Presidente do Sri Lanka demite-se após multidão invadir o palácio

Gotabaya Rajapaksa, que manifestantes acusam de ser responsável pela crise no país, anunciou que se vai demitir na quarta-feira. O seu primeiro-ministro também já aceitou sair.

O presidente do Sri Lanka, Gotabaya Rajapaksa, estava este sábado em parte incerta, depois de uma multidão ter invadido o complexo presidencial, exigindo a sua demissão. Os rumores, não confirmados, eram de que estaria a tentar sair da ilha, tendo o líder do Parlamento anunciado que ele lhe expressou a intenção de se demitir na quarta-feira. O último protesto, num país que está há meses em crise profunda, levou o primeiro-ministro Ranil Wickremesinghe a abandonar também o cargo, abrindo a porta a um eventual governo de união. Mas este anúncio não segurou os manifestantes, que incendiaram a sua residência privada.

"O presidente foi escoltado em segurança", disse uma fonte à AFP, sob anonimato, indicando que tropas terão disparado tiros para o ar para afastar a multidão e permitir que ele deixasse o complexo presidencial. Contudo, fontes da Reuters alegavam que ele teria sido retirado ainda na sexta-feira, como medida de precaução, tendo em conta que estava a ser planeada a manifestação - que reuniu centenas de milhares de pessoas. O líder do Parlamento, Mahinda Yapa Abeywardena, disse mais tarde que o presidente o informou da sua intenção de deixar o poder no dia 13 "para garantir uma transição pacífica". Segundo a BBC, os rumores eram de que estaria já ontem no aeroporto, mas também que haveria dois navios no porto de Colombo prontos a partir.

Entretanto, após invadir o palácio, a multidão fez uma festa na piscina, com vídeos partilhados nas redes sociais a mostrar também manifestantes dentro do quarto do presidente, a descansar no relvado dos jardins depois de terem tido de desmantelar barricadas e saltar vedações para entrar no complexo.

"Fiquei surpreendido por ver que o ar condicionado estava a funcionar na casa de banho dele. Nós temos de enfrentar inúmeros cortes de energia", disse à AFP um dos homens que entrou na residência oficial - para onde Rajapaksa se tinha mudado há poucos meses, depois de a sua residência privada ter sido alvo dos manifestantes. Um corpo de elite da polícia manteve-se no local, sem contudo tentar remover ninguém à força.

Gotabaya Rajapaksa, de 72 anos, é presidente desde 2019 e irmão mais novo de Mahinda Rajapaksa, de 76 anos, que ocupou o mesmo cargo durante uma década, entre 2005 e 2015. O líder do clã foi também primeiro-ministro desde 2019 até maio, quando teve de ser resgatado pelos militares depois de milhares de pessoas invadirem a sua casa. Já tinha ocupado esse cargo antes de chegar à presidência e por menos de dois meses, em 2018. O irmão mais novo de ambos, Basil Rajapaksa, foi ministro das Finanças entre julho de 2021 e o passado mês de abril.

Para muitos, a família é a responsável pela atual crise, já que durante os mandatos de Mahinda o Sri Lanka aproximou-se da China e pediu empréstimos no valor de sete mil milhões de dólares para projetos de infraestruturas - vários deles acabaram por não se realizar envoltos em corrupção - e agora está a pagar.

O país de 22 milhões de habitantes esteve até 2009 em guerra civil - Gotabaya estava à frente do Exército e da polícia, que lideraram a repressão contra os rebeldes separatistas Tamil. Uma década depois, enfrentou o terrorismo islâmico, com um ataque na Páscoa de 2019 a causar mais de 260 mortes - incluindo vários turistas, entre eles um português em lua-de-mel. Após esse golpe, veio a pandemia da covid-19, que fechou as portas da ilha ao turismo (e aos seus rendimentos) e intensificou ainda mais a crise - a pior desde a independência em 1948. A inflação está há nove meses a bater recordes, só há combustível para os serviços essenciais e a escassez de alimentos levou a ONU a alertar para a crise humanitária.

Novo governo?

Sem sinal do presidente, os olhos voltaram-se para o primeiro-ministro, que sucedeu a Mahinda Rajapaksa em maio. Ranil Wickremesinghe, que assumiu a chefia do governo pela quinta vez (nunca fez o mandato completo), disse numa declaração que se vai demitir quando todos os partidos acordarem um novo governo, com a presença de todas as forças políticas. "Para garantir a continuação do governo e a segurança de todos os cidadãos, aceito a recomendação dos líderes dos partidos, abrindo caminho para um governo de todas as forças. Para facilitar isto, vou demitir-me de primeiro-ministro", escreveu no Twitter.

"Hoje, neste país, temos uma crise de combustível, escassez de alimentos, temos o líder do Programa Alimentar Mundial a vir cá e temos vários temas para discutir com o Fundo Monetário Internacional. Por isso, se este governo sair, deve haver outro", reiterou depois Wickremesinghe. Apesar disso, os manifestantes incendiaram a sua residência privada - ele e a família tinham sido retirados mais cedo para outro local.

Meses de crise económica e política

1 de abril: O presidente Gotabaya Rajapaksa, cujo governo tem sido acusado de má gestão, declara o Estado de Emergência, dando às forças de segurança poderes extra após uma onda de protestos.

3 de abril: Quase todo o governo demite-se, deixando o presidente e o irmão Mahinda Rajapaksa, o primeiro-ministro, isolados. O governador do Banco Central, que rejeita pedir um resgate ao Fundo Monetário Internacional (FMI), também se demite.

5 de abril: O presidente perde a maioria parlamentar e ex-aliados pedem que deixe o país. Levantado o Estado de Emergência.

12 de abril: O governo pediu como "último recurso" uma moratória ao pagamento da dívida externa de 51 mil milhões de dólares, ao ficar sem dinheiro para importar bens de primeira necessidade.

19 de abril: A polícia mata um manifestante, a primeira vítima após semanas de protestos. O FMI pede a reestruturação da dívida, antes de poder aprovar um resgate.

9 de maio: Uma multidão pró-governo que é levada em autocarros até à capital ataca os manifestantes pacíficos frente ao gabinete do presidente. Nove pessoas morrem e centenas ficam feridas no contra-ataque, com casas de deputados a serem incendiadas. Mahinda demite-se de primeiro-ministro e precisa de ser socorrido pelas forças de segurança, após os manifestantes invadirem a sua casa em Colombo. Ranil Wickremesinghe, um político veterano que já ocupou várias vezes a chefia do governo, é nomeado para o substituir.

10 de junho: As Nações Unidas alertam para a crise humanitária, com milhões já a precisar de ajuda.

27 de junho: Governo suspende vendas de combustível, exceto para serviços essenciais.

1 de julho: A inflação bate recordes pelo nono mês consecutivo, depois de o FMI pedir ao governo para travar o aumento dos preços.

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG