Reclusos do Linhó vão descobrir linguagem da dança através do "Corpo em Cadeia"

Doze reclusos da prisão do Linhó, em Sintra, vão aprender a trabalhar a consciência do corpo e o movimento, através da linguagem da dança, no âmbito do projeto "Corpo em Cadeia", promovido pela Companhia Olga Roriz.

O projeto é apoiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do programa PARTIS - Práticas Artísticas para a Inclusão Social, e entrará todas as semanas no estabelecimento prisional, a partir da próxima, durante três anos.

Em declarações à agência Lusa, a coordenadora do projeto, Catarina Câmara, explicou que o objetivo é "proporcionar um espaço de segurança" aos reclusos, para que "possam encontrar outras dimensões de si próprios, e imaginar uma outra realidade, mais positiva".

A bailarina e professora de dança ressalvou que a equipa que vai trabalhar com os 12 reclusos - com idades entre os 18 e os 30 anos - quer começar "com pequenas ambições".

"Ganhar uma nova confiança, e acreditar em abrir novas expectativas dentro de si próprios", é o que a equipa deseja deste projeto em relação ao grupo.

Mas também considera que o trabalho "vai ser uma descoberta" para os reclusos e para a própria equipa, que partirá sem preconceitos: "Não queremos saber nada dos crimes que cometeram. Esta proposta é de diálogo, o que nos dará a todos uma grande liberdade".

Para já, contam com doze reclusos, mas é possível que se integrem mais. Houve mais de 30 candidatos, mas, por razões de moldura penal, só alguns puderam ser selecionados.

Catarina Câmara, bailarina e professora da escola de dança da Companhia Olga Roriz, contou que o projeto passará por três momentos. Começa com o contacto inicial para criar dinâmicas de grupo, o trabalho com o corpo, as técnicas de dança, e finalizará com espetáculos no Estabelecimento Prisional do Linhó e no Teatro Experimental de Cascais, em 2020 e 2021.

A ideia central é "pensar num projeto sustentável", com trabalho semanal, e ir enraizando conceitos que são raros nas prisões, e até na sociedade no seu todo: "O que é forte e rápido é o mais valorizado, e não se valoriza devidamente a leveza e a lentidão".

São estas metáforas que a professora quer introduzir gradualmente na vivência do corpo dos reclusos, para que tenham a "consciência dos gestos suaves".

"Essa é a minha grande ambição", vincou a coordenadora, sobre um projeto que pretende articular a dança, como é praticada na Companhia Olga Roriz, e a terapia Gestalt.

No seu âmago, deseja criar - dentro de um espaço restrito e com o significado que a prisão tem - uma vivência de práticas artísticas e técnicas que "terão impacto do ponto de vista pessoal e social".

A terapia Gestalt é um modelo psicoterapêutico desenvolvido pelos teóricos Fritz Perls, Laura Perls e Paul Goodman, nas décadas de 1940 e 1950, com ênfase na responsabilidade de si mesmo, na experiência individual do momento presente, na autorregulação e ajustamento criativos, tendo em conta o meio ambiente e o contexto social.

Outra ambição do projeto é registar todos os passos do trabalho para realizar um documentário a estrear no Festival Temps D'Images, em Lisboa, e também a criação de um livro.

Catarina Câmara acredita que estas práticas ajudam à integração social, mesmo lidando com reclusos que estão a cumprir penas elevadas, iguais ou superiores a seis anos.

"Este tipo de abordagem já tem sido realizado em prisões de mulheres, mas não de homens, que são um grupo menos beneficiado" em projetos artísticos, do que a população feminina.

Contou que o processo envolve "não só treino físico, mas também da imaginação", introduzindo a psicoterapia e atividades de dança teatro, e decorrerá com a colaboração da equipa técnica do Linhó.

Os parceiros do projeto são a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, a Associação Portuguesa Gestalt, a Escola Informal de Fotografia da Susana Paiva, o Teatro Experimental de Cascais, a Dupla Cena e a Escola Superior de Dança.

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