De Lisboa para Seia. Uma longa espera até chegar ao interior

Saturada das rotinas e do emprego em Lisboa, Ana Cravo reforçou o desejo de viver na zona onde tem raízes familiares. Mas não foi tarefa fácil: "É mais fácil procurar emprego no estrangeiro do que no interior de Portugal".

Reinaldo Rodrigues (texto e fotografia)
Ana Cravo

Combinámos encontro no Santuário Nossa Senhora da Guia que tem uma vista deslumbrante para a vila de Loriga. Ana Cravo não vive longe. Desde setembro que vive na sede de concelho, aqui ao lado, em Seia. Filha de gente da terra que migrou para Lisboa, aos 34 anos conseguiu um objetivo que há muito perseguia: mudar-se para o interior do país.

Apesar das dificuldades porque "é mais fácil procurar emprego no estrangeiro do que no interior de Portugal", explica. A engenheira do ambiente estava saturada do emprego em Lisboa. Era funcionária numa consultora e trabalhava o desenvolvimento urbano "sentada a uma secretária". Sempre quis rumar ao interior e virar as costas à grande cidade. Tinha uma ligação a Seia, construída nos momentos de convívio em família, nas férias grandes, nas visitas aos familiares que tinham resistido à migração para a capital. Por isso começou por este território a procura de um emprego que lhe permitisse realizar a mudança.

O objetivo era que, em família, pudessem ter uma vida mais calma, em contacto com a natureza, principalmente poder proporcionar ao filho, ainda bebé, essa vivência. Queria conseguir fazer a diferença: "Tinha o sonho de mudar o mundo". Um anseio que partilhava com o marido, ele filho de imigrantes romenos que há muito valorizavam a qualidade de vida que esta terra em pleno parque natural da Serra da Estrela possui.

O ano passado, enquanto grassava a pandemia no nosso país, surgiu essa oportunidade. Um processo de recrutamento para trabalhar no projeto Aldeias de Montanha, uma dinâmica associação a trabalhar no interior do nosso país. O projeto é resultado da conjugação de esforços de nove municípios para criarem a Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede de Aldeias de Montanha. A ideia é conjugar esforços para o desenvolvimento das quarenta e uma aldeias que compõem a rede atualmente. Mas o objetivo não é simplesmente criar uma oferta turística nestas aldeias entre a serra da Gardunha e a Serra da Estrela, mas sim criar condições para a fixação de pessoas neste território.

Para isso desenvolvem projetos como os que estão em vias de ser implementados em várias aldeias, como o coworking rural, de que falámos nesta série de reportagens, no passado dia 23 julho, quando passámos por Videmonte. Este é um dos projetos em que Ana Cravo também está a trabalhar, mas não é o único. O seu trabalho é orientado para o desenvolvimento das condições de quem aqui vive e trabalha, como por exemplo a valorização do património ambiental e das vivências das comunidades sediadas nestas povoações.

O primeiro dia de trabalho, nas Aldeias de Montanha, passou-o "com um pastor a descer a serra, a ver a vida que eles têm". "Só por isso já valeu a pena", diz. Em Seia existe uma tradição de empreendedorismo e "é comum vermos emigrantes a regressar à terra. Mais raro é vê-los a ficar", acrescenta Ana. Numa terra onde, no inverno, o frio desce pelas encostas da serra até à cidade, a habitação pode ser um problema. Além da inexistência de um mercado de arrendamento, existe um problema de construção: "As casas estão mal construídas e são ineficazes contra as temperaturas de inverno". Por isso, o casal já pensa em arranjar uma casa melhor, com espaço exterior em que o filho possa brincar.

A terminar, Ana Cravo conta-nos que não revisita a capital desde a mudança: "Não me vejo a voltar, não sinto falta de nada de Lisboa, tirando um bom hambúrguer de fast food (risos). Mas enquanto o nosso filho for feliz aqui, eu também fico".

Seia

A cidade de Seia pertence ao distrito da Guarda, na região da Beira Alta, e é sede de município (dividido em 21 freguesias). Fica situada na vertente ocidental da serra da Estrela, tendo sido elevada à categoria de cidade em 3 de julho de 1986.

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reinaldo.t.rodrigues@globalimagens.pt

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