De princesa prometida a primeira-dama implacável

Chega hoje aos 50 anos a atriz que fechou o círculo: estreou-se numa série de TV, em 1984, e conseguiu o seu primeiro grande prémio noutra, três décadas depois

A pergunta é pertinente: sem um romance - intermitente - de mais de 20 anos com Sean Penn, a vida e a carreira de Robin Virginia Gayle Wright (ex-Penn) teriam seguido os mesmos cursos e percorrido as mesmas escalas? Os mais práticos apresentarão a resposta categórica: nem pensar. Desde logo, porque os filhos da atriz poderiam ter nascido noutras ocasiões, evitando que a mãe se visse forçada a renunciar a dois papéis que contribuiriam decisivamente para o seu peso de bilheteira: Robin estava grávida da filha, Dylan Frances, quando foi rodado Robin Hood: Príncipe dos Ladrões (1991), e deixou a personagem de Lady Marian para Mary Elizabeth Mastrantonio; dois anos depois, a história repetiu-se porque Robin estava novamente de esperanças, desta vez do filho Hopper Jack (cujo nome homenageou dois grandes amigos do pai, Dennis Hopper e Jack Nicholson), com a atriz a ceder o papel de mulher de Tom Cruise a Jeanne Tripplehorne, no muito bem-sucedido A Firma.

Robin, que chega hoje aos 50 anos, foi dirigida por Penn, o seu segundo marido, em duas ocasiões - Acerto Final, de 1995, e A Promessa, de 2001. Além disso, partilhou a ficha artística com Sean por quatro vezes: em Anjos Caídos (1990), de Phil Joanou, cenário em que se conheceram e em que iniciaram o longo e turbulento romance, em Os Excessos do Amor (1997), de Erin Dignam, em A Mulher das Nossas Vidas (1997), de Nick Cassavetes, e em Os Vícios da Cidade (1998), de Anthony Drazan.
Mais agitada do que este currículo comum só mesmo a vida real, porque, entre 1990 e 2010, com filhos e um casamento pelo meio (em 1996), as separações temporárias e os pedidos de divórcio entretanto retirados foram mais do que muitos. Há meia dúzia de anos, os caminhos divergiram de vez, sem que Robin viesse alegar publicamente os mesmos excessos que a sua "antecessora", Madonna, apontou a Sean: os ciúmes constantes, a imprevisibilidade dos seus comportamentos, o pavio curto que deu azo a agressões a terceiros, com destaque óbvio para os paparazzi.

O gosto pelo intenso

A história de Robin começa muito antes do encontro com Sean, sobretudo se pensarmos que, aos 14 anos, ela aproveitava bem as dádivas da Natureza para trabalhar como modelo, algo que lhe permitiu, por exemplo, viajar profissionalmente até Paris e Tóquio quando ainda era uma teenager. Tornou-se notada assim que chegou à TV, conseguindo três nomeações para o Emmy pela série Santa Barbara. O reconhecimento no cinema também chegou cedo, quando, logo à segunda incursão, foi parar às mãos de Rob Reiner, que lhe deu vantagem sobre Meg Ryan, Uma Thurman e Courtney Cox na luta pelo papel principal de A Princesa Prometida (1987). A sua beleza e a sua presença eram de tal forma intensas que o seu parceiro, Cary Elwes, confessou ter muita dificuldade em concentrar-se em dizer as suas falas.

Em Anjos Caídos, já referido, deu início a uma tendência que se manteve em muitas das suas personagens: ela é sombria, enigmática, imprevisível e consegue fazer da voz uma "arma de arremesso", tornando-a cortante e glacial. Filmou com Barry Levinson em 1992 (Toys - Fabricantes de Sonhos) e em 2008 (Pânico em Hollywood). Em 1994, foi a vez de Robert Zemeckis a aproveitar para personificar a indomável namorada de Forrest Gump, algo que Jodie Foster, Nicole Kidman e Demi Moore não quiseram fazer, arrependendo-se depois do êxito do filme. Também Zemeckis manteria a loura texana sob vigilância, convocando-a para o peregrino Beowulf (2007), que parte das figuras e das caras reais para a animação, e para Um Conto de Natal (2009). Entre os "notáveis", Robin viria ainda a participar em filmes dirigidos por M. Night Shyamalan (O Protegido, 2000), Anthony Minghella (Assalto e Intromissão, 2006), Kevin Macdonald (Ligações Perigosas, 2009) e David Fincher (Millennium 1: Os Homens Que Odeiam as Mulheres, 2011). Ainda assim, muitos são os que advogam que a sua melhor presença na 7.ª arte fica a dever-se a Robert Redford, com quem contracenou fugazmente em O Último Castelo - o veterano ator e realizador chamou-a para protagonista de A Conspiradora (2010), dispondo-se até a retardar o início das filmagens para conseguir a disponibilidade da atriz. Aí, Robin é Mary Suratt, alegadamente envolvida na conspiração que matou o presidente Abraham Lincoln.

Sem Óscar mas com Ouro

Apesar de participar em várias produções que andaram envolvidas na corrida ao Óscar - algumas já mencionadas e ainda Moneyball - Jogada de Risco (2011) -, Robin nunca conseguiu qualquer nomeação para os prémios mais desejados no cinema. Mas deu a volta por cima: regressou à TV, a que já ficara a dever a notável minissérie Empire Falls (2004), e agarrou a presença temível e avassaladora de Carrie Under-wood, a pouco recomendável esposa de Francis Underwood, a quem ajuda a galgar terreno entre um lugar na Câmara dos Representantes e a Casa Branca. Tudo isto se passa em House of Cards, de que Robin já realizou uma meia dúzia de episódios, que acabou por lhe render um justificadíssimo Globo de Ouro, logo no ano de estreia.

Dona de dois poços de petróleo, ou não fosse uma nativa de Dallas, Texas, Robin parece ter menos sorte no desempenho sentimental, após ter desfeito o casamento anunciado com o ator Ben Foster. Para compensar, o percurso profissional parece valer-lhe, num futuro próximo, um enorme desafio. Que não é sequer Mulher Maravilha, de Patty Jenkins, com estreia marcada para junho de 2017, mas sim a sequela do genial Blade Runner: Perigo Iminente (1982), que junta de novo Harrison Ford, no papel principal, e Ridley Scott, que passa de realizador a produtor e coargumentista, cedendo a direção a Denis Villeneuve. O único senão está mesmo na data apontada para que o filme chegue às salas: janeiro de 2018. Mas, se formos tão pacientes e determinados como Robin Wright, lá estaremos para a desforra.

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