A Unidos do Viradouro ganhou o 104.º desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro do Carnaval de 2026, com um enredo em homenagem ao Mestre Ciça, antigo diretor da própria escola. No outro extremo, classificou-se a Acadêmicos de Niterói, cujo distinguido era Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT). No entanto, a derrota no desfile da Avenida Marquês de Sapucaí, que levou até à despromoção da Acadêmicos para a segunda divisão em 2027, é a menor das preocupações do presidente da República do Brasil neste Carnaval.Em primeiro lugar, porque o samba-enredo Lula, o Operário do Brasil rendeu uma chuva de ações no Tribunal de Contas da União (TCU) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de partidos da oposição contra a escola e contra Lula porque, já em outubro, o atual chefe de Estado concorre à reeleição para o Palácio do Planalto contra, entre outros, Flávio Bolsonaro, primogénito de Jair Bolsonaro e senador pelo Partido Liberal (PL).A primeira delas, noticiada dia 4 no DN, foi protocolada por Damares Alves, ex-ministra de Bolsonaro e senadora pelo Republicanos, para quem, “além da promoção pessoal do atual presidente da República”, os ataques “a mitos falsos” no samba, podiam ser entendidos como indireta ao ex-presidente, chamado de “mito” pelos apoiantes. Durante o desfile, de facto, Bolsonaro, do PL, surgiu representado como um palhaço preso, o que ampliou a repercussão do caso.O TCU acatou a ação e começou por pedir a suspensão parcial da verba pública de cerca de 160 mil euros a que cada uma das 12 escolas da principal divisão têm direito por promoverem o turismo internacional no país. “Há desvio de finalidade”, defendeu um auditor do tribunal a propósito da homenagem, “com afronta aos princípios da indisponibilidade do interesse público, da impessoalidade e da moralidade”.Já o TSE rejeitou, ainda antes do Carnaval, um pedido de liminar, recurso jurídico semelhante à providência cautelar em Portugal, do Novo, partido de direita com programa mais ou menos equivalente ao Iniciativa Liberal, por entender que isso poderia ser considerado “censura prévia” e sublinhando que a corte “não pode julgar eventuais ilícitos antes de cometidos”. No entanto, todos os magistrados que compõem o tribunal alertaram logo ali para o potencial ilegal do desfile e mantiveram o processo em aberto. “O caso é uma areia movediça que corre o risco de afundar”, avisou Cármen Lúcia, presidente do TSE e membro do Supremo Tribunal Eleitoral (STF). Essa perceção levou, por um lado, a que Lula e demais membros do governo se recusassem a estar na Marquês de Sapucaí, incluindo Janja da Silva, a primeira-dama, cuja presença esteve em cima da mesa até à última hora. E, por outro, a que, já após o desfile, mais 12 ações de partidos da oposição entrassem no TSE apontando crimes eleitorais como “promoção política”, “propaganda antecipada” e “abuso de poder político e económico”, alguns com eventual pena de inelegibilidade. Além das ações nas cortes citadas, o senador Magno Malta (PL) e o deputado Rodolfo Nogueira (também do PL) acionaram a Procuradoria-Geral da República alegando que a representação poderia “configurar preconceito religioso”.Em causa, a ala da escola intitulada “Neoconservadores em Conserva”, na qual foliões desfilaram mascarados de latas de conserva com a imagem de uma família tradicional, composta por pai, mãe e dois filhos, estampada no rótulo. Segundo a sinopse do desfile entregue pela escola, o objetivo era simbolizar de forma crítica “os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo, como representantes do agronegócio, mulheres ricas, defensores da ditadura militar e evangélicos”.Parlamentares e figuras da oposição aproveitaram, no entanto, para explorar mediaticamente o ataque da escola de samba a seu favor, partilhando memes nas redes sociais em que, com ferramentas de geração de imagens, criaram versões de fotos das próprias famílias coladas em latas de conservas. “Alguns até podem tentar ridicularizar, mas família será sempre inegociável, sou conserva com muito orgulho”, publicou Deltan Dallagnol, ex-procurador envolvido na Operação Lava-Jato, hoje deputado do Novo. Os citados senadores Flávio Bolsonaro e Damares Alves, assim como Sóstenes Cavalcante, líder parlamentar do PL na Câmara dos Deputados, foram outros que usaram o meme.E é aqui que entra a segunda preocupação de Lula: como o candidato à reeleição, para conquistar votos, tem feito gestos de aproximação a deputados conservadores de centro-direita e de direita moderada e planeia nomear Jorge Messias, um jurista evangélico, para o STF, o samba da Acadêmicos em seu nome, ao visar precisamente esses dois segmentos, não podia ter vindo em pior altura.“Quando uma manifestação cultural transforma a fé de milhões em objeto de deboche coletivo, não estamos diante de crítica política legítima”, lamentou o deputado (e pastor evangélico) Cezinha de Madureira, considerado um dos membros da chamada bancada evangélica do Congresso mais próximos de Lula. .Lula e Flávio procuram cara metade para 'ticket' presidencial