O presidente norte-americano, Donald Trump, insiste que quer chegar a um acordo nuclear com o Irão. Mas, ao mesmo tempo que decorrem as negociações, os EUA têm vindo a acumular meios militares na região. Teerão queixou-se às Nações Unidas, exigindo que a organização pressione Washington “a cessar imediatamente as suas ameaças ilegais de uso de força”. E avisou que “responderá de maneira decisiva e proporcional” a qualquer ataque, considerando que “todas as bases, instalações e ativos” são alvos “legítimos”.Na semana passada, responsáveis norte-americanos tinham dito que Trump ainda não tinha tomado uma decisão, mas que a luz verde podia vir a qualquer altura - a AP indicava contudo que todo o poderio militar só estaria pronto em meados de março. “Ou chegamos a um acordo ou será lamentável para eles”, disse o presidente, estimando que “10 a 15 dias” seria “o prazo máximo” para chegar a um acordo. Na sexta-feira (20 de fevereiro), admitiu um ataque inicial limitado para forçar Teerão.Representantes do Irão e dos EUA estiveram reunidos na passada terça-feira (17 de fevereiro), em Genebra, na Suíça, com os iranianos a mostrarem-se mais otimistas que os norte-americanos. Indicaram que havia um entendimento sobre os “princípios orientadores” e que o próximo passo era cada uma das partes preparar um rascunho do texto para enviar à outra no prazo de duas semanas.."O caminho para um acordo começou", diz o Irão após nova ronda de negociações com os EUA.O Irão só aceita negociar o nuclear, enquanto Israel pressiona os EUA para não aceitarem um acordo que não inclua passos para neutralizar o programa de mísseis balísticos iraniano e o fim do apoio de Teerão a outros grupos, como o Hamas na Faixa de Gaza ou o Hezbollah no Líbano. Israel acredita que o regime iraniano nunca esteve tão fraco como agora, após a guerra de 12 dias em junho e na sequência de protestos massivos no início do ano, não estando confiante na possibilidade de um acordo.Mas, afinal que meios acumulou Trump na região (e nas bases europeias) para um eventual ataque? E onde é que o regime iraniano pode retaliar?“Grande armada”Os EUA têm 13 navios de guerra na região - o porta-aviões USS Abraham Lincoln no Mar Arábico (estava a 240 km da costa de Omã nos últimos registos público), além de nove contratorpedeiros e três navios costeiros no Mediterrâneo Oriental, no Mar Vermelho e num porto no Bahrein. Mas há reforços a caminho. O USS Gerald R. Ford, o maior porta-aviões no mundo que esteve em missão nas Caraíbas, entrou na sexta-feira no Mediterrâneo e avança com mais três contratorpedeiros em direção a leste.Cada um dos porta-aviões (é raro dois estarem na mesma região ao mesmo tempo, mas isso também aconteceu antes do ataque de junho) transporta dezenas de aviões de combate e de homens - só o USS Gerald R. Ford tem uma tripulação de 4500 homens e 90 caças. Trump tinha dito que havia “uma grande armada” a caminho e, na quinta-feira (19 de fevereiro), avisou Teerão que tinha até 15 dias para chegar a acordo. Antes de bombardear as instalações nucleares em junho, o presidente também tinha feito um ultimato, que acabou por cumprir apesar de haver uma nova ronda de negociações marcada.Entretanto, diante desta “grande armada”, Teerão fechou temporariamente partes do Estreito de Ormuz (uma importante via marítima por onde passa cerca de um terço do petróleo mundial) para realizar exercícios militares. .Na terça-feira (17 de fevereiro) disparou cinco mísseis que atingiram os alvos previstos no estreito e, na quinta-feira (19 de fevereiro), fez uma operação conjunta com os russos. Segundo a agência oficial IRNA, estes exercícios visaram “melhorar a coordenação operacional e promover a troca de experiências militares”.Na terça-feira, o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, tinha deixado um aviso no X. “Os americanos estão sempre a dizer que enviaram um navio de guerra em direção ao Irão. É claro que um navio de guerra é um equipamento militar perigoso. No entanto, mais perigosa do que este navio de guerra é a arma capaz de o afundar”, escreveu.Aviões de combateAlém dos caças que vão a bordo dos porta-aviões, houve também um reforço dos meios aéreos na região - fala-se em mais de 250 aviões, o maior número desde a guerra do Iraque em 2003 - assim como nas bases europeias, entre elas a das Lajes, nos Açores.Entre os aviões detetados na zona estão os F-35 Lightning II, os F-22 Raptor, além de aviões de abastecimento KC-135 e KC-46, que apoiam ações de longo curso, e aviões de comando e vigilância E-3 Sentry, preparados para coordenar operações de larga escala. Também foi detetado um P-8 de vigilância marítima no Estreito de Ormuz.Na última quarta-feira (18 de fevereiro), só na base das Lajes, segundo a agência Lusa, estiveram estacionados 11 reabastecedores KC-46 Pegasus, 12 caças F-16 Viper e um cargueiro militar C-17 Globemaster III. Já no ataque de junho, a base açoriana foi usada para apoio dos bombardeiros B-2 que, tendo descolado diretamente do Missouri, foram usados para atingir as centrais de Fordo, Isfahan e Natanz. Segundo Trump, as três instalações nucleares iranianas foram “totalmente obliteradas”.A imprensa britânica noticiou, entretanto, que o primeiro-ministro Keir Starmer não teria dado autorização para os EUA usarem as bases britânicas (RAF Fairford em Gloucestershire e a de Diego Garcia, no Índico) num ataque ao Irão. Segundo o The Times, o Reino Unido está preocupado com uma possível violação do direito internacional, “que não faz distinção entre o país que faz o ataque e aqueles que o apoiam, se estes últimos tiverem ‘conhecimento das circunstâncias do ato internacionalmente ilícito’”. No ataque em junho, nenhuma destas bases britânicas foi usada.Bases militaresDezenas de aviões militares já estão na base de Al-Udeid, no deserto nos arredores de Doha, no Qatar. É a maior base dos EUA no Médio Oriente (cerca de dez mil tropas), acolhendo a sede do Comando Central. Depois do ataque de junho (tal como já tinha acontecido depois de os norte-americanos assassinarem o general Qasem Soleimani, em 2020), o Irão retaliou atacando esta base com uma dúzia de mísseis. Mas só depois de alertar os norte-americanos, dando tempo para retirar o pessoal não essencial do local. Em meados de janeiro, após Trump ameaçar atacar para proteger os iranianos que protestavam contra o regime, Al-Udeid voltou a receber ordem de evacuação. Mas a tensão acalmou quando Teerão suspendeu as execuções. Até ao momento, não houve nova ordem do género, mas os EUA reforçaram os sistemas de defesa aérea. Segundo o The New York Times, foram destacadas baterias de mísseis Patriot e sistemas THAAD, concebidos para intercetar mísseis balísticos de curto e médio alcance na fase final de voo.Também houve reforço de meios militares na base de Muwaffaq Salti, na Jordânia, com os EUA a terem também disponíveis no Médio Oriente várias instalações militares no Kuwait e na Arábia Saudita, a sede da Quinta Frota da Marinha no Bahrain, a base aérea Al Dhafra a sul de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, e bases no Iraque. A de Ain Al Asad, na província de Anbar, também foi alvo dos ataques do Irão após a morte do Soleimani.Retaliação do IrãoTeerão já avisou que “responderá de maneira decisiva e proporcional” a qualquer ataque dos EUA - que pode decidir fazer bombardeamentos precisos a bases dos Guardas da Revolução, a locais de armazenamento e lançamento de mísseis balísticos ou a novas instalações nucleares. O Irão considera que “todas as bases, instalações e ativos” dos EUA são alvos “legítimos”.Os iranianos podem ainda retaliar contra os próprios aliados dos EUA, atacando infraestruturas críticas de países como a Jordânia ou Israel (que já bombardeou na guerra de 12 dias). Um ataque contra a petrolífera saudita Aramco, em 2019 (apontado ao Irão), obrigou a um corte de 50% da produção do país (cerca de 5% da produção mundial), desestabilizando os mercados globais. Os aliados árabes dos EUA têm tentado convencer Trump a não atacar, temendo precisamente o impacto na região. No mês passado, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos disseram que não iriam permitir que os EUA usassem o seu espaço aéreo para realizar o ataque, mas isso poderá não os poupar a uma eventual retaliação iraniana.Segundo a BBC, o Irão poderá ainda responder colocando minas no Estreito de Ormuz e no Golfo Pérsico (já foi uma tática que usou durante a guerra com o Iraque entre 1980-1988), prejudicando o comércio global e as exportações de petróleo. Contudo, lembra a emissora pública britânica, o Irão seria o principal prejudicado, já que está dependente das exportações de petróleo (nomeadamente para a China)..A Crise no Médio Oriente: Será que os Estados Unidos irão atacar o Irão?