Do Bairro Alto às Torres de Lisboa, com passagem de 76 anos no Marquês, levando atrás fantasmas de Eduardo Coelho, Eça, António Ferro, Stuart e Saramago

Fundado no reinado de D. Luís, o DN celebra a 29 de dezembro 152 anos. Hoje estreia-se nas Torres de Lisboa, a sua terceira casa depois da sede na Rua dos Calafates, atual Rua do Diário de Notícias, e do edifício no 266 da Avenida da Liberdade. Em cada uma das anteriores, esteve 76 anos, sempre a testemunhar as mudanças em Portugal e no mundo e a deixar a sua marca no país.

Acredite-se ou não em fantasmas, eles existem na redação do Diário de Notícias. Alguns, como Eduardo Coelho, Eça de Queirós ou António Ferro, passaram pela Rua dos Calafates, no Bairro Alto, onde o jornal nasceu em 1864; outros, como Augusto de Castro e Stuart Carvalhais, conheceram a primeira sede e a segunda, inaugurada em 1940 na Avenida da Liberdade; outros ainda, como José Saramago, destacaram-se já a trabalhar no edifício que até ontem alojava a redação e onde esta edição que o leitor tem nas mãos foi ainda escrita antes da mudança para as Torres de Lisboa, a terceira casa do DN.

Lembremos António Ferro e José Saramago, dois jornalistas que não podiam estar mais nos antípodas políticos um do outro. Os seus fantasmas, que decerto já se mudaram para as Torres de Lisboa, evocam momentos marcantes do jornal, seja quando Ferro chegou à redação no Bairro Alto eufórico com a entrevista que tinha arrancado a Hitler (estávamos em 1930, vésperas do triunfo do nazismo na Alemanha) seja quando Saramago, antigo diretor adjunto, foi aplaudido de pé quando já Nobel regressou à Avenida da Liberdade para ser homenageado pelos camaradas de profissão (aconteceu em 1998, dias depois do Prémio da Literatura). O primeiro ficou associado a Salazar por ter ajudado mais tarde à construção da imagem do Estado Novo, o segundo não se libertará da fama de ter tentado no período revolucionário pós-25 de Abril impor a batuta comunista ao jornal, mas até nisso ajudam a explicar o que é o DN, tão influente na sociedade portuguesa que neste século e meio nenhuma ideologia deixou de procurar influenciá-lo. Também se diga que neste tempo todo não faltaram os momentos em que o jornal ergueu a voz pela liberdade, como quando em julho de 1867 deu espaço a Victor Hugo para elogiar a abolição da pena de morte ou quando em fevereiro de 1927 apoiou a revolta contra a nascente ditadura e acabou ocupado pelos homens do regime.

Redação atual e fantasmas do passado, o certo é que celebraremos todos a 29 de dezembro os 152 anos do DN na tal terceira casa. Para trás ficará o edifício no 266 da Avenida da Liberdade, vendido para habitação e serviços mas que manterá a fachada, incluindo as letras góticas a dizer Diário de Notícias. Qualquer intervenção terá de respeitar o projeto de Pardal Monteiro, o arquiteto a quem Augusto de Castro, o mais duradouro dos diretores do jornal, encomendou uma sede à altura de um diário que não só era o mais lido do país como se destacava pelas iniciativas populares, desde organizar a primeira Volta a Portugal em bicicleta até ao chamado Natal dos Hospitais (posterior, mas também ideia do consulado de Augusto de Castro e que dura até hoje, em parceria com a RTP). Além de prémio Valmor, o edifício Diário de Notícias (inspirador de uma ilustração magnífica de Stuart) destaca-se pelos frescos de Almada Negreiros, autor do mapa-múndi no átrio.

Foram 76 anos na Avenida da Liberdade, ali mesmo junto ao Marquês (estátua que o DN também ajudou a construir), como foram 76 anos no Bairro Alto, onde hoje existe em vez da Rua dos Calafates uma Rua do Diário de Notícias, bela homenagem aos dois fundadores, Tomás Quintino Antunes e Eduardo Coelho, que foi o primeiro diretor.

Recordemos um pouco Eduardo Coelho, órfão de pai aos 13 anos e que a mãe mandou de Coimbra para Lisboa para se fazer homem. Foi marçano e depois tipógrafo. Homem de cultura mesmo sem ter frequentado a universidade, inspirou-se no que era publicado na época em Espanha e em França e criou o primeiro jornal moderno português, "acessível a todas as bolsas e compreensível a todas as inteligências". Ao contrário dos outros jornais da época, o DN privilegiava as notícias em vez dos artigos panfletários. E, como contava com anúncios, era muito mais barato do que a concorrência. Eduardo Coelho inventou ainda a figura do ardina, que a mitologia popular associa a miúdos mas era o emprego de muitos adultos.

Foi seguindo estas regras básicas de "acessível" e "compreensível" expressas no primeiro editorial que o DN, fundado no reinado de D. Luís, atravessou três séculos e vários regimes, como testemunham as primeiras páginas que noticiam o regicídio de 1908, a implantação da República em 1910, o triunfo do golpe militar de 1926, a bomba atómica em 1945, a chegada do homem à Lua em 1969, a morte de Salazar em 1970, o 25 de Abril de 1974, os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 ou, há semanas, a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU.

Nas Torres de Lisboa o DN está com as outras marcas do Global Media Group, desde a TSF à Notícias Magazine e ao Dinheiro Vivo, passando pela Evasões, Volta ao Mundo e Delas e ainda as delegações em Lisboa do Jornal de Notícias e de O Jogo (ambos os jornais sediados no Porto). São seis andares onde se continuará a fazer do melhor jornalismo que há em Portugal, em papel e online. E contamos com a ajuda dos tais fantasmas: que maior inspiração pode ter um jornalista do que pensar que trabalha no jornal que enviou um jovem Eça de Queirós em 1869 fazer a reportagem da inauguração do canal de Suez: "A baía de Port Said estava triunfante. Era o primeiro dia das festas. Estavam ali as esquadras francesas do Levante, a esquadra italiana, os navios suecos, holandeses, alemães e russos, os yachts dos príncipes, os vapores egípcios, a frota do paxá, as fragatas espanholas, a Aigle, com a imperatriz, o Mamoudeb com o quediva, e navios com todas as amostras de realeza, desde o imperador cristianíssimo Francisco José até ao caide árabe Abd el-Kader. As salvas faziam o ar sonoro. Em todos os navios, empavesados e cheios de pavilhões, a marinhagem, perfilada nas vergas, saudava com vastos urras." Que bem que escrevia este nosso querido fantasma.

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