Grupos russos interferiram nas eleições alemãs com notícias falsas e vídeos maipulados por IA
CLEMENS BILAN

Grupos russos interferiram nas eleições alemãs com notícias falsas e vídeos maipulados por IA

Eleitores alemães, que escolheram hoje mudar de Governo, estiveram expostos a narrativas falsas manipuladas por IA e com base na Rússia, que favoreciam a extrema-direita, indica o CeMAS.
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Os eleitores alemães, que foram a votos este domingo, foram expostos, nos últimos meses, a abundantes narrativas online de extrema-direita a partir de conteúdos falsos gerados por Inteligência Artificial (IA) e de campanhas de desinformação russas, segundo especialistas citados pela Sky News. Dois grupos conhecidos e baseados na Rússia, como o "Doppelganger" e o "Storm-1516", que as autoridades norte-americanas descobriram estar activos nas eleições americanas do ano passado, estiveram envolvidos também nas eleições germânicas, garantem especilialistas que monitorizam as redes sociais, citados por aquela estação televisiva. Só entre dezembro de 2024 e meados de janeiro de 2025, o Centro de Monitorização, Análise e Estratégia (CeMAS) encontrou um total de 630 posts em alemão com padrões típicos do Doppelgänger na rede X.

Algumas destas campanhas usaram inteligência artificial para divulgar as suas mensagens, sendo que o partido de extrema-direita alemão Alternativa para a Alemanha (AfD), que deverá ficar em segundo lugar de acordo com os resultados preliminares, tem sido mais activo nas redes sociais do que outros partidos durante a campanha, concluiram as mesmas análises. Os métodos incluem a criação de notícias falsas de TV ou vídeos profundamente falsos de aparentes "testemunhas" ou "denunciantes" fabricando histórias sobre políticos proeminentes. “Um dos casos ocorreu em Novembro de 2024, pouco antes da convocação das eleições antecipadas, com a publicação de um vídeo que afirmava que um deputado apoiante da Ucrânia era um espião russo”.

Noutro vídeo, uma mulher de 18 anos acusou um ministro alemão de abuso sexual infantil. Veio a verificar-se que não só a acusação era falsa, como o vídeo foi feito usando IA. Um relatório recente do CeMAS, um grupo de reflexão sem fins lucrativos especializado na análise da desinformação e do extremismo de direita, e da Alliance 4 Europe, que visa combater a desinformação digital, ligou ambas as histórias à campanha de desinformação russa Storm-1516.

Os investigadores também têm monitorizado a campanha Doppelganger, dirigida por uma empresa russa de relações públicas, a Social Design Agency, “amplamente divulgada como tendo ligações com o Kremlin”. Eles descobriram que a principal tática do grupo é criar artigos de notícias falsas, que muitas vezes se assemelham a publicações conhecidas. Uma rede de contas nas redes sociais compartilha e divulga esses artigos em diferentes plataformas.

As mensagens muitas vezes parecerão ser de um cidadão preocupado, como a que se lê abaixo: “Estou preocupado que a ajuda à Ucrânia tenha impacto na nossa capacidade de investir nas nossas próprias infra-estruturas e sistemas de segurança social”. A publicação tem um link para uma notícia falsa criticando o financiamento da Alemanha para a guerra na Ucrânia, num site falso semelhante ao jornal alemão Der Spiegel. “Diferentes campanhas russas estão a tentar, por um lado, desacreditar os partidos estabelecidos”, diz Julia Smirnova, pesquisadora senior do CeMAS. "Por outro lado, também querem impulsionar a AfD, de extrema direita." “Não se trata apenas de um vídeo falso ou de um artigo falso. Há um esforço sistemático para criar constantemente esta enxurrada de notícias falsas, de propaganda, e continuar a divulgá-las”, diz Julia Smirnova.

Para Ferdinand Gehringer, consultor de políticas de cibersegurança, a interferência russa online não é uma surpresa. “Existem objetivos claros para a Rússia interferir e também manipular a nossa opinião pública”, diz ele. Desde o plano do partido de parar de enviar armas para a Ucrânia até aos seus apelos para aumentar as importações de gás russo, ele diz que "a Rússia vê no programa e nas ideias da AfD as melhores opções para a cooperação futura". O CeMAS encontrou pelo menos um caso em que uma história falsa originada de uma campanha russa foi espalhada por um político da AfD. Stephan Protschka, um membro parlamentar, publicou nos seus canais de redes sociais que o Partido Verde estava a trabalhar com a Ucrânia para recrutar pessoas para cometer crimes e culpar a AfD, uma narrativa que os investigadores dizem ter origem numa campanha de desinformação russa. O visado não quis falar com a Sky News.

Os analistas apontam igualmente o crescente fenómeno de criação de perfis no Instagram de personagens apoiantes da AfD, com mensagens políticas muito estudadas, por exemplo, de mulheres bonitas, com imagem manipulada por IA, que não se sabe serem reais pou falsas. O objetivo assumido é o de que uma mulher bonita tem o potencial de captar mais audiência e ter uma mensagem mais confiável. A julgar pelos resultados eleitorais a estratégia foi bem sucedida.

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