"Uma emoção muito forte". Marcelo visita cemitério de Díli

O Presidente da República português visitou hoje o cemitério de Santa Cruz, em Díli, palco do massacre de 12 de novembro de 1991.

"Quando nós aqui chegamos, aqueles mais velhinhos que recordamos o que se passou, temos uma emoção muito forte, que é ver o local onde tudo se passou", disse Marcelo Rebelo de Sousa no cemitério de Santa Cruz, em Díli, palco do massacre de 12 de novembro de 1991.

Mais de 200 pessoas morreram nesse dia e nos seguintes e a grande maioria dos corpos nunca foram recuperados, com Santa Cruz a tornar-se um dos principais símbolos da violência da ocupação indonésia que durou quase um quarto de século.

Um momento, considerou, em que se funde "religião, identidade nacional, espírito de independência e liberdade" na "procura de um cemitério para se fazer o último refúgio contra os invasores".

Para o presidente da República, que pela primeira vez visita Timor-Leste, as imagens desse trágico acontecimento foram uma "faísca" no despertar das consciências internacionais.

"De repente, certo tipo de realidades, são uma espécie de faísca que despertam as consciências em Portugal e no mundo. O que se passou foi espantoso. Aquele povo que tinha a nossa solidariedade, mas estava muito isolado ao nível de grandes potências mundiais, acordou as opiniões públicas, povos de todo o mundo e os responsáveis desses povos", afirmou Marcelo Rebelo de Sousa.

Acompanhado pelo ministro dos Negócios Estrangeiros português, João Gomes Cravinho, e pela vice-presidente da Assembleia da República portuguesa Edite Estrela, Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de atravessar praticamente todo o cemitério para visitar a campa de Sebastião Gomes.

O jovem, de 18 anos, foi morto num ataque à igreja de Motael em outubro de 1991, tendo sido num cortejo fúnebre em sua honra que milhares de jovens se concentraram em Santa Cruz, acabando por ser baleados por militares indonésios.

"Todos os portugueses que tenham mais de 50 anos, porque isto se passou há mais de 31 anos, têm memória do que aqui se passou e nos chegou no dia seguinte. Para fugir, um punhado de timorenses teve que se refugir num cemitério, no fim do fim do cemitério. O último e desesperado grito de defesa", afirmou.

"Percebe-se bem o que foi a luta timorense para chegar ao que chegou contra todos os argumentos, toda a geopolítica, da localização geográfica, de estar em condições de isolamento no mundo. Apesar disso tudo resistiu, resistiu e venceu", afirmou.

O chefe de Estado português referiu-se à importância das imagens, recolhidas pelo jornalista Max Stahl, considerando que sem elas o processo até à independência poderia ter sido mais demorado ainda.

"Com o que sabemos hoje do povo timorense sabemos que chegaria sempre à independência, mas quanto tempo mais não demoraria. Mesmo assim foram mais oito anos até ao referendo, 11 até à independência", disse.

"O que não seria necessário de resistência, mortes, sacrifícios, prisões de dominação sobre uma cultura e identidade nacional muito forte", sublinhou.

Um dos momentos mais fortes das imagens de Stahl, pelo menos para Portugal, foi o facto de sobreviventes se terem juntado na pequena capela do cemitério, começando a rezar em português, língua que se tornou da resistência.

"Lembro-me perfeitamente. É uma mistura muito identitária, fortíssima, identitária e de história, de cultura, de tradição nacional e de componente religiosa e naturalmente depois de afirmação em língua portuguesa uma maneira de rejeitar a língua do invasor, a imposição cultural do invasor", considerou.

Marcelo Rebelo de Sousa destacou o "respeito, admiração, a coragem" do povo de Timor-Leste, referindo que o apoio dado por Portugal durante a ocupação indonésia e desde aí pode ter servido como alguma "redenção" de alguns aspetos que "não correram bem no processo de descolonização".

"Uma espécie de redenção, ao menos parcial, do nosso pais e do nosso povo quando, compreendendo os erros cometidos, alinha ao lado do povo timorense, sem uma dúvida, sem uma hesitação, se bate pela causa timorense, talvez a única causa que teve o apoio de 100 por cento dos portugueses em tantos nos de democracia", considerou.

Em particular, disse, ajudando a convencer a comunidade internacional a agir, para que a Indonésia renunciasse a "violentar o povo timorense".

"Aquilo que se fez nesse período, nesses 25 anos, no período de transição para a independência e depois no apoio a seguir, explica talvez porque é que o povo timorense tem uma relação tão doce, tão fraternal e apesar de tudo grata em relação em Portugal", afirmou.

Encontro inesperado

Xanana Gusmão deslocou-se esta madrugada ao hotel onde Marcelo Rebelo de Sousa está alojado e tinha acabado de chegar, em Díli, para um encontro fora da agenda prevista em que entregou ao chefe de Estado português um tais timorense, o pano tradicional oferecido a convidados especiais e reconhecido como património imaterial pela UNESCO.

"Um tais especial para um amigo especial", disse o líder histórico timorense, pedindo que o pano fosse pendurado "na sala principal" do Presidente português.

"De um amigo muito especial. Especialíssimo", respondeu Marcelo Rebelo de Sousa.

Depois, já sentados, Marcelo Rebelo de Sousa quis 'entrevistar' o líder timorenses, perguntando a Xanana Gusmão sobre os 20 anos desde a restauração da independência de Timor-Leste e qual era a sua memória mais forte.

"A memória mais forte foi termos conseguido ultrapassar as cicatrizes da guerra. Depois do 20 de maio o estigma da guerra vivia ainda no espírito e no comportamento dos timorense. Entramos num ciclo de crises que criou quase 150 mil deslocados internos aqui no jardim aqui ao lado", disse, referindo aos confrontos e tensão política de 2006.

"Uma crise que dividiu os timorenses, com violência, queimaram casas, a matar-se e até membros das forças armadas mataram membros da polícia", explicou Xanana Gusmão.

O líder histórico timorense disse que "depois de dois anos" foi possível resolver a crise levando o país "a adotar o mote de adeus conflito, bem-vindo desenvolvimento".

"E aí é que se conseguiu uma unidade de pensamento, sobretudo em termos de que é necessário paz para o desenvolvimento", afirmou.

Marcelo Rebelo de Sousa está em Timor-Leste para participar nas cerimónias de investidura do novo Presidente, José Ramos-Horta e nas comemorações dos 20 anos da restauração da independência.

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