Javier Ortega Smith foi um dos fundadores do Vox em dezembro de 2013, foi secretário-geral do partido de extrema-direita espanhol entre 2016 e 2022 e vice-presidente de 2022 a 2024, e era um dos colaboradores mais próximos do líder, Santiago Abascal (será, aliás, padrinho de um dos seus cinco filhos). Mas, o deputado e militante n.º 6 tornou-se numa dor de cabeça para a formação política, depois de ter recusado deixar a liderança do grupo do Vox na Câmara de Madrid. Foi expulso provisoriamente, mas promete contestar e a guerra interna não tem fim à vista.“Acho que há pessoas que estão obcecadas há algum tempo em eliminar do partido todos aqueles que possam ter ganhado notoriedade, que possam ter tido personalidade nas suas opiniões”, disse Ortega Smith na segunda-feira (23 de fevereiro) aos jornalistas, enquanto segurava o cartão de militantes n.º 6. “Num partido político, e em qualquer organização, as regras devem ser seguidas por todos, do número um ao número quatro, que acredito ser eu, e do número seis até ao número 68 mil”, disse por seu lado Abascal, numa entrevista à Antena 3. “Todos os membros devem cumprir as normas internas e respeitar os nossos estatutos”, enfatizou.Ortega Smith e Abascal conheceram-se em 2012, quando o advogado representou o político (então ainda membro do Partido Popular) num processo judicial referente a ameaças que ele tinha recebido. Data daí a sua amizade, não sendo claro quando é que esta se deteriorou.O que se sabe é que Ortega Smith foi começando a ser afastado de cargos de relevo dentro do partido mostrando cada vez mais o seu desagrado - em 2023 avisou que “o Vox não nasceu como uma agência de colocação de amigos”, numa crítica à gestão interna - e dentro do Congresso dos deputados (onde era porta-voz adjunto). Na altura qualificou esta decisão de “injusta” e “errada”, tendo chegado deixar no ar a possibilidade de se candidatar à liderança. Abascal ganhou todas as eleições desde 2014, com ou sem adversários.Em dezembro, Ortega Smith foi afastado do Comité Executivo Nacional, sem terem sido apresentadas razões. Quando chegou a hora de ser afastado de líder do grupo do Vox na Câmara de Madrid, bateu o pé. E ignorou a ordem do partido, dizendo que contava com a maioria dos vereadores (são cinco, outros dois também já foram suspensos por não cumprir as ordens) e anunciando que iria ontem à reunião mensal camarária como líder.“Alguns terão de se perguntar, e terão de responder ao povo de Madrid, porque é que, perante uma situação tão grave em Espanha, com tantos problemas, com um governo de delinquentes e criminosos, quiseram colocar este grupo municipal numa posição de confronto, divisão e dificultar o trabalho que estamos a fazer para o povo de Madrid”, disse esta terça-feira (24 de fevereiro) Ortega Smith. Abascal, na entrevista com a Antena 3, rejeitou a ideia de uma “rebelião”, procurando desvalorizar os problemas. O líder do Vox defendeu que os partidos políticos não devem centrar-se em disputas internas, porque o que os cidadãos querem é que se dediquem aos problemas que os afetam. E disse assumir a responsabilidade, preocupado em responder aos problemas da população. Abascal quer focar-se nas eleições autonómicas de Castela e Leão, que se celebram a 15 de março, com a campanha a começar oficialmente já na sexta-feira (27 de fevereiro).Segundo alguns meios de comunicação espanhóis, por detrás do luta interna estará não só uma disputa pelo poder, mas também questões financeiras, havendo várias denúncias de ex-membros do Vox de alegados desvios de fundos na Fundación Disenso. Esta fundação, presidida por Abascal, apresenta-se como “laboratório de ideias orientado à defesa dos valores como a liberdade, a soberania nacional, a vida, a família e o Estado de Direito”.