Está o Ocidente a ficar sem armas e munições para ajudar a Ucrânia?

EUA, Alemanha ou França deparam-se com problemas para substituir o inventário, já que a oferta não é capaz de dar resposta à procura. Mas a situação também afeta a Rússia.

A cada intervenção, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, apela aos aliados que continuem a enviar armas para ajudar a Ucrânia na resposta à invasão russa. Mas os alarmes soam no Ocidente, com indicações que os EUA, a Alemanha ou a França podem estar a ficar sem armamento ou munições não só para enviar para Kiev, mas também para se defenderem em caso de se verem envolvidos num conflito. Um problema que também estará a afetar a Rússia.

Segundo uma análise do Centro para os Estudos Estratégicos e Internacionais, citada pela AFP, algumas reservas norte-americanas estão "a chegar aos níveis mínimos necessários para os planos de guerra e treino" e voltar a abastecer de tudo para os níveis anteriores à invasão pode levar anos. Washington é o maior fornecedor de armas à Ucrânia, tendo já providenciado mais de 16,8 mil milhões de dólares de assistência militar a Kiev.

De acordo com a agência de notícias francesa, os EUA estão a aprender com esta situação, com responsáveis militares a reconhecer sob anonimato que as necessidades de munições são "muito maiores" do que o esperado. Um exemplo são as munições do sistema HIMARS. "Se os EUA enviaram um terço do seu inventário (tal como aconteceu com os mísseis Javelin e os Stinger), a Ucrânia recebeu oito mil a dez mil rockets. Esse inventário provavelmente durará vários meses, mas quando estiver esgotado, não há alternativas", indicou Mark Cancian, autor da análise citada. "A produção é de cerca de cinco mil por ano", acrescentou. Esforços estão a ser feitos e dinheiro está a ser gasto para aumentar a produção, mas pode levar anos.

E o problema não se limita aos EUA. Segundo um artigo na versão alemã do site Business Insider, o Exército alemão só tem munições para o máximo de dois dias no caso de se ver envolvido numa guerra - as regras da NATO exigem que, no mínimo, tenha o suficiente para 30 dias. A situação não é nova e já se arrastará há vários anos, tendo afetado no passado os treinos e os exercícios militares. E apesar de a Alemanha estar a fornecer armas a Kiev, não está a fazer grandes encomendas de novas armas para os seus próprios militares, indicou um responsável da indústria da Defesa ao site alemão. Os especialistas dizem que é preciso gastar mais 30 mil milhões de euros em armas até 2030, sendo que a quantidade de armamento necessário não está disponível.

Também os franceses estarão com o mesmo problema, com a Radio France a lembrar as palavras do ex-primeiro-ministro Laurent Fabius de que o país está a "receber os dividendos da paz". À medida que o espectro da guerra se foi afastando, as nações reduziram os gastos em Defesa e consequentemente em equipamento militar. Agora, há dificuldade em ajudar com mais armamento. Um exemplo: os 18 sistemas de artilharia Caesar que Paris terá enviado a Kiev (os dados são secretos) representam quase 25% da capacidade francesa.

A situação não será contudo melhor para os lados da Rússia. Segundo as autoridades ucranianas, Moscovo estará a tentar comprar armas. "Estão a negociar com países terceiros para comprar projéteis de artilharia, morteiros e componentes para sistemas de lançadores de rockets", segundo disse ontem o Estado-Maior, citado pelo site The Kyiv Independent, acrescentado que "os armazéns e arsenais bielorrussos continuam a ser outra fonte de abastecimento".

susana.f.salvador@dn.pt

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