Antiga capela em Faro mostra a história do primeiro livro impresso em Portugal

Uma antiga capela do Paço Episcopal, no centro histórico de Faro, vai abrir renovada no sábado como um núcleo museológico que evoca a edição do Pentateuco, em 1487, o primeiro livro impresso em Portugal.

A capela, que funcionou como tal até 1913, altura em que foi ocupada por um ginásio militar, após a implantação da República, foi adaptada para albergar o Núcleo da Imprensa de Faro, onde vai estar exposta uma réplica do "Pentateuco", que congrega os cinco primeiros livros da Bíblia, impresso em Faro por Samuel Gacon, momento que marca o início da imprensa no país.

Em declarações à Lusa, um dos promotores do projeto adianta que o núcleo central da exposição será constituído pela edição 'fac símile' do "Pentateuco" - lançada em 2017 para assinalar os 530 anos da edição do original impresso -, e o prelo de Gutenberg, equipamento similar ao utilizado pelo inventor da Imprensa, reproduzido pelo Museu de Gutenberg na Alemanha.

O projeto reúne quatro parceiros: a Diocese do Algarve, que cedeu o espaço da antiga capela, a editora Sul, Sol e Sal, que editou a réplica do "Pentateuco" que agora vai ser musealizada, a Fundação Portuguesa das Comunicações, que cede o prelo de Gutenberg, e o Círculo Teixeira Gomes.

De acordo com Paulo Neves, presidente do Círculo Teixeira Gomes, a exposição inclui ainda um "scriptorium medieval", cedido pela Santa Casa da Misericórdia, que é "único em Portugal" e que vai demonstrar as técnicas e os artefactos que eram usados antes da invenção da imprensa, pelos monges copistas, para a repodução de textos.

Na ocasião, vai ainda ser lançada uma obra de quatro volumes, da autoria de José Pacheco, com o título "As artes gráficas e a Imprensa em Portugal - dos séculos XV a XIX".

O único exemplar conhecido do "Pentateuco", que desapareceu, fazia parte da biblioteca do Bispo do Algarve em 1596, sendo este, segundo a organização da exposição, "o regresso possível a casa" da obra, neste caso, uma réplica.

O núcleo expositivo vai também contar, através de textos e imagens organizados de acordo com uma linha cronológica, a história da escrita e da imprensa desde os seus primórdios até à atualidade.

Pretende-se, agora, mostrar um pouco mais sobre a história da escrita e da imprensa, com os artefactos, imagens e recriação de momentos, que pretendem relembrar a evolução de alguns meios, que o Homem foi inventando e usando, para a difusão do conhecimento desde os primórdios.

A inauguração do Núcleo da Imprensa contará com a presença do Coordenador Nacional da Comissão do Ano Europeu para o Património Cultural, Guilherme d'Oliveira Martins.

A Bíblia de Gutenberg, também conhecida como Bíblia de 42 linhas, foi o primeiro livro impresso no mundo, em 1455, por Gutenberg, alemão a quem se atribui a invenção da imprensa.

Em Faro, 32 anos depois, viria a ser impresso, de acordo com a mesma técnica, que usa tipos móveis reutilizáveis, o "Pentateuco", pelo editor judeu Samuel Gacon, operador da primeira oficina tipográfica em solo português.

Numa primeira fase, a entrada no Núcleo da Imprensa de Faro vai ser gratuita, mas no futuro prevê-se que seja feita mediante uma contribuição.

A abertura do núcleo, situado junto à Câmara Municipal, está prevista para as 15:30 de sábado.

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