Cinco razões que fazem de "Black Mirror" assustadora... e viciante

A série britânica, disponível na plataforma Netflix, aborda temas como a dependência das novas tecnologias, os abusos de poder e a alienação. Não é difícil perceber a pertinência

É um universo parecido com os de longas-metragens como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrik, Videodrome, de David Cronenberg ou a saga de culto Cubo, de Vincenzo Natali: um futuro distópico, governado pelas máquinas, onde a violência e a ausência de futuro são omnipresentes. E tem seduzido milhares. Falamos de Black Mirror, a produção britânica que está a caminho de tornar-se uma série de culto.

Transmitida originalmente pelo Channel 4 entre 2011 e 2014 (duas temporadas com três episódios cada e ainda um especial de Natal), a série ganhou nova vida este ano, quando a Netflix encomendou seis episódios, que já estão disponíveis na plataforma de streaming. Nas redes sociais, Black Mirror está a ganhar uma dimensão de fenómeno de culto, com memes humorísticos sobre o constrangimento e medo que cada episódio causa.

Porque está esta série a deixar os telespectadores em suspenso?

1 - A ação passa-se num futuro próximo e que parece perigosamente possível. Em Black Mirror há tecnologias - como o controlo da memória através de uma aplicação ou a criação de clones de entes queridos falecidos - que não existem e provavelmente não vão existir nos próximos anos, mas que ao mesmo tempo jogam com os nosso medos sobre o que o futuro próximo nos reserva. A utilização de telemóveis e tablets para controlar o destino de outra pessoa (como num reality show) ou das redes sociais para destruir a identidade de alguém soam perigosamente possíveis.

2 - Não há finais felizes. Em Black Mirror, ao contrário de muita ficção que lemos e vemos, não há finais felizes. Nenhuma personagem consegue, mesmo que queira, escolher o seu próprio destino. Este está condicionado pela tecnologia, pela opinião de terceiros, pela inserção num mundo inóspito, violento, competitivo.

3 - Ninguém está a salvo. Computadores pessoais alvos de ataques de hackers, mortes provocadas por terroristas, ameaças omnipresentes, isolamento e enfraquecimento das relações interpessoais. Estes temas percorrem as três temporadas da trama escrita por Charlie Brooker. Cada protagonista é uma presa, um alvo a abater e, por muito que tentem (como Bing Madsen que, no segundo episódio da primeira temporada, tenta salvar a sua amada, capturada pela máquina diabólica de um talent show à escala mundial), nunca conseguem bater o sistema criado por uma entidade invisível. Ao melhor estilo do Big Brother de George Orwell.

4 - A realidade é mais estranha do que a ficção. A dependência das personagens de Black Mirror dos media, das redes sociais, de uma vida em que o espetáculo faz parte do dia-a-dia é constante. E as semelhanças da ficção com a realidade - como aconteceu com a última campanha eleitoral nos Estados Unidos - são evidentes. Tanto que, na página oficial de Twitter, os criadores da série deixaram esta mensagem, aquando a eleição de Donald Trump: "isto não é um episódio. Isto não é marketing. Isto é a realidade".

5 - Black Mirror é um aviso. Sim, a série tem custado noites em branco a muitos telespectadores, aterrorizado outros tantos em relação ao progressivo controlo que as tecnologias têm sobre as nossas vidas. Mas esta série, de caráter satírico, pintalgada de humor negro, serve também de aviso a um futuro que se concretizará caso, no mundo real, exista a mesma inação, desesperança e egocentrismo das personagens da ficção.

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