Guterres e o 2.º mandato com um "plano de batalha para todas as crises"

O Conselho de Segurança aprovou, por unanimidade , uma recomendação para um segundo mandato do português como secretário-geral. Confirmação formal está para breve.

Enquanto o Conselho de Segurança aprovava, por unanimidade , uma recomendação para o seu segundo mandato como secretário-geral da ONU, António Guterres continuava a trabalhar. "Muitos dos benefícios que o oceano global nos dá estão a ser destruídos pelas nossas próprias ações", afirmou ontem numa conferência que assinalava o Dia Mundial dos Oceanos. O antigo primeiro-ministro português e ex-alto comissário da ONU para os refugidos está à frente das Nações Unidas desde janeiro de 2017 e deverá cumprir mais cinco anos. Mas enquanto o seu nome se espalhava pelos sites de notícias de todo o mundo, Guterres condenava no Twitter o ataque contra uma família muçulmana no Canadá. "O meu coração está com as vítimas, os familiares e amigos - e comunidade. Temos de nos unir contra a islamofobia e todas as formas de ódio, agora mais do que nunca", escreveu naquela rede social.

Aos 72 anos, Guterres era o único candidato a secretário-geral da ONU já que, apesar de ter havido dez candidaturas individuais, nenhuma foi aceite, por não contar com o apoio de qualquer dos 193 países membros da organização.

Numa breve sessão à porta fechada, o Conselho de Segurança foi unânime em recomendar à Assembleia-Geral das Nações Unidas a manutenção do seu líder, anunciou o presidente em exercício daquele órgão, o embaixador estónio Sven Jürgenson. A confirmação formal da Assembleia-Geral é aguardada para breve.

Após um primeiro mandato dedicado em parte a conter as consequências potencialmente dramáticas para a ONU da política unilateral do então presidente dos EUA, Donald Trump, Guterres deverá agora ter "um plano de batalha para todas as crises". De facto, o balanço do seu primeiro mandato carece de uma grande vitória diplomática, com os conflitos na Síria, Iémen ou Mali ainda desesperadamente à espera de uma solução.

É verdade que o há uma pacificação em curso na Líbia, mergulhada no caos desde a revolta popular que em 2011 resultou na morte de Muammar Kadhafi, mas a ONU é muitas vezes vista sobretudo como uma instituição que acompanha os acontecimentos, mais do que um interveniente ativo.

Os críticos não poupam o que consideram ser a passividade das Nações Unidas na perseguição feita pelos militares birmaneses à minoria rohingya. Uma situação que Guterres lamentou, alertando que o país está "à beira do genocídio".

O segredo está na discrição

Perante as críticas de que tem sido alvo, Guterres lembrou em maio que "elementos fundamentais" do seu trabalho dependem da discrição. "Por vezes, para sermos eficientes, temos de ser discretos, para estabelecer canais de comunicação de bastidores entre as partes". E são esses canais que muitas vezes permitem "evitar os piores confrontos e encontrar soluções".

Nestes cinco anos, o português soube gerir com mestria as pressões constantes - de pequenos países e grandes potências - a que o cargo o deixa sujeito. E a verdade é que o facto de ter evitado alienar qualquer um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, EUA, França, Reino Unido, Rússia - com direito de veto) garantiu-lhe o segundo mandato. "Estamos em dívida para com ele porque a ONU não implodiu com Trump, o que podia ter acontecido", admitiu um diplomata de um desses cinco países à AFP, a coberto do anonimato.

O seu legado será agora definido no segundo mandato, com a gestão de conflitos a ser o grande desafio, além da luta contra as alterações climáticas, que já estabelecera como prioridade nos primeiros cinco anos, cuja reta final ficou também marcada pela luta contra a pandemia de covid-19.

Quem não lhe poupa críticas são as ONG, que acusam o português de não ter feito o suficiente na defesa dos direitos humanos. "O primeiro mandato de Guterres foi marcado pelo silêncio sobre as violações dos direitos humanos pela China, Rússia, e pelos EUA e seus aliados", afirmou Kenneth Roth, diretor executivo da Human Rights Watch. E acrescentou: "Com a reeleição para trás das costas , Guterres devia usar os próximos cinco anos para se tornar num forte defensor dos direitos humanos [...] A sua recente disposição para denunciar abusos na Birmânia e na Bielorrússia devia alargar-se para incluir todos os governos que mereçam condenação, incluindo os poderosos e protegidos".

Em Portugal, o segundo mandato de Guterres foi recebida com elogios. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que "este foi um mandato muito difícil, e ele conseguiu ultrapassá-lo. Espero que este próximo mandato, se for confirmada, como tudo indica, a sua reeleição, seja não direi mais fácil, mas menos complicado do que o anterior". Já o primeiro-ministro António Costa saudou "um incansável lutador pela paz, um defensor dos direitos humanos e um grande advogado da ação climática para a defesa do futuro da humanidade".

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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