem de 49 anos e sai uma mulher com vestido coleante, cabelos louros e uma certeza: "Não vejo a TVI".

Desde a estreia a 29 de março, foram apresentadas outras sete personagens: Tó Russo, o taxista que se crê motorista pessoal de Cristina Ferreira e que transporta convidados; Augusto, o trolha que faz arranjos na "casa"; Piedade, a empregada que come mais do que limpa; Bumba na Pipoca, influencer; Palmela Anderson, a nadadora-salvadora; Roy, o cantor romântico; e Simões, o vizinho que aparece em pijama: "Quem é que me diz a mim que eu durmo?".

"Estava a negociar um programa novo para a RTP, de comédia histórica, ia ser um processo longo, quando aparece o convite."

Foi Cristina Ferreira, diretora de conteúdos e entretenimento da TVI, que convidou Eduardo Madeira. "Nunca tínhamos trabalhado juntos. Nunca trabalhei na TVI". Os últimos anos ligavam-no ao canal público com quem pensava continuar a trabalhar. "Estava a negociar um programa novo para a RTP, de comédia histórica, ia ser um processo longo, quando aparece o convite. A Cristina falou comigo, disse-me: "Faz o que sabes fazer". Ao DN, a apresentadora diz que Eduardo Madeira "é ótimo ator". "Há muito tempo que gosto dele".

"Tive de pensar um bocado, não foi uma coisa que tivesse que ver com dinheiros", explica Madeira. O 'sim' teve que ver também com a maneira como lhe foi feito o convite: "A Cristina falou comigo como deve ser. Com respeito. Fez-me sentir importante para o projeto dela", diz. "Senti que estava na altura de um desafio grande, de vir para um canal como a TVI. É como fazer um negócio em África: ou enriqueces ou tens de fugir!". Por outro lado, reflete, "muitos passos foram dados para que pudesse chegar aqui e estar preparado para o desafio". "Se fosse mais cedo não estava neste ponto de saber o que quero fazer e como quero fazer", afirma.

Há mais de 20 anos que Eduardo Madeira faz televisão. Ia ser "um desastre de advogado" quando João Quadros (autor de "Tubo de Ensaio", TSF) apresentou textos dele nas Produções Fictícias. "Qual não foi o meu espanto quando disseram que iam fazer o meu sketch". Era o famoso "Onde é que estava no 25 de abril?" interpretado por Herman José. Ou, como diz Madeira, "pelo meu ídolo de sempre". Depois disso, criou os Cebola Mol, quis experimentar o stand up e ia representando, como no "Homem que Mordeu o Cão". Ri-se: "Fui apanhado, afinal já tinha trabalhado para a TVI".

Passar para a frente do ecrã, com personagens "com consistência" aconteceu n'"Os Contemporâneos" (RTP1), em 2008. "Foi o Nuno Lopes, que fazia a direção de atores, que começou a dizer 'este papel tem de ser feito pelo Madeira". Seguiram-se "Estado de Graça", "Donos Disto Tudo", "Patrulha da Noite". "Gosto muito daquilo que faço, divirto-me muito. Não faço parte do cliché do artista que sofre", diz.

Da peruca para o bigode

Entregam-lhe um saco com limões e está pronto para a primeira gravação da tarde naquela que um dia foi a casa do Big Brother, na Venda do Pinheiro. Não há texto escrito, sabe que vai estar à conversa com a apresentadora e dois dos convidados antes aparecer para jantar e dizer mal da TVI. "Festa é Festa? Não gosto, é para rir. É às 21:35? Tenho PT a essa hora, não posso". (Eduardo Madeira faz uma participação na novela).

Os 'bonecos' saem da sua cabeça ou de pedidos de Cristina Ferreira. Além das oito personagens que já passam regularmente pelo programa, nós últimos tempos, trabalha outra "que até foi a Cristina que me pediu": "Uma velha aqui do campo que vem cá a casa e que diz à Cristina que ela está muito magrinha e que quer que ela coma um pão com chouriço".

De volta ao camarim, onde há um charriot carregado com as indumentárias dos 'bonecos' (labor da figurinista Tina Costa), sai a peruca de Adelaide, entra o bigode de Tó Russo. Está tudo a postos para gravar uma cena no Mercedes preto e verde que está no parque de estacionamento quando a diretora de conteúdos Rita Rebelo anuncia mudanças de planos. "É assim. As coisas podem mudar". Madeira adapta-se.

Ser "flexível" é um dos segredos destas personagens, segundo Madeira. "Tem de ser orgânico", diz, lembrando a frase atribuída a Churchill: "Demoro imenso tempo a preparar os meus discursos de improviso". Cada boneco tem o seu bordão e a sua história. Tó Russo é um ex-jogador do Cova da Piedade que foi casado seis vezes e era dono do snack-bar A Baliza, em Cacilhas. Roy, o cantor romântico, descende de Roberto Leal, Rui Bandeira, Toy ou Roberto Carlos. Não há filhos preferidos, mas Eduardo admite que Roy o faz "perder de riso".

"Esquizofrenia benigna"

Este vai-e-vem de personagens é uma "esquizofrenia benigna". "Não tem consequências nefastas", diz, com a sua gargalhada única. São personagens-tipo que vão beber inspiração a múltiplas fontes. Adelaide lembra Mrs. Doubtfire (Robin Williams), Maximiana (Herman José) e os falsetes de Terry Gilliam (Monty Python), veio das redes sociais, mas podia ser a vida real.

"Ouço o que as pessoas estão a dizer mas a minha atenção está nos tiques. Estou a absorver tudo", diz. Relata o fascínio por um vizinho cujas histórias "são acompanhadas com sonoplastia". Intrigavam-no os diálogos entre eles, até que descobriu o que o distinguia. "O gajo ia de mota...vrrrr.... vrr.... bebe uma cerveja, glu, glu...", imita. "Pego numa coisa pequena e amplio. É um trabalho que estou constantemente a fazer. A pessoa não percebe, os outros é que vão reconhecer". E quem não gosta? "Há sempre quem não ache piada, porque há gente que não acha piada a nada".

Voltamos ao "sim" à TVI. "O trabalho em grupo é muito giro mas chega uma altura em que precisamos de estar sozinhos. Pensei, vamos lá, vamos fazer uma emancipação. Fazia sentido". A adesão do público nota-se, aceita. Se na RTP falava para um nicho de amantes de comédia, aqui o público é vasto. "É como aquele jogador que vem do clube pequeno e, de repente, num clube grande, todo o mundo sabe quem ele é".

lina.santos@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG