Procissão dos Caracóis é candidata a património cultural imaterial

Na aldeia de Reguengo do Fetal há uma procissão secular que pode tornar-se património cultural imaterial. São milhares de cascas de caracóis que iluminam a aldeia e decoram as ruas. A Câmara Municipal da Batalha lançou já uma campanha de apoio à causa.

A população do Reguengo do Fetal acredita que dentro de dois ou três anos o país inteiro - e o mundo, até - vai saber que existe a sua Procissão dos Caracóis. Isto se for bem sucedida a candidatura a património cultural imaterial que agora foi posta em marcha. Ali, no concelho da Batalha, os autarcas acreditam que há todas as condições para que a Direção Geral do Património Cultural considere a classificação. O fenómeno impressiona quem visita a freguesia no princípio do outono: são milhares de cascas de caracóis, iluminadas, que ornamentam as ruas e iluminam a procissão.

Para dar corpo a esta iniciativa, a Câmara da Batalha acaba de lançar a campanha "Vamos ajudar a classificar a Procissão dos Caracóis como património cultural imaterial", dando assim o mote da campanha, que envolve não só a procissão mas também a classificação da secular celebração das Festas de Nossa Senhora do Fetal, no Reguengo do Fetal. A festa integra duas procissões: a primeira realiza-se no último sábado de setembro, à noite, onde a imagem de Nossa Senhora parte da Ermida do Fetal para a igreja paroquial. No sábado seguinte, também à noite, a imagem faz o percurso inverso, até ao Santuário.

O processo de classificação desta singular manifestação religiosa envolve a Paróquia e a Junta de Freguesia de Reguengo do Fetal, a Câmara da Batalha e o Museu da Comunidade Concelhia. "É condição fundamental para a classificação como património cultural imaterial que a tradição/manifestação continue viva. E é exatamente o que acontece no Reguengo do Fetal. A Procissão dos Caracóis revela-se atualmente como o evento de maior expressão popular, envolvendo todas as gerações, incluindo os emigrantes desta localidade que anualmente regressam dos mais variados locais propositadamente para participar na iniciativa", afirma Raul Castro, presidente da Câmara da Batalha, que diz estar determinado a cumprir "todos os esforços no sentido de alcançar o reconhecimento desta manifestação como património cultural imaterial".

O processo de instrução da candidatura é complexo, sendo necessário cumprir um conjunto considerável de requisitos técnicos. Numa primeira fase, o trabalho será efetuado em articulação com a Direção Geral de Cultura do Centro para depois ser submetido ao inventário nacional, através da Direção Geral de Património Cultural.

"O caráter secular desta tradição tem vindo a ser registado em diversos documentos como fotografias, vídeos, artigos de jornal, livros, entre outros suportes que agora importa recolher com a importante participação de todos", disse ao DN o presidente da autarquia.

A campanha "Vamos ajudar a classificar a Procissão dos Caracóis como património cultural imaterial" inclui a realização de uma exposição fotográfica alusiva às procissões, a exibir na Galeria do Posto de Turismo da Batalha, em dezembro. Para colaborar nesta campanha, a organização criou o email procissaodoscaracois@gmail.com para onde devem ser enviados todos os contributos.

Luz elétrica cortada durante a procissão

Fernando Lucas regressou este ano à presidência da Junta de Freguesia do Reguengo do Fetal, num percurso que, somado, rondará os 30 anos. "A procissão ganhou esta dimensão a partir de 2005, no meu primeiro mandato, quando conseguimos juntar um grupo de pessoas que se uniram à volta disto", conta ao DN. Até então, a festa religiosa e a Procissão dos Caracóis já existia, mas não com tão expressiva dimensão. "Havia algumas iluminações de caracóis, mas nada comparado com o que temos nos últimos anos."

"Antigamente os caracóis eram apanhados nos campos porque isto é uma zona predominantemente agrícola. E quando chegava aquela altura da festa as pessoas começavam a separar as cascas. Neste momento não. Perante a quantidade que é necessária, vamos junto dos produtores de caracóis à procura." E a quantidade necessária rondará, afinal, entre as 12 e as 14 mil cascas. Depois de secas, o processo é simples: enchem-se as cascas de azeite e um pavio, que mais tarde é aceso.

Na freguesia moram 2200 pessoas, na aldeia do Reguengo do Fetal cerca de 800. "De uma forma ou de outra todos colaboram", afirma Fernando Lucas.

Durante as festas, toda a aldeia é iluminada através de milhares de cascas de caracóis, nas ruas e nas escarpas recortadas desta localidade. "A energia elétrica é cortada durante os períodos em que as procissões se realizam e a imagem da Senhora do Fetal, a padroeira da freguesia, é transportada em ombros, do Santuário de Nossa Senhora do Fetal (Mariano) à Igreja Matriz da aldeia, regressando sete dias depois, ao local de partida. A iluminação realizada com as cascas de caracóis não se limita ao percurso dos cerca de 800 metros entre os dois locais, uma vez que os habitantes executam autênticas obras artísticas com a iluminação das suas casas, recriando moinhos, fachadas de igrejas, cruzes e outros motivos religiosos, que requerem arte e engenho na colocação das cascas e nas formas expressivas que recriam", refere o texto da candidatura, a que o DN teve acesso.

As iluminações estendem-se também às escarpas de toda a aldeia, o que proporciona aos visitantes a oportunidade única de assistirem ao vivo a um espetáculo impressionante de luz e devoção. Nas últimas procissões - realizadas em 2019, antes da pandemia - terão participado cerca de 10 mil pessoas, de acordo com a organização. No decorrer da pesquisa documental para esta candidatura, os habitantes descobriram que "em França há dois sítios que fazem uma procissão parecida, em Espanha e Itália também".

dnot@dn.pt

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