Sesimbra faz homenagem aos salvadores da fragata Numancia

A Câmara de Sesimbra vai recordar o dia 16 de dezembro de 1916, quando uma tripulação de 32 pessoas foi salva da morte por causa do temporal que se abateu sobre a costa. Descendente de sobrevivente estará amanhã no evento.

A Câmara de Sesimbra vai comemorar, amanhã, às 11.00 horas, o resgate de toda a tripulação da fragata Numancia, um dos navios mais emblemáticos da Armada espanhola, vítima de uma terrível tempestade e naufragada a pouca distância da praia daquela vila piscatória no dia 16 de dezembro de 1916. A cerimónia terá a presença de autoridades de Espanha e membros da comunidade espanhola em Portugal.

A fragata Numancia tinha chegado no dia 15 de dezembro de 1916 a essas praias, que agora nos deslumbram, para se resguardar do temporal de Noroeste. Dois rebocadores levavam a fragata desde Cádis até Bilbau, para que as suas chapas de ferro acabassem nos altos fornos. A bordo iam 32 tripulantes.

A Numancia tinha sido lançada à água em dezembro de 1864, menos de 60 anos depois de a frota espanhola se perder em Trafalgar, e chegou como promessa de juventude e renovação para a Armada espanhola. Tinha nascido francesa, livre de atilhos, moderna, bem dotada com uma artilharia impressionante e tinha uma couraça de ferro que a protegia de qualquer golpe. Era o futuro.

Quando ficou pronta e apetrechada zarpou de Cartagena. A sua primeira missão sob o comando do contra-almirante Méndez Núñez levou-a até ao Pacífico, onde, juntamente com outras unidades, participou nos combates fratricidas com as novas repúblicas americanas.

Depois, regressou a Espanha cruzando o Pacífico com outros navios da sua esquadra, fez escala nas Filipinas e, pela rota do Cabo da Boa Esperança, como antes o fizera a expedição de Magalhães e Elcano, regressou a Cádis a 20 de setembro de 1867, com a honra de ter sido o primeiro navio couraçado a dar a volta ao mundo.

Romance e revolução cantonal

Benito Pérez Galdós, aproveitou a popularidade da fragata, numa Espanha ávida de motivos de orgulho, e inspirou-se nessa gesta para escrever um excelente romance: A volta ao mundo na Numancia. Depois dessa viagem de quase três anos, a ainda jovem fragata foi reparada e melhorada, ainda que os seus dias bélicos tenham ficado para trás. Como navio representativo, trouxe de Itália até Cartagena um novo rei de Espanha, Dom Amadeo de Saboia. A Numancia participou na revolução cantonal. No dia 26 de setembro de 1873, sai de Cartagena e, no dia seguinte, durante mais de cinco horas, bombardeia Alicante.

Quando o movimento cantonal chega ao fim, consegue sair do porto e salvar 500 pessoas de uma morte certa, entre elas os líderes revolucionários. Ganha uma corrida emocionante a outros dois navios que a perseguem e chega sã e salva a Orão. Os seus dias loucos terminam aí. Os anos que se seguem são de representação. Espanha já não tem guerras marítimas. Participa em numerosos atos onde exibe a sua esbelta silhueta e posa para que a pintem os melhores artistas, até que, em 1888, é substituída pelo couraçado Pelayo.

Vendida para sucata

No final, a fragata é vendida para sucata. O seu novo dono necessita de a converter em dinheiro com urgência e arrisca subir, em pleno dezembro, a costa de Portugal, quando os temporais de norte a fazem temível. Encarrega dois robustos rebocadores bascos de a trazerem, arrastada como uma presa porque as suas caldeiras estão fora de serviço. A lógica da meteorologia cumpre-se e naquele 15 de dezembro de 1916 os seus dois guardiães veem-se forçados a fazer escala em Sesimbra para a fundear ao resguardo da costa, à espera de que o temporal amainasse.

Os rebocadores tiveram de abandonar a sua presa para se refugiarem do temporal no porto mais próximo, Setúbal. Livre dos seus guardiães, a Numancia libertou-se com ferocidade das suas cadeias e veio, por fim, encostar-se sobre a praia mais bela deste lado do Atlântico. Os pescadores de Sesimbra tinham criado uma Sociedade de Socorro a Náufragos que, com toda a modéstia, mas com total eficácia, tinha uma equipa humana de primeira água, dirigida por Arrais Estino, um pescador de raça e pai de gerações de marinheiros. Nessa mesma noite viram os foguetes lançados pelos náufragos e deitaram mãos à obra.

Com ondas de mais de quatro metros a rebentarem contra o casco encalhado era impensável um resgate por mar. Ao amanhecer, arriscando a vida, conseguiram enlaçar um cabo de vaivém entre a esplanada de uns armazéns (agora o restaurante Ribamar) e a fragata. Assim pendurados, encharcados, sem nada nos bolsos, mas sãos e salvos, naquela tarde todos os tripulantes puderam descansar finalmente.

Fragata arrancada da praia

Os donos dos despojos não soltaram tão facilmente a presa. Nos dias seguintes o mar acalmou. Regressaram os rebocadores e viajaram para Sesimbra homens importantes para tomar decisões. O senhor cônsul de Espanha para dar conta ao seu governo, um representante da seguradora para se fosse necessário pagar a indemnização, outro do dono da que tinha sido uma orgulhosa fragata para ver como podia fundir o ferro que tinha comprado... e também uma legião de curiosos que posam perante a câmara, muito sérios com as suas gravatas e chapéus elegantes, e um jornalista de Lisboa que escreve uma crónica adequada. Dos molhados e aterrados tripulantes não há memória gráfica, não sabemos onde os alojaram nem como passaram os dias seguintes até recuperarem a sua nova normalidade. Supomos que foram as gentes de Sesimbra quem simpaticamente lhes deu roupa seca e os alimentou, porque os pescadores são hospitaleiros e generosos, e estas virtudes aprendem-se em Portugal desde o berço.

Mas nessa noite voltou a tormenta. Descarregou com tal fúria que arrancou a fragata da praia e estatelou-a contra as rochas. Ali repousa desde então, onde criou milhões de seres vivos nos seus despojos, adorna-se de algas e búzios, é visitada pelos peixes, pelos mergulhadores e até pelas sereias nas noites de lua cheia.

Os tripulantes da Numancia ficaram sem trabalho. Os que tinham uma família ou um modo de ganhar a vida regressaram à sua terra, ainda que pelo menos três tenham permanecido na amável Sesimbra e formado famílias das quais ainda existem descendentes: são os numantinos de Portugal, que ainda guardam a memória daquele acontecimento e pelo menos uma das descendentes, apesar da sua avançada idade, espera-se que assista ao ato de homenagem aos salvadores, que é todo o povo de Sesimbra, encarnado nos seus pescadores. Será descerrada uma placa no lugar onde repousam os restos da Numancia que a Sociedade de Salvamento de Espanha oferecerá à Câmara de Sesimbra como testemunho da gratidão que tão generoso ato ainda desperta no país irmão.

*Promotores da homenagem ao salvamento da fragata Numancia

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