O consenso de Ramos-Horta e o passaporte de Marcelo

Uma década depois, José Ramos-Horta regressa à presidência com um discurso em que pede unidade e consensos nacionais para o país alcançar objetivos básicos. Antes da cerimónia da transferência de poder, PR português espalhou o charme da língua portuguesa.

No recinto de Tasi Tolu, nos arredores de Díli, o novo presidente de Timor-Leste pediu "consenso nacional" para a sociedade atingir metas urgentes, como a erradicação da subnutrição infantil ou a pobreza extrema, e advogou o reforço das relações internacionais. A ouvi-lo, entre os convidados de delegações de mais de 30 países, estava o chefe de Estado português que, depois de ter recebido a visita de Xanana Gusmão, repetiu nas ruas e nas escolas a mensagem do líder histórico da resistência: "Falar português é como ter um passaporte para viajar no mundo, é ter um tesouro na mão."

Um juramento e uma simbólica troca de cadeiras marcou a cerimónia de tomada de posse de José Ramos-Horta, que iniciou o mandato no cargo depois de uma primeira experiência (2007-2012). O juramento marcou o fim do mandato de Francisco Guterres Lu-Olo que, simbolicamente, cedeu a sua cadeira de honra a Ramos-Horta. Antes, desejou-lhe "o maior sucesso" e resumiu o seu mandato, pautado por observar "os princípios constitucionais, a legalidade e a ética política, o quadro jurídico, para consolidar a paz e a estabilidade nacional".

No discurso que proferiu depois de tomar posse, Ramos-Horta pediu um esforço conjunto "nos próximos cinco a dez anos" nas "prioridades nacionais incontornáveis", como a educação e a saúde, tendo uma atenção especial à juventude. "É através do nosso investimento nos nossos jovens, o futuro de Timor-Leste, que podemos garantir o desenvolvimento, a estabilidade e a unidade da nossa nação para todas as nossas comunidades", disse.

Ramos-Horta, de 72 anos, considerou essencial tomar-se medidas em áreas como a agricultura, segurança alimentar, nutrição e água potável para garantir a "soberania total". Em declarações à TSF antes da cerimónia, disse que é "inaceitável" e sem justificação a taxa de subnutrição infantil, assim como a pobreza extrema, que atinge 40% da população.

Nas relações externas, o presidente timorense defendeu um reforço dos laços com os países vizinhos, no quadro da ASEAN, mas também com a China ou os Estados Unidos. Sobre Pequim, que disse ter uma "responsabilidade acrescida na promoção e defesa do diálogo para a preservação da paz regional e global", elencou as áreas em que a cooperação deverá intensificar-se, da agricultura às infraestruturas.

Ramos-Horta saudou o apoio dado pelos EUA desde a restauração da independência e sublinhou a importância do programa de 400 milhões de dólares da Millennium Challenge Corporation, que vai ser assinado em breve, que incide nas áreas da saúde e educação. Em termos regionais, disse que a Indonésia, Austrália, Nova Zelândia e o sudeste asiático "devem estar no topo" da agenda nacional.

Reconheceu ainda a solidariedade dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e destacou os "laços seculares" e "o mais profundo afeto" da relação com Portugal, "um verdadeiro amigo, solidário, generoso e persistente, em todos os momentos difíceis". E depois dirigiu-se ao chefe de Estado: "Eterna amizade e gratidão, amigo Presidente Marcelo", disse.

Na sua primeira visita a Díli, Marcelo Rebelo de Sousa elogiou à chegada o "grande povo" timorense e prometeu que Portugal irá fazer mais pelo país nos próximos dez anos do que fez nos anteriores. Num encontro fora da agenda, trocou beijos e abraços com Xanana Gusmão, tendo o líder histórico destacado o papel da língua portuguesa.

Depois de ter ouvido as inspiradoras palavras, Marcelo passeou pelas ruas, visitou duas escolas e foi repetindo o que ouviu de Xanana: falar português é um passaporte.

O Presidente visitou também o cemitério de Santa Cruz, onde decorreu o massacre de 12 de novembro de 1991, encontrou-se com o primeiro-ministro Taur Matan Ruak, e trocou condecorações com o presidente cessante.

Com Lusa

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