O congresso do adeus a Raúl Castro no meio da crise e da contestação

O Partido Comunista de Cuba reúne em Havana num encontro que marca a saída do irmão de Fidel do cargo de secretário-geral, dando lugar ao presidente Miguel Díaz-Canel.

Sob fundo da pior crise desde o chamado "período especial" dos anos 1990, da pandemia de covid-19 e do aumento da contestação, o Partido Comunista de Cuba (PCC) reúne entre hoje e segunda-feira no seu 8.º Congresso. Um encontro em Havana que ficará marcado pelo adeus a Raúl Castro, que deixará o cargo de secretário-geral e passará a pasta ao presidente Miguel Díaz-Canel.

"Despedida definitiva não creio que aconteça. Talvez se repita o que aconteceu quando Raúl substituiu o irmão e pediu ao Parlamento para aprovar um decreto dando-lhe permissão para comunicar a Fidel tudo o que fosse de interesse para o país e consultá-lo em algumas decisões", disse ao DN o jornalista português Rui Ferreira, que viveu em Cuba e atualmente está em Miami. "Ou que fique como uma espécie de Deng Xiaoping, o poder por detrás do trono, sem um cargo oficial", acrescentou.

Este é o primeiro congresso do PCC depois da morte do histórico líder cubano Fidel Castro, em 2016, e da saída do seu irmão Raúl do poder, em 2018. O cargo de secretário-geral do PCC, que tinha assumido em 2011, é o último que ainda detém, estando previsto que agora se reforme a poucos meses de fazer 90 anos. E que passe o testemunho à geração que já nasceu depois da revolução de 1959 - o presidente festeja para a semana os 61 anos.

"Díaz-Canel não é um Castro e a velha guarda pode não ficar na primeira linha, mas continua a ter seguidores no aparato do Estado e do partido", lembrou Rui Ferreira. O próprio presidente era um homem de Raúl e "na prática foi uma eleição de continuidade e não de grandes mudanças", referiu o jornalista, que colabora com o site OnCubaNews. "Nesse sentido foi uma frustração. Ele fala de política com frases que não passam de slogans, não é um grande orador ou inovador em termos de linguagem e, embora tenha gerado expectativas ao anunciar que ia abrir contas no Twitter e no Facebook, porque as pessoas achavam que ele ia estabelecer um diálogo direto, a verdade é que não aconteceu", explicou

Crise económica

A nova geração herda um país em crise - por muitos comparada à do "período especial", após a dissolução da União Soviética - com uma queda do PIB de 11% em 2020. A escassez de produtos básicos ou alimentos (o ministro da Agricultura foi substituído esta semana) junta-se à inflação elevada (poderá chegar aos 400 ou 500% este ano), causada pela decisão há muito esperada de união monetária (acabando com os chamados pesos conversíveis). Para culminar, há a crise no setor do turismo, causada pela pandemia de covid-19.

"A pandemia atrasou muito as reformas e o desenvolvimento económico. Diria que pelo menos uma década. Daí que o Congresso seja importante", disse Rui Ferreira, defendendo que as discussões deviam ser à porta aberta. "Porque caso contrário vão transmitir a ideia de que só querem que o sistema sobreviva e não vão proteger a população", referiu.

O discurso do único partido que é legal está ameaçado pela Internet móvel, que chegou no final de 2018 e acabou com a impressão de isolamento sentida pelos habitantes da ilha. As redes sociais tornaram-se num meio de expressão do descontentamento da população - foi através delas que se convocou o protesto, inédito, de cerca de 300 artistas em novembro. "Raúl promove discretamente as queixas pacíficas, apesar de a velha guarda não tolerar qualquer dissidência. Mas não vejo Díaz-Canel a ser secretário-geral à base de repressão violenta", disse o jornalista.

Relação com os EUA

O 8.º Congresso do PCC começa esta sexta-feira, no 60.º aniversário da proclamação, por parte de Fidel, do caráter socialista da revolução no enterro das primeiras vítimas dos bombardeamentos prévios à falhada tentativa de invasão da Baía dos Porcos. O desembarque na Praia Girón de exilados cubanos que se opunham à revolução, e eram financiados e apoiados pelos EUA, seria a 17 de abril de 1961. Dois dias depois, Havana tinha controlado a situação. O congresso termina precisamente a 19 de abril.

O anterior encontro, em 2016, decorreu numa altura de abertura das relações diplomáticas com os EUA, no final da presidência de Barack Obama. O atual surge quando outro democrata, Joe Biden, está na Casa Branca, mas depois de um mandato do republicano Donald Trump, que recuou nas políticas introduzidas pelo antecessor. Mas, para já, nada mudou.

"A única coisa que a Casa Branca disse é que está a "rever" a política com Cuba, sem dar detalhes, mas indicando que se regerá pelo respeito dos direitos humanos", referiu o jornalista. "Em Washington dizem-me que o presidente tem outras prioridades e, para Biden, Cuba não é o umbigo do mundo", contou, lembrando que ele foi o primeiro a não precisar do "voto cubano" da Florida para chegar à Casa Branca e que muitos cubanos ficaram "frustrados. Foi fatal para o ego deles não serem importantes".

susana.f.salvador@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG