Fora Netanyahu, o que muda com o "governo da mudança" em Israel?

A fragilidade do executivo de oito partidos de esquerda, centro e direita dificulta avanços em políticas que não sejam consensuais e afastará a discussão de temas polémicos.

A passagem de testemunho durou 25 minutos e não houve direito à fotografia da praxe. Um dia depois de o novo executivo israelita ser aprovado no Knesset, pela margem mínima, Benjamin Netanyahu entregou ontem as chaves do gabinete que ocupava há 12 anos a Naftali Bennett. O "governo da mudança" já começou a trabalhar, mas fora a saída do líder do Likud o cenário não é propício a verdadeiras mudanças.

Com uma coligação de oito partidos de todos os lados do espetro político (dois de esquerda, dois de centro, três de direita e um árabe) os analistas não esperam grandes alterações. Simplesmente porque a maioria é frágil e não será conveniente tocar em temas problemáticos. Deverá contudo haver maior contenção, nomeadamente na forma como a mensagem é passada - Netanyahu não temia o confronto.

Apesar de o novo primeiro-ministro ser um ultranacionalista religioso - é judeu ortodoxo e o primeiro chefe de governo a usar regularmente o kipa (o pequeno chapéu que cobre o topo da cabeça) -, que apoia a expansão dos colonatos e se opõe ao Estado palestiniano, não poderá pressionar nesse sentido porque arrisca perder algum dos aliados. E basta uma saída para pôr o executivo em risco.

Neste aspeto, também não haverá vontade de acabar com o conflito israelo-palestiniano, o que poderia implicar eventuais concessões aos palestinianos. Mas uma anexação da Cisjordânia ocupada ou a invasão da Faixa de Gaza também estarão provavelmente fora da mesa - ninguém porá contudo em causa o direito de Israel a defender-se, caso haja o reacender do conflito com o Hamas, o movimento islamita que controla Gaza.

O primeiro-ministro palestiniano, Mohammed Shtayyeh, disse ontem que a saída de Netanyahu "marca o fim de um dos piores períodos da história do conflito israelo-palestiniano". Mas também deixou claro que o novo governo não é "menos mau". Desde logo porque não há plano para travar a expansão dos colonatos.

Árabes-israelitas

As maiores mudanças podem ocorrer a nível de política interna, numa altura de tensão com a comunidade árabe-israelita - descendentes dos palestinianos que ficaram após a criação de Israel, representam cerca de 20% da população e queixam-se de discriminação. Durante o confronto de 11 dias com o Hamas, a violência alastrou-se às chamadas cidades mistas (onde judeus e árabes coabitam), tendo havido até receios de uma eventual guerra civil.

A Lista Árabe Unida (ou Ra"am), o partido islamita de Mansour Abbas, é um dos membros da coligação, tendo feito depender o seu apoio de mais dinheiro para as comunidades árabes. Resta saber quanto e o que outros partidos exigirão em troca. Dentro de 140 dias será preciso aprovar um novo orçamento, naquele que será o primeiro grande desafio ao governo.

Outro desafio prende-se com as políticas sociais, que estiveram no centro da campanha dos partidos à esquerda ou até centro - como legislação para avançar com os direitos da comunidade LGBT. Temas que os partidos à direita não irão apoiar, tal como o próprio Ra"am também não o fará. E que podem ser mais um foco de tensão.

Amigos e inimigos

Em matéria de política internacional, o Irão é o inimigo e nenhuma alteração de governo alterará isso. Israel foi contra o acordo nuclear, entretanto abandonado pelos EUA, e essa posição irá manter-se, mas os responsáveis acreditam que as críticas em relação ao reatar do acordo (está em renegociação) serão feitas à porta fechada e não em público. Os Acordos de Abraão, de retomar das relações com países árabes, são para manter.

O novo chefe da diplomacia, Yair Lapid (que será primeiro-ministro na segunda metade do mandato), prometeu melhorar as relações com os democratas norte-americanos (Netanyahu tinha-os antagonizado). Em relação à Europa, disse querer aprofundar os laços, lembrando que "gritar que toda a gente é antissemita não é política. apesar de por vezes parecer certo".

E Netanyahu?

Após 12 anos no poder (15 se tivermos em conta um primeiro mandato entre 1996 e 1999), Netanyahu não vai desaparecer. "Vamos voltar rapidamente", disse num último discurso no Knesset enquanto chefe de governo. "Vou lutar diariamente contra este terrível governo de esquerda para o derrubar. Com a ajuda de Deus, isso vai acontecer muito mais cedo do que pensam", acrescentou o agora líder da oposição. A sua presença poderá contudo ajudar a coligação, lembrando-lhes o que os uniu à partida.

Netanyahu, de 71 anos, continuará também a enfrentar a justiça, sabendo que só como chefe de governo tinha o poder de evitar a prisão em caso de um veredicto negativo (negociando, por exemplo, um perdão com o presidente ou nomeando um novo procurador que lhe poderia oferecer um acordo). Agora, caso seja considerado culpado das acusações de fraude e corrupção, terá de cumprir pena - não seria o primeiro.

Se a coligação que teve como único objetivo afastar Netanyahu não sobreviver e Israel tiver de voltar a ir a votos, o líder do Likud (não parece haver oposição interna suficiente para o afastar) será de novo candidato e ainda poderá ter uma palavra a dizer.

susana.f.salvador@dn.pt

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