Naturismo. Despir os preconceitos em Marvão

Paula Costa e Nuno Frade escolheram o Alto Alentejo para criarem um parque de campismo naturista. Investimento que não difere muito de comprar casa "em Algueirão e casar para a vida com o IC19".

A silhueta do Castelo é visível a quilómetros de distância. A quem olha à primeira vista, parece que a serra e o castelo estão fundidos. Enquanto nos aproximamos da Quinta do Maral, a paisagem vai perdendo a vegetação densa e passamos por dois ciclistas que calmamente avançam pelo Parque Natural da Serra de São Mamede. Na quinta somos esperados por Paula Costa e Nuno Frade, naturais de Lisboa, a viver aqui há nove anos. Com dez hectares, muito próximos da serra do Sapoio, onde se apoia o Castelo de Marvão, criaram um parque de campismo naturista. "Não nascemos numa família naturista, mas ouvimos o conceito num programa de rádio e ficámos interessados", explica Nuno. Incomodados pelo tradicional discurso "de cá não há nada, lá fora é que é bom", decidiram começar este projeto que só consideram ser realizável por alguém "que se identificasse com a causa naturista", conclui Nuno.

Nos anos de juventude, em Sintra, pertenceram a um grupo de escuteiros. Dessa altura ficou-lhes o respeito e o gosto pela natureza, pois foram ambos muito ativos e participaram em inúmeras atividades no Parque Natural de Sintra-Cascais. Segundo Paula, "Marvão já era uma paixão quando éramos escuteiros em Sintra". Mas nesses anos de escutismo conheceram quase todo o país de mochila às costas.

Quando começaram a procurar um lugar para edificar o seu projeto já tinham uma boa ideia dos fatores mais relevantes. Uma equação que pudesse aliar o preço com bom tempo; uma paisagem natural extraordinária e um património arquitetónico relevante, capaz de atrair turistas. A dimensão da propriedade também é pertinente para aqueles que os visitam, para que possam desfrutar da natureza e descansar segundo os preceitos da cultura naturista.

O naturismo surgiu como ideia no início do século XX, em França e na Alemanha. Caracteriza-se por uma forma de estar e pensar, defendendo a vida em harmonia com a natureza. A prática da nudez social pretende consolidar o sentimento de auto-estima, o respeito pelos outros e pelo meio ambiente. Neste contacto com a natureza, os naturistas defendem um comportamento responsável perante os ecossistemas e o respeito por quem os habita. Argumentam que o consumo de uma alimentação saudável e uma vida de respeito pelas diferenças entre seres humanos consegue criar novas gerações mais saudáveis e mais conscientes do nosso impacto sobre o planeta. Em Portugal existe, desde 1977, uma federação consagrada ao naturismo, que está muito ligado à prática de atividades balneares. Uma prática permitida em diversas praias ao longo do nosso litoral com o título de "praia oficial naturista". São nove areais todos situados abaixo do rio Tejo. No campismo, foram surgindo, nos últimos anos, cada vez mais projetos dedicados a esta forma de estar. Mas a Quinta do Maral é o projeto localizado mais a interior de todos e o que está mais próximo da fronteira com Espanha, a escassos 25 quilómetros.

Esta localização tem vantagens óbvias, atendendo a que o nosso país é muito procurado por turistas que se deslocam por via terrestre, oriundos um pouco de toda a Europa e adeptos do naturismo. "Frequentemente entram no parque autocaravanas com mais condições que a minha casa", conta Nuno a rir. Paula e Nuno consideram-se bem-recebidos por esta comunidade que, apesar de mais conservadora, tem visto com curiosidade a chegada destes turistas especiais.

Como Paula nos explica: "No início tínhamos receio que as pessoas nos pudessem tratar mal e na realidade há um gozo, mas é amigável". Como daquela vez que um grupo de senhoras de uma aldeia ali perto decidiu entrar, depois de uma caminhada, para conversar com os turistas "da piscina dos nudistas". Apesar de o diálogo ter sido impossível - nem os naturistas falavam português nem as senhoras falavam outra coisa que não o português - foi uma experiência divertida para todos. O projeto de "uma vida" neste parque de campismo rural e naturista implicou um investimento que não difere muito de comprar uma casa "em Algueirão e casar para a vida com o IC19", comentam.

Ela continua a trabalhar, de forma remota, para uma empresa informática de Sintra, mas abriram uma loja online de produtos naturais para complementar o negócio do campismo, que é muito sazonal, esclarece Paula. Explica-nos, também, que a pandemia não ajudou a que viessem mais turistas.
Segundo Nuno o propósito é ficar aqui. "Valorizamos o facto de morarmos dentro de um parque natural, as pessoas, o património e a natureza. Aqui temos tempo para viver, não andamos sempre em correria e isso não tem preço" resume Nuno.

Marvão

A vila fica situada no alto da Serra do Sapoio, a 860 metros de altitude, e pertence ao distrito de Portalegre, na subregião do Alto Alentejo. É sede de município, dividido em quatro freguesias.

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