"Mais espaço para as pessoas." Livre faz proposta alternativa para a Almirante Reis

Livre propõe alteração de fundo no desenho da avenida, com menos espaço para o tráfego automóvel, a duplicação do número de passadeiras, duas ciclovias unidirecionais e o alargamento dos passeios.

Uma avenida para viver e não para atravessar. Com mais um metro de passeio, uma ciclovia unidirecional de cada lado e uma via exclusiva para transportes públicos. Esta é, a traços largos, a proposta do Livre para a requalificação da avenida Almirante Reis, apresentada na passada semana ao executivo municipal e que será dada a conhecer, mais em pormenor, na próxima terça-feira. Para o Livre esta é uma solução melhor do que aquela que foi apresentada por Carlos Moedas.

O que quer o Livre para a mais longa avenida habitacional de Lisboa, alvo de todas as polémicas desde que Carlos Moedas anunciou, na campanha eleitoral, que queria acabar com a ciclovia? "Uma solução permanente, que dê espaço para as pessoas circularem na avenida, que torne a Almirante Reis mais agradável", diz Patrícia Gonçalves, vereadora do partido (em substituição de Rui Tavares). A investigadora - formada em Física Experimental de Partículas e professora no Instituto Superior Técnico - ressalva que não se trata de um projeto urbanístico, mas de uma proposta para uma avenida que se debate com inúmeros problemas, desde a poluição às dificuldades de mobilidade. O objetivo não é apresentar uma solução definitiva, sublinha, mas "abrir um debate público em torno destas propostas, para que possam ser comentadas, melhoradas".

Na proposta do Livre, "os passeios são alargados e cria-se uma ciclovia unidirecional, de cada lado, que fica segregada, mas junto ao passeio", passando por detrás das paragens de autocarro: "Não há impedimento, não há risco de as pessoas saírem dos autocarros e serem abalroadas." O atual separador central - que "dá à avenida um caráter de quase via rápida" - desaparece e são criadas "duas faixas, uma de cada lado, para os transportes públicos e veículos de emergência". Ao centro ficam as duas vias (uma em cada sentido) para a normal circulação rodoviária.

Quanto às cargas e descargas, uma questão relevante numa via com forte componente comercial, Patrícia Gonçalves defende que a solução deve ser encontrada nas vias perpendiculares à avenida, mas admitindo outras hipóteses, como a utilização das vias afetas ao transporte público, desde que fora das horas de maior circulação.

Duplicar as passadeiras

Uma das questões centrais da proposta passa pela quase duplicação do número de passadeiras na avenida. "Entre 2010 e 2016 a avenida Almirante Reis era a mais perigosa do país, com mais atropelamentos. Os números entretanto diminuíram porque a ciclovia ajuda, o espaço de atravessamento é menor. Mas isso não resolve o problema", diz Patrícia Gonçalves, adiantando que a ideia é que haja passadeiras em todos os cruzamentos, mas também intermédias, quando a distância for superior a 100 metros.

De acordo com os dados do Livre, na percentagem de espaço na avenida dedicado a cada tipo de transporte, os carros passam de uma ocupação de 63% para 24% (acrescidos de outros 24% para os transportes públicos), enquanto o espaço pedonal aumenta dos atuais 24% para 36%, com o espaço da ciclovia a aumentar também ligeiramente, de 13 para 16%.

O plano do Livre passa também por uma maior arborização da avenida, substituindo atual separador central arborizado por duas filas de árvores laterais. E não com umas árvores quaisquer - devem ser de grande porte e de folha caduca, para permitir que o sol chegue às casas no Inverno e potencie a sombra no Verão. Uma solução para fazer baixar a temperatura na Almirante Reis, que chega a atingir mais cinco graus que ruas laterais arborizadas como a Pascoal de Melo.

E cabe tudo na avenida?

Na reunião em que a proposta foi apresentada ao executivo municipal, o presidente da autarquia, Carlos Moedas, deixou um elogio à iniciativa e admitiu estudar as soluções apresentadas. Mas também deixou uma dúvida - isto cabe tudo na Almirante Reis, uma avenida que não tem mais de 25 metros entre as fachadas de ambos os lados? Patrícia Gonçalves acredita que sim: "A Almirante Reis não é, certamente, a avenida da Liberdade, que tem 90 metros de largura, a Almirante Reis tem, em média, 23 metros. Mas também não lhe vamos pôr o número de faixas que a avenida da Liberdade tem".

Já quanto aos custos de uma requalificação desta envergadura, a vereadora do Livre aponta para cerca de um terço do que custou a reabilitação da avenida Fontes Pereira de Melo e da avenida da República (orçada em 7,5 milhões de euros), atendendo a que a área a reabilitar é também próxima de um terço. "O custo tem é de ser recalculado para os valores atuais porque os custos da construção aumentaram bastante", sublinha.

Para Patrícia Gonçalves, a proposta que será apresentada na terça-feira aos lisboetas na Casa Independente, paredes meias com a avenida, está mais próxima das conclusões da discussão pública sobre o futuro da Almirante Reis do que o plano apresentado pelo executivo de Carlos Moedas. "A questão da poluição, das passadeiras, da acessibilidade das pessoas com mobilidade reduzida" são alguns dos pontos focados na proposta do Livre que não tiveram eco no projeto do município, argumenta.

No final de março a câmara anunciou a intenção de alterar a configuração da ciclovia, que passará a ter dois sentidos, lado a lado, na via descendente (do Areeiro ao Martim Moniz), passando o sentido ascendente a contar com duas faixas automóveis. Uma solução apresentada como "provisória" e que dará depois lugar a uma remodelação mais profunda da avenida.

susete.francisco@dn.pt

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