Publicado conjunto de ensaios inéditos em Portugal do Nobel polaco Czeslaw Milosz

Lisboa, 18 abr 2019 (Lusa) - Um volume que reúne onze ensaios inéditos em Portugal do escritor polaco Czeslaw Milosz, Prémio Nobel da Literatura, abarcando um arco temporal de mais de 35 anos, foi editado com o título "A minha intenção".

Sob a forma de reminiscências autobiográficas ou de pequenas narrativas históricas de teor filosófico, estão patentes nesta seleção de ensaios os grandes temas do escritor: o significado da História, a existência do mal, a transitoriedade da vida, e a ascensão global e generalizada da visão científica do mundo em detrimento da imaginação religiosa.

Publicado este mês, em Portugal, pela Cavalo de Ferro, "A minha intenção" colige uma amostra da produção ensaística daquele que é tido como um dos maiores poetas e escritores do século XX, distinguido com vários prémios literários, entre os quais o Prémio Internacional de Literatura Neustadt, em 1978, e, dois anos mais tarde, o Prémio Nobel da Literatura.

Estes textos percorrem uma parte substancial da bibliografia do escritor, desde os anos cinquenta até praticamente à sua morte, revelando a enorme diversidade de temas e de géneros de que o autor se serviu para descrever a sua particular visão do mundo.

Desde a natureza do que é ser europeu até reflexões sobre religião, filosofia e política, Czeslaw Milosz imprime em cada linha destes ensaios a sua análise incisiva e pessoal, deixando transparecer a evolução do seu estilo e da sua personalidade.

Uma das suas obras mais conhecidas é "A mente aprisionada", também editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, uma análise do regime comunista polaco, hoje considerado um clássico e uma obra fundamental no estudo do totalitarismo, mas polémica à data da sua publicação, em 1953.

Contudo, a produção ensaística não se cinge a "projetos cuidadosamente construídos na sua estrutura e coerência temática", refere uma nota à edição de "A minha intenção".

Czeslaw Milosz privilegiou também formas mais livres e breves, sobretudo nas obras mais tardias, tendo cultivado géneros como o retrato biográfico, o registo diarístico, a reminiscência autobiográfica, a crítica literária ou o aforismo.

Estes estilos estão presentes nos ensaios que compõem "A minha intenção" e que percorrem a linha temporal que vai dos seus primeiros escritos até aos mais recentes, como "A Felicidade", de 1998, no qual o autor reflete sobre a felicidade -- e a sua felicidade -- recuando à infância.

Durante esse período, o autor viveu uma situação de exílio, que o levou a passar do regime comunista da Polónia ao regime capitalista dos Estados Unidos e que o levou a afastar-se do seu "publico-leitor natural, o único capaz de entender completamente a subtileza e complexidade das suas imagens", destaca a nota introdutória do livro.

Este dilema do autor está patente no ensaio "Notas sobre o exílio", que data de 1976.

Desta seleção de textos, constam também esboços autobiográficos ou biográficos de pessoas representativas na vida de Milosz e que retratam acontecimentos históricos que o escritor testemunhou, como é o caso de "Viagem ao Ocidente" (1959), ensaio que abre o livro, e "A abadessa" (1990).

Por outro lado, textos como "A importância de Simone Weil" (1960), "Chestov, ou a pureza do desespero" (1977), "Ensaio no qual o autor confessa que, à falta de melhor, alinha pelo Homem" (1969) representam o diálogo do escritor com ideias e autores com os quais partilha os mesmos valores, nomeadamente teológicos.

"Contra a poesia incompreensível" (1990) é um ensaio que evidencia a posição de Czeslaw Milosz acerca das obrigações da poesia.

Com esta edição de "A minha intenção", pretendeu-se dar uma "amostra significativa da enorme variedade de géneros e estilos que compõem a vasta obra não ficcional" do autor, explica a nota introdutória à obra.

Czeslaw Milosz nasceu em 1911 na Lituânia, ainda sob o império do Czar da Rússia, mas mudou-se com a família para Vilna, na Polónia.

Encontrava-se em Varsóvia durante a ocupação nazi da cidade, em 1939, tendo publicado a sua poesia em círculos literários clandestinos.

Milosz sobreviveu à Segunda Guerra Mundial e testemunhou a devastação da cidade e do seu país.

Em 1951, dissidente do novo regime comunista polaco, obteve exílio político em Paris, remontando a este período a publicação daqueles que são considerados dois dos mais notáveis e influentes volumes de ensaios da sua vasta obra: "A mente aprisionada" e "Native Realm" (1958).

Em 1969 emigrou para os Estados Unidos, onde, um ano depois, aceitou o convite para lecionar em Berkeley, na Califórnia.

Na atribuição do Prémio Nobel da Literatura, a academia destacou a "intransigente clarividência com que expôs a vulnerável condição do homem num mundo de graves conflitos".

Morreu em Cracóvia, em 2004, mas durante a sua existência "experienciou todos os infernos que o século XX foi capaz de produzir, mas também, por vezes, viveu o paraíso. E, como Dante, capturou-os para nós", escreveu o jornal The Sunday Times.

Deste autor foram ainda publicados em Portugal "A tomada do poder", pela D. Quixote, em 1987, e "Versos polacos", numa edição da Faculdade de Letras, de 1985.

Exclusivos

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Os deuses das moscas

Com a idade, tendemos a olhar para o passado em jeito de balanço; mas, curiosamente, arrependemo-nos sobretudo do que não fizemos nem vamos já a tempo de fazer. Cá em casa, tentamos, mesmo assim, combater o vazio mostrando um ao outro o que foi a nossa vida antes de estarmos juntos e revisitando os lugares que nos marcaram. Já fomos, por exemplo, a Macieira de Cambra em busca de uma rapariga com quem o Manel dançara um Verão inteiro (e encontrámo-la, mas era tudo menos uma rapariga); e, mais recentemente, por causa de um casamento no Gerês, fizemos um desvio para eu ir ver o hotel das termas onde ele passava férias com os avós quando era adolescente. Ainda hoje o Manel me fala com saudade daqueles julhos pachorrentos, entre passeios ao rio Homem e jogos de cartas numa varanda larga onde as senhoras inventavam napperons e mexericos, enquanto os maridos, de barrigas fartas de tripas e francesinhas no ano inteiro, tratavam dos intestinos com as águas milagrosas de Caldelas. Nas redondezas, havia, ao que parece, uma imensidão de campos; e, por causa das vacas que ali pastavam, os hóspedes não conseguiam dar descanso aos mata-moscas, ameaçados pelas ferradelas das danadas que, não bastando zumbirem irritantemente, ainda tinham o hábito de pousar onde se sabe.