Lula lidera frente ampla contra Bolsonaro

De volta, de vez, à arena quatro anos após ter sido preso, o antigo presidente reuniu sete partidos e muitos artistas em ato de apoio à sua candidatura. "Com este movimento, o Brasil pode voltar a ser feliz", diz.

Quatro anos após ter sido preso na Operação Lava Jato, o antigo presidente Lula da Silva voltou, agora oficialmente, à arena política do Brasil. Em encontro com 4000 militantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e de outras forças partidárias em São Paulo, apresentou o "movimento de apoio" ao seu regresso, 12 anos depois, ao Palácio do Planalto, em outubro deste ano. Desse movimento, faz parte Geraldo Alckmin, um outrora arquirrival político pré-candidato a vice-presidente de Lula pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB).

"Com este movimento, a vitória é muito mais certa, com este movimento poderemos provar que o Brasil pode voltar a ser feliz, a criar riqueza, emprego, depois deste drama que estamos vivendo de um governo que desmonta, sucateia o nosso património, nossas florestas, nossos rios", afirmou o pré-candidato, ao som dos habituais cânticos "Lula lá" e "Brasil urgente, Lula presidente". Sem o citar, falou do atual presidente e principal rival na corrida à presidência, Jair Bolsonaro. "Pode até se dizer cristão, mas não tem amor no coração".

"Governar deve ser sobretudo um ato de amor", continuou Lula perante representantes dos sete partidos de centro, de centro-esquerda e de esquerda que o apoiam, e da antiga presidente Dilma Rousseff e do candidato a governador de São Paulo Fernando Haddad, brindados com duas das mais sonoras ovações. "O Brasil é grande demais para ser subjugado ao estatuto de pária no mundo, em setembro, o Brasil comemora 200 anos da independência de Portugal mas jamais teve a sua independência tão ameaçada hoje".

Lula foi surpreendido com vídeo editado pela noiva, Janja, com artistas consagrados, como Maria Rita, Zélia Duncan, Paulo Miklos, Martinho da Vila, Pabllo Vittar, Chico César e outros. "Vou apostar na cultura, a cultura vai criar riqueza de novo neste país".

Alckmin, ausente por ter contraído covid, gravou mensagem em ecrã gigante. Começou por criticar a gestão de Bolsonaro. "O Brasil sobrevive hoje ao mais desastroso e cruel governo da sua história, perdulário, hipócrita, patrocinador de conflitos inúteis, despreparado, ineficiente, injusto e irresponsável".

"As alianças impõem-se porque é a defesa da própria democracia que está em jogo, quando Lula me estendeu a mão, eu vi nesse gesto muito mais do que um sinal a um adversário histórico, mas uma chamada de razão". Alckmin, alcunhado de "chuchu", um legume sensaborão, por causa da sua suposta falta de carisma, fez piada com o assunto - "lula com chuchu vai ser um prato de sucesso em 2022".

O vice escolhido por Lula tem, sobretudo, uma função: aproximar o presidente do centro. No fundo, a mesma estratégia de 2002, quando o ex-sindicalista chamou o já falecido empresário José Alencar, representante do capital, para o acompanhar.

Nos símbolos, essa aproximação já está em marcha: além do encarnado tradicional do PT, o cartaz oficial de Lula e Alckmin inclui o verde e amarelo do Brasil, cores que a esquerda reclama terem sido resgatadas por Bolsonaro.

Nos últimos dias, a campanha de Lula sofreu reveses sucessivos, ao ponto de o coordenador, o ex-ministro Franklin Martins, muito criticado, ter sido demitido, e substituído por Edinho Silva e Rui Falcão, dois barões do PT com larga experiência política. Entre esses revezes, frases de improviso de Lula em discursos que causaram repercussão negativa no eleitorado.

A frase "o aborto é uma questão de saúde pública" caiu mal nos setores mais conservadores que Lula quer atrair. Mais tarde, teve de acrescentar que é "contra o aborto". Noutro discurso, afirmou que "Bolsonaro não gosta de gente, gosta de polícia", o que causou incómodo nas forças de segurança. Teve de se retificar também: "queria dizer milícia, muitos dos nossos polícias são heróis". E, finalmente, em entrevista de capa à revista americana Time considerou "Putin e Zelensky igualmente responsáveis pela guerra". No dia seguinte justificou que a entrevista foi feita em março, quando o ponto de situação na Ucrânia era outro.

Talvez como consequência das gafes, o antigo presidente optou este sábado por ler um discurso previamente escrito, ao contrário do que é usual.

O anúncio da candidatura de Lula foi também, como de costume, pretexto para uma festa popular. Nas imediações do centro de eventos vendia-se, além de comes e bebes, camisas alusivas ao candidato e ao PT.

"As camisas são a 30 reais [cerca de seis euros] mas não são para mim, são para a luta", dizia ao DN, o vendedor, que responde pelo nome óbvio de Alex das Camisas. Entre os modelos, a camisa com a icónica imagem de Lula, a negro, qual Che Guevara, ainda é o principal sucesso.

Mas há outras, alusivas à eterna desigualdade do Brasil - "a casa grande surta quando a senzala aprende a ler". E as dedicadas a classes profissionais tradicionalmente simpáticas ao antigo presidente - "lute como uma professora" -, e até àquelas mais próximas do rival Bolsonaro - "polícias anti-fascistas presentes". Além das mais descontraídas: "só quero picanha, cerveja e Lula 2022".

Os apoiantes mais animados, sem surpresa, eram os que vinham de mais longe. Ademar chegou de Brasília com gravura de Lula nas mãos. "Porquê?", perguntou meio indignado ao DN. "É como nas procissões, ué: as pessoas não tiram a imagem do santinho de devoção e carregam-no junto ao andor? Então, esse homem é o meu santo, me deu comida no prato, casa própria e, agora, a minha filha acaba de se formar".

Também de Brasília, a drag queen Ruth Venceremos, candidata a deputada pelo PT no Distrito Federal, veio acompanhada de um séquito de fãs. "Sempre fui Lula mas o fascismo que vivemos nos últimos anos me obrigou a entrar no partido e a candidatar-me".

O pastor Luizão, evangélico, veio do Rio de Janeiro com uma mensagem: "Evangélico consciente quer Lula presidente". "Já eu sou do candomblé, sou do terreiro, sou da cultura afro-brasileira, sou Lula 2022", acrescentou Francileine Ramos, ao DN.

Lula, 76 anos, foi candidato derrotado três vezes à presidência do Brasil - uma por Collor de Mello, duas por Fernando Henrique Cardoso - antes de vencer duas eleições seguidas, em 2002 e 2006, e nomear a sucessora Dilma Rousseff no auge da sua carreira política.

O pior período da sua vida, entretanto, veio logo a seguir com o impeachment de Dilma e a prisão, no âmbito da Lava Jato, por 580 dias. Solto, Lula vem ganhando consecutivas batalhas jurídicas ao ponto de ter visto restituídos os direitos políticos e poder concorrer à presidência outra vez. Segundo a última sondagem, do instituto Ipespe, lidera a corrida com 44 pontos, mais 13 do que o atual presidente, Jair Bolsonaro.

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